*por Vitor Antunes
Como acompanhamos, ontem, sábado, em toda a imprensa, morreu Lindomar Castilho, ícone da música brega nos anos 1970/1980, mas também personagem central de um dos casos mais chocantes de assassinato de mulheres no Brasil — ocorrido antes mesmo de o termo feminicídio existir na legislação. A tipificação legal do crime só passaria a vigorar décadas depois. Em 1981, Lindomar matou com cinco tiros sua companheira, a cantora Eliane de Grammont (1955–1981), esse tipo de violência ainda era tratado sob outras denominações e, muitas vezes, relativizado pelo sistema de Justiça. Em tempo: neste ano de 2025, data da morte de Lindomar Castilho, Eliane de Grammont completaria 70 anos.
A repercussão desse episódio e de outros assassinatos de mulheres projetou o debate para o cenário nacional. Em 1982, a TV Globo produziu e exibiu a minissérie “Quem Ama Não Mata”, com 20 capítulos, inspirada diretamente em cinco crimes que mobilizavam a opinião pública naquele momento. No mesmo ano, feministas do Rio de Janeiro criaram a Comissão de Violência Contra a Mulher, exigindo o fim da aceitação social e jurídica do argumento da chamada “defesa da honra”, frequentemente utilizado para justificar o assassinato de mulheres.
Casos como esse se somaram a outros assassinatos de mulheres que chocaram o país e impulsionaram a organização do movimento feminista brasileiro. Em 1976, o homicídio de Ângela Diniz, mulher da alta burguesia, amplamente explorado pela mídia, levou feministas às ruas pela primeira vez para denunciar a impunidade dos agressores. O slogan “Quem ama não mata” tornou-se um dos lemas centrais do movimento, que passou a acompanhar julgamentos, pressionar o Judiciário e dar visibilidade a crimes cometidos por companheiros dentro do espaço doméstico.

Lindomar Castilho morreu sábado, dia 20 (Foto: Reprodução/Recuperada por iA)
Eliane conheceu Lindomar Castilho em 1977, na gravadora RCA. Ele vivia então o auge da popularidade como cantor de boleros, tendo vendido mais de 800 mil cópias de um de seus LPs — um número expressivo para o período. Após dois anos de relacionamento, os dois se casaram em 1979. Com o nascimento da filha, Eliane interrompeu temporariamente a carreira artística. No entanto, cerca de um ano antes de sua morte, o casal já estava separado, e a cantora havia retomado as apresentações, cantando em um bar da capital paulista em 1981.
Na noite do crime, Eliane se apresentava acompanhada do violonista Carlos Randall, músico e primo do próprio Lindomar, que o havia levado para São Paulo em 1974. Lindomar desconfiava de um possível envolvimento amoroso entre os dois, desconfiança que se intensificou quando Randall também se separou de sua esposa. Após ser baleada, Eliane chegou a ser levada a um pronto-socorro, mas deu entrada já sem vida.

Eliane de Grammont foi assassinada pelo cantor Lindomar Castilho. Em 2025, Eliane completaria 70 anos (Foto: Reprodução)
No início dos anos 1980, essa mobilização se intensificou. Mulheres voltaram às ruas para protestar contra uma sequência de assassinatos cometidos por maridos inconformados com separações ou conflitos conjugais. Em 28 de julho de 1980, Heloísa Ballesteros Stancioli, de 32 anos, foi morta com seis tiros pelo marido, o engenheiro Márcio Stancioli. Quatorze dias depois, em 11 de agosto, Maria Regina Souza Rocha, também de 32 anos, foi assassinada com seis disparos pelo paisagista Eduardo Souza Rocha, seu esposo. Em todos esses casos, os crimes ocorreram após os homens se sentirem contrariados de alguma forma — lógica que também se aplica ao assassinato de Eliane de Grammont.
A série da Globo apropriou-se do slogan que havia surgido nas pichações feministas espalhadas pelos muros das cidades brasileiras, contribuindo para ampliar o alcance do debate. Ainda assim, o argumento da “defesa da honra” só seria definitivamente rejeitado pelo Supremo Tribunal Federal em 2023, décadas depois de já ser contestado pelas ruas e pelos movimentos sociais.

