Letícia Datena, após renovar com a Stock Car, faz mapeamento genético e acende debate sobre câncer de pele


Reconhecida pelo pioneirismo no jornalismo esportivo de automobilismo, Letícia trouxe à tona um debate crucial neste Dezembro Laranja: a conscientização sobre o câncer de pele. Após um exame genético revelar predisposição à doença, ela adotou novos hábitos, como o uso de protetor solar e consultas dermatológicas regulares. Segundo o INCA, o câncer de pele é o mais prevalente no Brasil, com 176.930 casos de não-melanoma e 8.450 de melanoma anualmente. A apresentadora reforça a necessidade de maior conscientização pública. “Essa descoberta transformou minha vida”, disse, enfatizando a importância de exames preventivos. Além de sua rotina ao ar livre em eventos automobilísticos, Letícia adaptou seu estilo de vida para priorizar a saúde e se tornou uma defensora do tema, buscando inspirar outros a prevenirem riscos associados à exposição solar excessiva

*por Vítor Antunes

Uma mulher em plena velocidade! Por mais que o trocadilho posssa parecer óbvio, Letícia Datena é uma mulher que avança sem temor pela não-obviedade. Filha do jornalista José Luiz Datena, e, naturalmente, irmã dos também jornalistas Joel e Vicente Datena, Letícia não escolheu a comunicação através do jornalismo policial, como eles, mas pela via do esporte de volocidade. Letícia, por sua vez, iniciou a carreira como modelo, chegou ao futebol e depois ao automobilismo e é uma das poucas mulheres a cobrir StockCar. E sobretudo, avis-rara feminina no segmento, que conta com Mariana Becker, também na Band, pela Fórmula 1. “Quando decidi ser a apresentadora e seguir pelo automobilismo, percebi que não há muitas referências femininas. Uma de nós é a Mariana Becker e mais ninguém. Mas nas pistas há ainda menos. Quanto às pilotos temos a Bia Figueiredo, a Aurélia Noebbels e a Rafaela Ferreira. A gente acaba tendo esse papel também de servir como referência para outras meninas. Um dos meus projetos para 2025, inclusive, é produzir conteúdo. Tenho muitas meninas que me procuram para pedir conselhos por gostarem de automobilismo e eu as estimulo a focar na carreira e no  desenvolvimento pessoal”. E Datena antecipa: “Recentemente, recebi a proposta de renovação de contrato, já que eles são anuais, e continuarei na categoria no próximo ano”.

Para além da questão esportiva, neste Dezembro Laranja, que traz o debate sobre o combate ao câncer de pele, Letícia está no cerne da conscientização sobre o câncer de pele. A comunicadora fez um exame de rastreamento genético e este revelou que ela tem chances potenciais de manifestar a condição, que é um dos tipos de câncer mais prevalentes no Brasil. O câncer de pele pode ser de dois tipos: o melanoma e o não-melanoma. O primeiro responde por 8.450 casos no ano, afetando 4.200 homens e 4.250 mulheres, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA). Já o segundo, mais prevalente, responde por 176.930 casos, sendo 83.770 homens e 93.160 mulheres. Letícia diz que sempre foi preocupada com a sua saúde. “Fui sugerida a fazer esse exame para ver as tendências, as prediposições genéticas. Inicialmente me preocupei com o diabetes, mas foi revelado de que eu tenho tendência a ter câncer de pele. De modo que fui recomendada a fazer exame dermatológicos anualmente”.

Roberta Padovan, dermatologista que cuida de Letícia Datena. Ela analisa se há pintas, manchas e sinais que possam ser indicativos do câncer de pele (Foto: Divulgação)

 

Foi bom ter sabido disso já que eu tomava muito sol, sem protetor. Sou de uma época em que o pessoal queria ficar bronzeado demais e era bonito ficar excessivamente bronzeado. Além de tudo, eu trabalho ao ar livre, no Autódromo, fazendo em média 20 corridas por fim de semana e várias vezes sob o sol . Isso mudou a minha vida, já que eu passei a fazer mais exames. Esse acompanhamento, antes, passava batido – Letícia Datena

Letícia Datena e o médico Daniel Padilha, responsável pelo mapeamento genético (Foto: Divulgação)

Letícia conta que a descoberta fez transformações na sua vida, e profundas. Não só na forma como se maquiar, mas também na maneira de se vestir para ir ao trabalho. “Já estou usando protetor solar com mais frequência, assim como camisa. Uso dois tipos de protetor solar, sendo um de duração prolongada e depois faço a maquiagem por cima. Faço mais uso de boné também”, aconselha.

