Letícia Datena estreia no SBT, fala de comparações com o pai, preconceitos e celebra 10 anos no automobilismo


Com trajetória construída entre o Brasil e o exterior, ela estreia como apresentadora do “Webmotors TV”, relembra o início da carreira marcado por cobranças, preconceitos e episódios de assédio, fala do peso, e da dualidade, de carregar o sobrenome de José Luiz Datena. Destaca ainda o espaço das mulheres na área e projeta novos rumos na carreira, sem abrir mão do desejo de formar uma família

*Por Brunna Condini

“Sempre tive que me provar muito.” É assim que Letícia Datena resume o início de uma trajetória marcada por comparações inevitáveis, e pela decisão de transformá-las em combustível. Filha do apresentador José Luiz Datena e da jornalista Mirtes Wiermann, ela cresceu com duas grandes referências por perto, mas construiu sua carreira de forma independente. “Quando fui morar fora do Brasil, ninguém sabia quem era meu pai. Quando comecei a me destacar internacionalmente, percebi que estava no caminho certo. Foi fundamental para minha autoconfiança. Ali entendi que eu era boa no que fazia”, lembra, referindo-se ao período em que fez a transição da carreira de modelo para o jornalismo esportivo, indo cobrir o futebol no Chile. Depois de trabalhar como repórter do Domingão do Faustão e comandar programas em canais como BandSports e FoxSports, Letícia estreia como apresentadora do Webmotors TV no SBT, ao mesmo tempo em que celebra uma década de carreira focada no automobilismo: “É uma consequência natural da minha trajetória, mas acaba sendo uma grande virada também”.

Além de ser apresentadora oficial da Stock Car, Letícia integra o time de comunicação da Fórmula E, que pertence ao mesmo grupo da Fórmula 1. Acostumada a circular entre transmissões como repórter e comentarista, criou um modelo de atuação conectado às organizações do automobilismo. Agora, ao assumir um programa em rede nacional, amplia esse alcance para além do nicho e aposta justamente no que considera seu diferencial: fugir do lugar comum. “Mais do que falar do que review de carros, gosto de contar histórias. Mostrar brasileiros que estão lá fora, engenheiros, pilotos, mecânicos. Trazer o lado humano e cultural do automobilismo é uma porta de entrada para quem ainda não conhece esse universo”. Mas antes da credibilidade conquistada, houve a necessidade constante de provar que estava nos lugares por mérito:

Já comecei com uma cobrança maior. Tinha gente que achava que eu estava ali por causa do meu pai, ou por ser uma mulher bonita, que não podia ser inteligente – Letícia Datena

Letícia Datena estreia no SBT e celebra 10 anos no automobilismo: “Sempre tive que me provar muito” (Foto: Reprodução/Instagram)

Letícia Datena estreia no SBT e celebra 10 anos no automobilismo: “Sempre tive que me provar muito” (Foto: Reprodução/Instagram)

A pressão, no entanto, encontrou resposta no estudo, e na construção de um caminho singular dentro do jornalismo esportivo. “Quando você domina a informação, não tem para ninguém. Investi muito nisso, em estudar, em sair do lugar comum”, afirma. Dentro de casa, o olhar também era exigente. Letícia conta que o pai acompanhava de perto seus primeiros passos na profissão. “Ele era muito crítico. Me ligava no intervalo dos programas e falava: ‘Você está usando muito as mãos’, ‘não está natural’. Era uma crítica profissional, não maldosa”. O reconhecimento, quando veio, teve peso definitivo: “Um dia ele me ligou e disse: ‘Filha, você está pronta’. Aquilo foi muito importante para mim”.

