Licínio Januário, de Vale Tudo, rompe estereótipos e traz debate sobre africanos que trabalham no ambiente corporativo


O ator angolano reflete sobre estereótipos que ainda marcam a representação da África no Brasil. Ele critica a visão limitada que reduz o continente a um coletivo indistinto e valoriza personagens que tragam legitimidade. Na novela Vale Tudo, seu personagem Luciano rompe com a caricatura histórica dos angolanos na TV. Licínio também fala sobre a pressão das redes sociais e celebra novos espaços para artistas negros. Para ele, tudo acontece no “tempo do tempo”, guiado pela palavra maleme: calma, tempo, caminhar devagar. Além de “Vale Tudo”, Licínio estará nas telas em três grandes estreias ainda este ano. A série do Globoplay, chamada “Vermelho Sangue”. O filme do Kleber Mendonça, que é o “Agente Secreto”, protagonizado pelo Wagner Moura e premiado em Cannes. Tem também “O Homem de Ouro”, do Mauro Lima, estrelado pelo Renato Góes.

*por Vítor Antunes

Para muitos, falar em África ainda é pensar em um coletivo indistinto – e nisso não há nenhuma poesia. O continente, na maior parte das vezes, não é lido como tal, mas confundido como se fosse um único país. Mesmo os Estados africanos, com suas identidades próprias, raramente são vistos em sua singularidade. Há ainda aqueles que, equivocadamente, são tomados como “africanos” sem o serem – caso do Haiti e da Jamaica, localizados na América Central. Licínio Januário, assim como seu personagem Luciano em Vale Tudo, é angolano. Nossa conversa começou sobre língua materna e idiomas nativos de Angola, e logo emergiu o primeiro preconceito: a ideia de que todo angolano fala fluentemente uma língua regional ou étnica. “Fui para a capital, Luanda, com 5 anos. As línguas acabam não ganhando tanto protagonismo. Então, eu não falo assim tal. Porém, lógico que algumas palavras fazem parte do nosso dia a dia lá”

Tal como existe essa noção pré-concebida ligada ao idioma, também há uma visão limitada sobre o que é ser angolano e viver no Brasil. Muitos se estabelecem no Rio, em São Paulo ou no Espírito Santo em condições de subemprego. Mas há também quem atue em carreiras que exigem formação e especialização, como Luciano. “Ele é um moleque preto, de Angola. O público, de modo geral, não sabe quantos angolanos, quantos africanos trabalham no mundo corporativo. Para esse cara estar ali dentro, é porque ele é muito inteligente. Sem aquele departamento, o prédio não funciona”, diz o ator.

A gente sabe qual o limite que dão para as pessoas pretas em no mundo corporativo, especialmente para as pessoas africanas – Licínio Januário

Além de “Vale Tudo”, Licínio terá uma temporada intensa nas telas em três grandes estreias ainda este ano. A série do Globoplay, chamada “Vermelho Sangue”. O filme do Kleber Mendonça, que é o “Agente Secreto”, protagonizado pelo Wagner Moura e premiado em Cannes. Tem também “O Homem de Ouro”, do Mauro Lima, estrelado pelo Renato Góes. E um filme do Carlos Saldanha que deve estrear no ano que vem”, revela.

A africanidade de Luciano, aliás, não era prevista inicialmente em Vale Tudo. “Para mim foi uma surpresa, porque não me foi dita no começo. Foi muito bom eu não ter tido essa informação logo no início do processo de criação do Luciano. Quando essa informação veio, a gente já tinha alguns episódios gravados”, recorda. Licínio celebra ainda a conquista de espaço por artistas negros em diferentes frentes da indústria. “Tem uma boa parte da população sendo contemplada. Está longe do ideal, mas nitidamente a gente está caminhando. Se a gente pensar dez anos atrás e comparar com agora, estamos num momento de contemplação, observando que essa é a fórmula real. Essa é a fórmula que dá certo: A fórmula que faz a população toda se sentir contemplada.”