A gente vê muitos programas de conscientização sobre o câncer de mama, do Outubro Rosa, do Novembro Azul, mas eu não percebo muita coisa sendo feita sobre o câncer de pele. Acho que falta um pouco de de conscientização desse aspecto – Letícia Datena

Letícia Datena propõe um maior debate sobre a conscientização acerca do câncer de pele (Foto: Alex Lyrio)

NA TELA

Conforme citado no início desta reportagem, a ascendência familiar de Letícia é plena em jornalistas. Sendo seu pai uma personalidade forte e nacionalmente conhecida. A cobrança do público geral e da mídia especializada, claro, não era baixa nem discreta.Tanto que num primeiro momento, Letícia usava como sobrenome “Wiermann”, e não o atual. “Obviamente eu amo meu pai de paixão. Não teria outro pai. A grande vantagem em tê-lo próximo foi o de poder ser aconselhada por um dos melhores jornalistas brasileiros – bem como por minha mãe, Mirtes Wiermann. Mas eu conduzi a minha carreira sozinha, até sem empresário. É claro que se há um lado positivo, há o seu contraponto, já que meu pai também tem inimizades e há resistências a seu nome em alguns lugares. Ele é uma pessoa pública e às vezes as pessoas confundem o que o meu pai faz e fala. Não se pode generalizar quando, na realidade, nós somos pessoas diferentes”.

Eu sempre acreditei tanto na minha capacidade de me preparar e na minha capacidade de aprender que eu nunca questionei que era capaz – Letícia Datena

Letícia começou  a carreira como modelo aos 13 anos de idade. Aos 16 saiu do Brasil e ficou fora até os 26 trabalhando como modelo, quando retorna. Sua chegada na Stock Car foi, justamente, numa fase turbulenta do mundo, mas que ajudou a consolidar sua carreira. “Quando eu entrei na Stock Car, foi em um momento difícil, um período de transição em plena pandemia. Estamos falando de um campeonato de automobilismo que depende muito do público, então era uma situação complicada. Além de assumir a função de apresentadora e repórter, enfrentei o grande desafio de ajudar a estruturar todo um projeto de comunicação e marketing, incluindo o departamento de criação de conteúdo. Hoje, tenho orgulho de dizer que sou uma mulher à frente da Stock Car, sendo apresentadora e o rosto da categoria há mais tempo”.

Nos eventos esportivos, Letícia mantém os cuidados com a pele, com o uso de bonés e filtros solares (Foto: Divulgação)

A sua chegada ao segmento, porém, foi inesperada. Ela conta que, em 2016, decidiu fazer uma pausa na carreira e mudar-se para o Chile para concluir sua faculdade de jornalismo. No entanto, essa pausa durou apenas três meses, pois foi convidada para ser uma das apresentadoras de um programa de entretenimento no país. E foi lá onde descobriu sua veia “veloz”. “No Chile, descobri o automobilismo, que é muito forte no país, especialmente com a realização de etapas do World Rally Championship (WRC), uma das categorias mais importantes da FIA e a maior no rally mundial. O Chile estava se preparando para integrar o calendário do WRC e precisava de uma jornalista que falasse fluentemente inglês e espanhol, além de ter experiência com transmissões ao vivo. Apesar de não entender muito de automobilismo na época, essas habilidades me levaram a ser convidada para cobrir o evento. Foi aí que me apaixonei pelo esporte”.

Ela prossegue: “Meu trabalho foi bem recebido e acabei ficando nesse campeonato por três anos. No segundo ano, o Chile entrou oficialmente para o circuito mundial de rally, e os organizadores do WRC notaram meu desempenho durante as transmissões. Com isso, fui convidada para trabalhar com eles, tornando-me a primeira e única brasileira a fazer parte das principais transmissões do Campeonato Mundial de Rally. Depois disso, participei do Rally Dakar, a prova mais desafiadora do mundo. Foi nesse momento que percebi o potencial de nicho do automobilismo, tanto para minha carreira quanto para o mercado em geral”.