Datena e a filha Letícia: apoio e troca (Foto: Reprodução/Instagram)

Datena e a filha Letícia: apoio e troca (Foto: Reprodução/Instagram)

Mesmo depois de tanto tempo, você ainda fala muito sobre o espaço da mulher nesse meio. Qual foi o momento mais difícil para conquistar respeito? “Sem dúvida o início. Comecei como modelo e carregava o peso do nome do meu pai. Geralmente havia preconceito: achavam que eu estava ali pela aparência ou por influência”. E divide:

Cheguei a passar por situações que hoje identificamos como assédio, mas que na época eram normalizadas. Foi difícil, mas estudei e investi na construção de repertório para me afirmar na área – Letícia Datena

"O mais difícil foi o começo. Vinha do universo da moda e carregava o peso do nome do meu pai. Havia preconceito" (Foto: Vitor Vieira)

“O mais difícil foi o começo. Vinha do universo da moda e carregava o peso do nome do meu pai. Havia preconceito” (Foto: Vitor Vieira)

A percepção de que o caminho poderia ser mais exigente nunca foi exatamente um marco, mas uma presença frequente. “Sempre existiram dúvidas. Nunca ficou explícito, por exemplo, se uma porta fechada que eu encontrava no caminho, era por mim ou por causa do meu pai. Mas também existiu o oposto, porque muita gente gosta dele. No fim, entendi que ninguém te coloca em um lugar só por influência: você precisa dar resultado”, afirma Letícia, que completa 10 anos dedicada exclusivamente ao automobilismo.

Construir uma carreira com credibilidade não é fácil, leva tempo e não existem atalhos. Fico muito feliz em colher esses frutos hoje e poder inspirar outras mulheres – Letícia Datena

"Gosto e contar histórias. Trazer o lado humano e cultural do automobilismo é uma porta de entrada para quem ainda não conhece esse universo" (Foto: Vitor Vieira)

“Gosto e contar histórias. Trazer o lado humano e cultural do automobilismo é uma porta de entrada para quem ainda não conhece esse universo” (Foto: Vitor Vieira)

Já sobre o fato de José Luiz Datena ser uma figura controversa, Letícia demonstra total consciência, e até maturidade ao lidar com isso: “Naturalmente, uma pessoa com 50 anos de televisão, polêmica como ele sempre foi, tem suas inimizades”. Essa percepção aparece, por exemplo, quando ela relembra um momento no início da carreira: ao ser contratada, ouviu de um executivo que já havia tido “histórias” com seu pai. A reação dela foi imediata. “Eu pensei: as histórias devem ter sido boas, porque se ele quisesse me ferrar ou dar o troco no meu pai, ele não ia me contratar”, diverte-se.

O que ainda precisa mudar para as mulheres ocuparem mais espaço no jornalismo esportivo? “Acho que já está mudando. É uma questão cultural. Precisamos incentivar meninas desde cedo a se interessarem por esse universo. Não vejo diferença de capacidade, vejo diferença em quem se prepara e estuda. E eu, me dedico, estudo muito”.

Entre novos rumos e o desejo de criar raízes

O futuro, para Letícia Datena, não passa necessariamente por repetir o ritmo intenso dos últimos anos. “Daqui a um tempo, não me vejo viajando tanto quanto hoje. Me vejo talvez mais nos bastidores, no planejamento estratégico, mas ainda ligada ao automobilismo. É um mercado muito dinâmico, difícil prever”, diz.

Entre os próximos passos, ela aponta o desejo de ampliar sua presença em formatos na TV. “Gostaria de ter mais experiências em programas de estúdio, com entrevistas e interação. Também tenho vontade de trabalhar com Fórmula 1, embora a Fórmula E seja a minha casa”. A possibilidade de transitar pelo entretenimento também existe, ainda que com ressalvas:

Gosto do trabalho no entretenimento, mas sou reservada. Se conseguir equilibrar isso com a minha privacidade, faria com prazer – Letícia Datena

"Quero criar raízes, formar uma família. Esse é um projeto importante para mim agora" (Foto: Vitor Vieira)

“Quero criar raízes, formar uma família. Esse é um projeto importante para mim agora” (Foto: Vitor Vieira)

Às vésperas dos 40 anos, a apresentadora olha para trás com a sensação de ter construído um caminho próprio, e para frente com o desejo de expandi-lo, sem abrir mão do que ainda quer viver fora do trabalho. “Tenho muito orgulho do que construí. Foi um caminho único, muito artesanal. E sigo querendo mais, profissionalmente e pessoalmente. Quero criar raízes, formar uma família. Esse é um projeto importante para mim agora”, diz Letícia, que namora o economista e comentarista Samy Dana.