Primeiro ensaio fotográfico de Angela Diniz para a extinta Fatos e Fotos, em 1962. “Meiguice de menina moça”, dizia a matéria (Foto: Biblioteca Nacional/Revista Fatos e Fotos)
Relembre a minissérie “QUEM AMA NÃO MATA”
O seriado estreou logo após a Copa do Mundo de 1982. O personagem interpretado por Cláudio Marzo (1940-2015) era mineiro, natural de Montes Claros, referência direta ao caso de Heloísa Ballesteros, assassinada pelo companheiro em Belo Horizonte. A escolha da origem do personagem funcionava como um diálogo explícito com crimes reais que haviam mobilizado a opinião pública no período.
O elenco inicialmente anunciado incluía Betty Faria, José Wilker (1944-2014), Stênio Garcia e Nuno Leal Maia, além de Antônio Pitanga e Marieta Severo. Eles, no entanto, acabaram não integrando a produção, embora tenham participado das etapas iniciais do projeto. Marília Pêra assumiu o papel principal em apenas quatro dias, após a recusa de Sonia Braga.

Quem Ama Não Mata foi exibida em 1982 (Foto: Reprodução)
Estima-se que cerca de 70% das cenas tenham sido gravadas em locações externas. Parte das filmagens ocorreu no Centro do Rio de Janeiro, enquanto outras foram realizadas em condomínios residenciais, como o Barramares, na Barra da Tijuca. O casal Chico e Júlia, interpretado por Daniel Dantas e Denise Dumont, morava no bairro de Santa Teresa, cenário que também serviu de locação para a trama.
Na época, também se especulou que a série pudesse ter se inspirado no crime cometido pela atriz Dorinha Duval (1929–2025), que matou o próprio marido. A hipótese, porém, foi negada por Hugo Carvana (1937-2014), integrante do elenco. Daniel Filho, um dos diretores da minissérie, era ex-marido de Dorinha Duval, o que reforçou as especulações, ainda que nunca confirmadas oficialmente.
De acordo com reportagem do Jornal do Brasil, publicada em 10 de julho de 1982, a produção sofreu diversos cortes impostos pela censura federal. A manchete da matéria, assinada por Diana Aragão, alertava: “Cortes da Censura obrigam TV Globo a refazer série que estreia segunda”. O texto foi publicado em um sábado, às vésperas da estreia.
Segundo a reportagem, uma das cenas vetadas abordava sexo durante a gravidez. Outra intervenção atingiu uma fala da personagem Laura, vivida por Susana Vieira, que dizia: “Lá vem você com essa mania de casamento”. Como a censura se pautava pela defesa dos chamados “valores da família” e pelo combate ao que classificava como “amor livre”, a frase foi considerada inadequada. Também foram cortadas expressões e diálogos como o uso da palavra “transar” — que, à época, nem sempre estava associada diretamente ao ato sexual (capítulo 1) — e a frase “amar dois homens ao mesmo tempo não é uma coisa fácil” (capítulo 2).