Letícia Datena é uma das poucas mulheres a cobrir automobilismo (foto: Divulgação)

Letícia traz uma importante reflexão sobre os desafios enfrentados por mulheres que buscam espaço no jornalismo esportivo, especialmente como cronistas e comentaristas. Ela destaca os preconceitos que ainda permeiam o ambiente e a forma estratégica como precisou lidar com eles para conquistar seu espaço. “Eu sabia que existia esse preconceito às mulheres comentaristas, então não entrei fazendo comentários, mas apoiando os locutores e as atrações, fazendo intervenções um pouco mais leigas. Até porque antes, quando eu comecei, eu era leiga, então tomei muito cuidado para evitar esse tipo de situação.”. Ela reconhece que, ao longo do tempo, foi construindo sua confiança e aprofundando seu conhecimento: “Conforme eu ia sentindo o terreno e sentindo que já tinha conquistado os meus colegas e as pessoas à minha volta, comecei a me aprofundar um pouco mais.” No entanto, ela aponta uma desigualdade gritante na reação às falhas:

É evidente que, se eu cometia qualquer erro — e até hoje é assim —, as críticas são muito mais pesadas do que, por exemplo, um homem que já está há muito tempo cometer. E às vezes eles cometem muito mais do que eu, porque eu sou muito mais estudiosa. – Letícia Datena

QUANTO AO TEMPO

Sobre a trajetória como modelo e a relação dessa experiência com o momento em que recebeu um convite para retornar à moda, mesmo após ter se consolidado como jornalista, ela destaca como a passagem do tempo é especialmente cruel com as mulheres, e ainda mais com as modelos, cuja carreira frequentemente é delimitada por padrões de idade.”Eu morei em oito países, como modelo eu ganhei a minha independência. Eu conheci lugares que eu jamais conheceria se eu não tivesse sido modelo. Eu aprendi a falar outros idiomas, eu gostava muito, mas eu tinha certeza que eu não poderia ser modelo para o resto da vida”.

Letícia também critica os padrões cruéis impostos às mulheres na indústria da moda: “É uma grande crueldade você condenar a mulher ao fato de que, quando ela chega a uma determinada idade, ela não é mais bonita, que ela não é mais exemplo de beleza.” Nesse contexto, o convite para voltar à moda foi recebido com surpresa e satisfação: “Eu fiquei muito surpresa e feliz ao mesmo tempo de ver que realmente a gente tá evoluindo nesse sentido. Estamos aí. Se pintar alguma coisa, eu acho que vai ser gostoso fazer e voltar.”

Letícia recebeu recentemente um convite a voltar a modelar (Foto: Alex Lyrio)

Além disso, Letícia aponta como a experiência prévia como modelo contribuiu para sua atuação como jornalista: “Hoje eu tenho muito mais intimidade com a câmera porque eu trabalho com a câmera desde os 13 anos de idade, então, óbvio que isso me ajudou na hora de ser jornalista. A gente absorve, e eu tenho muita coisa da métrica de modelo e uso até hoje na minha carreira de jornalista.” Essa conexão entre suas trajetórias demonstra a sinergia entre diferentes momentos de sua vida profissional.

Também reflete sobre como os ciclos de mudança têm moldado sua vida e sua visão para o futuro, especialmente após um ano de transformação pessoal e amadurecimento: “Eu sinto, a cada três ou quatro anos, alguma mudança importante na minha cabeça, no meu corpo. Eu acho que esse ano foi um ano de bastante transformação para mim, de bastante amadurecimento.”

Plenitude: “Me sinto mais calma, eu tô mais tranquila, eu sou mais segura para tomar decisões” (Foto: Alex Lyrio)

Ela ressalta como essas mudanças a tornaram mais segura e tranquila para lidar com decisões importantes e relações pessoais: “Perceber como eu mudei em relação a certas coisas. Como eu tô mais calma, eu tô mais tranquila, eu sou mais segura para tomar decisões. A gente aprende a se valorizar muito mais como mulher, como profissional.” Esse amadurecimento reflete uma postura mais seletiva e equilibrada em suas interações: “A gente naturalmente vai filtrando as pessoas que estão à nossa volta com mais tranquilidade. Então, assim, se não faz bem para minha energia, não me ajuda a crescer, você elimina com uma facilidade que, anos atrás, eu não ia conseguir.”

Uma mulher em constante movimento, Letícia Datena parece acelerar com a vida, mas sem jamais atropelar sua essência. Entre curvas fechadas e retas longas, ela se equilibra na precisão de quem aprendeu com as adversidades a dominar o volante. Seja desbravando as pistas do automobilismo, conduzindo pautas que inspiram outras mulheres ou revisitando os caminhos de sua própria história, Letícia traduz a coragem de transformar vulnerabilidades em força. Seu percurso é uma lembrança viva de que o tempo, embora implacável, é também cúmplice na construção de uma jornada singular — onde cada desafio vencido se torna um marco, e cada passo adiante, uma celebração.