Licínio Januário reacende o debate sobre representação de africanos nas novelas (Foto: Rael Barja)

Num momento em que se discutem as urgências e os excessos das redes sociais, Licínio escolheu o caminho da contenção. “Eu não tenho grupo nenhum no WhatsApp. Só o da minha família e agora o da novela. Não sou só uma pessoa que consome. Quando a gente vê, já está imerso nesse negócio. É nocivo demais. A nossa cabeça não dá conta do tanto de informação que está sendo jogada no mundo. Eu acho que a gente está ultrapassando os limites do que a mente humana consegue assimilar. É por isso que a gente está nessa onda de ansiedade e depressão”.

NO TEMPO DO TEMPO

Demorou muito para que angolanos fossem representados com dignidade nas novelas brasileiras. Nos folhetins mais antigos, como “Xica da Silva”, a personagem Maria Benguela (Lucimara Martins) trazia em seu próprio nome a marca de uma região de Angola, mas era retratada como escravizada e prostituída. Por anos, a presença angolana limitou-se a estereótipos: o “Angolano” — personagem sem nome, vivido por Romeu Evaristo — no humorístico Zorra Total também reduzia um país inteiro à caricatura.

Nos últimos anos, no entanto, a representação dos nativos de Angola ganhou contornos mais reais. O próprio Licínio Januário já havia interpretado um milionário angolano — ainda que vilanesco — em Segundo Sol. Mas com Luciano, em Vale Tudo, ele rompe de vez com a folclorização. “Quando a gente traz esses corpos para representar de fato, a gente não precisa ir para a sala de ensaio, não precisa ir para pesquisa. Basta ser. A gente é de verdade. Esse é o meu segundo angolano numa novela e completamente diferente um do outro. O que eles têm em comum é o fato de os dois terem uma condição de vida boa, de serem elegantes, educados”, explica.

Licínio Januário vive um novo africano numa novela das nove (Foto: rael Barja)

Licínio ressalta que há uma massa de angolanos no Brasil vivendo a correria diária em regiões como o Brás, em São Paulo, ou a Uruguaiana, no Rio. “Eu acho que o Luciano representa aquele grupo universitário que veio para o Brasil para se inserir no mercado. O Luciano tem um pouco de mim, do Licínio engenheiro. Porque eu estudei engenharia. Eu recebi a resposta da novela para este personagem depois de dez anos de trabalho no Brasil, entendendo todas as barreiras que ia encontrar dentro desse mercado. Demorou, mas durou o tempo que tinha que durar. Tenho meu cunhado, por exemplo, que é head de um banco de investimento grande. Estamos vivendo um momento novo em que as pessoas estão buscando ser mais legítimas. Essa legitimidade está vindo desse lugar: de trazer personagens que são pessoas reais.”

Licínio Januário acredita que o alcance para pessoas pretaws aumentou na novela e na televisão (Foto:Rael Barja)

Sobre contracenar com Taís Araújo — um fenômeno em Angola desde Xica da Silva — o ator confessa emoção. “Eu acho que eu fico tímido perto dela. Exatamente por ela ser superparceira, trocar ideia. É um mix de admiração, eu a vejo como uma parente. Eu era moleque e cresci vendo minhas tias se reconhecendo nela em cena. E hoje eu estou nesse mercado, nesse ritmo de gravação, trabalhando com pessoas que admiro. Existe uma responsabilidade. Trabalhar com a Taís é um mix de emoções: representatividade, admiração e também a parceria de colega de profissão.”

A entrevista começou falando sobre tempo — e foi com ele que terminou. No fim, tudo retorna ao tempo — esse fio invisível que tece trajetórias, desfaz estereótipos e abre espaço para novas narrativas. Licínio Januário caminha com a serenidade de quem sabe que a pressa não constrói permanência. Sua palavra de origem, maleme, guarda a essência de uma travessia: calma, calmaria, tempo, caminhar devagar. É nesse compasso que sua presença em cena se inscreve, não apenas como personagem, mas como testemunho de uma África plural, digna e singular, que enfim encontra ressonância em vozes reais. Para Licínio, cada conquista e cada papel se inscrevem nesse compasso. “As coisas acontecem no tempo delas. No tempo do tempo. Para mim, está sendo uma aula para não ter pressa. A palavra que me define, no meu idioma natal, é maleme“.