Hugo Carvana em “Quem Ama Não Mata”. (Foto: Nelson di Rago/Globo/Colorizada por iA)
Mesmo exibida em horário tardio, após as 22h, a minissérie registrou excelente audiência. Segundo levantamento do Jornal do Brasil, também assinado por Diana Aragão, a produção alcançou 40% de audiência no Rio de Janeiro e 26% em São Paulo. Naquele período, a medição era feita em porcentagem, e não em pontos, como ocorre atualmente.
A narrativa da série se iniciava com uma morte e se desenvolvia inteiramente em flashback. Apenas no último episódio era revelada a identidade da vítima: se Jorge, personagem de Cláudio Marzo, ou Alice, vivida por Marília Pêra. Daniel Filho foi categórico ao esclarecer o desfecho: “Quem morre é ela. A história do nosso cotidiano mostra o que acontece normalmente”. O autor Euclydes Marinho reforçou a afirmação ao sintetizar o eixo central da trama: “Quem mata é o homem”.
A Censura está no mesmo nível de 70/72, ou muito pior (…) A Censura é cínica, debochada e pornogáfica em seus cortes – Daniel Filho, à Diana Aragão, no JB – 10/07/1982.
Dois advogados e juristas de grande notoriedade foram convidados pelo Jornal do Brasil, à época, a “julgar” simbolicamente o crime retratado na série. Um deles foi Evandro Lins e Silva, o mesmo que havia atuado na defesa de Doca Street, assassino de Ângela Diniz, e que, naquele julgamento real, sustentou a tese que resultou em sua absolvição inicial. Ao analisar o caso ficcional, o advogado voltou a relativizar a violência cometida.
Para Evandro Lins e Silva, “a vida humana é um bem primordial e, portanto, deve ser preservada. Ninguém deve matar, ame ou não ame”. Ainda assim, ele afirmou que, no caso de Jorge e Alice, existiria “uma relação doentia, marcada por agressões e discussões constantes, com ele fixado obsessivamente nela”. Segundo sua interpretação, qualquer um dos dois poderia ter cometido o crime.
Em sua análise, recorreu a uma analogia controversa: “Em um milhão de pessoas nasce um corcunda; o passional é o corcunda do sentimento”. Para ele, o indivíduo dominado pela paixão seria excessivamente ciumento, inseguro e tomado por complexos, temeroso de não conseguir outra mulher. O advogado sustentou que Alice e Jorge viveram por oito anos em uma relação mórbida, na qual o ciúme crescente dele teria criado uma situação insustentável. Em sua leitura, provocações e humilhações da vítima em relação ao companheiro poderiam levá-lo a “perder a cabeça”. Ainda assim, reconheceu que, naquele caso específico, “ela era mais vítima do ciúme e da obsessão amorosa dele”, definindo o desfecho como “uma explosão de desespero”.
Outro jurista ouvido pelo Jornal do Brasil foi Evaristo de Moraes Filho, que também apresentou uma interpretação relativizadora do crime. Para ele, “a insegurança levou Jorge ao homicídio”, classificando o episódio como “muito mais um caso de psiquiatria do que de Direito”. Segundo sua avaliação, a solução não deveria ser simplesmente encarcerar o autor do crime, mas submetê-lo a tratamento. Evaristo argumentou que o amor, em sua forma saudável, conduz à renúncia, ao perdão e à compreensão, enquanto, no caso específico de Alice e Jorge, circunstâncias excepcionais teriam levado o personagem ao limite de sua resistência emocional enquanto ser humano.

Claudio Marzo e Marília Pêra em cena. O personagem dele mata o dela (Foto: Nelson di Rago/Globo/Colorizada por iA)
Na condição de advogado, Evaristo declarou que tenderia a assumir a defesa de Jorge, e não a acusação, conforme registrado na reportagem do Jornal do Brasil. Em sua opinião, tratava-se de “um homicídio cercado de fatores atenuantes”, o que justificaria a solicitação de uma pena branda ou até mesmo a absolvição. Ressaltou, no entanto, que seria indispensável examinar o passado do personagem para avaliar se o episódio representava um ato isolado de violência ou se Jorge possuía um histórico de comportamento agressivo, capaz de representar risco à sociedade, inclusive com a possibilidade de vitimar outras pessoas, como vizinhos ou amigos.
Na mesma época, o JB convidou uma delegada baiana, Valquíria Barbosa, a falar sobre o crime passional – especialmente por ter havido um caso semelhante, na Bahia. E ela deu uma versão mais alinhada à visão de hoje ao caso. Ela aponta que a cultura “latino-americana” (machista) punia socialmente o homem que não matasse ou não se vingasse de uma traição, rotulando-o como fraco perante a família e amigos. O crime era, muitas vezes, uma performance para manter o “status” social masculino.
No caso do feminicídio na Bahia, o assassino expulsou a mulher de casa e prometeu vingança, que se concretizou através de uma perseguição de 14 facadas. “Os golpes foram tantos que o criminoso perdeu a noção de quantidade”, informou a delegada. Sua última vítima, L., operadora de máquinas, encontrava-se em seu turno de trabalho, preparava-se para iniciar o serviço quando foi surpreendida. “Muitos homens não têm o desfecho felizmente trágico apenas por razões alheias às suas mãos. Em setembro do ano passado, registramos um caso em que a mulher foi morta, apesar de ter deixado nove filhos e dez netos de um marido. Essa seria uma característica latino-americana [de masculinidade]. Inclusive, quando o homem perdoa um adultério e recebe a mulher de volta, passa a ser rejeitado pela família e pelos amigos”.
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