*Por Brunna Condini
Depois de construir algumas das vilãs mais marcantes de sua geração, Letícia Colin agora atravessa um território inédito na televisão: o de protagonista do horário nobre. Em ‘Quem Ama Cuida’, próxima novela das nove da Globo, que estreia segunda-feira (dia 18), a atriz vive Adriana, uma fisioterapeuta que vê a própria vida desmoronar depois de perder o emprego, ter a casa destruída por uma enchente e enfrentar a morte do marido (Carlos, vivido por Jesuíta Barbosa). Mas, longe da ideia clássica da ‘mocinha perfeita’, Letícia aposta em uma heroína marcada por exaustão, luto, injustiça e resistência.
“Ela trabalha, e muito, como quase todas as mulheres brasileiras. Sustenta a casa, não sucumbe ao poder e ao dinheiro, supera lutos e segue cuidando. Só ela sabe a dor que sente por tudo que perdeu e de onde tira forças pra continuar lutando para viver dignamente”. Para atriz, Adriana carrega uma identificação imediata com mulheres reais: “Isso a gente conhece do berço, porque são as mulheres que nunca fogem. Essa força, essa retidão de caráter e esse tamanho de amor que essa personagem sente pela vida e pelos seus me comove. Recuperar o amor não banalizado é urgente. Adriana é necessária”, afirma Leticia, que também pode ser vista na terceira temporada de ‘Os Outros‘, no Globoplay, e se prepara para surgir, em julho, em ‘Jogada de Risco‘, série ambientada nos bastidores do futebol.
Letícia já define a experiência na nova trama como uma das mais desafiadoras de sua trajetória. “Estou muito honrada, é uma responsabilidade imensa e, sobretudo, é uma personagem deslumbrante que o Walcyr Carrasco inventou. Tenho cenas sensacionais que toda atriz que se preze gostaria de fazer. Muito bem construídas, fazendo uma personagem com complexidade, com objetivos na vida, que não é superficial”.
Uma novela que fala de injustiça, está falando do Brasil na essência – Leticia Colin

Leticia Colin estreia sua primeira protagonista das nove em ‘Quem Ama Cuida’: “Adriana é necessária” (Foto: Divulgação/Globo)
Letícia reconhece que a experiência da maternidade transformou profundamente sua percepção sobre o valor do cuidado, tema central de ‘Quem Ama Cuida‘. Mãe de Uri, de seis anos, ela fala sobre o ato de cuidar como algo ao mesmo tempo amoroso, exaustivo e complexo. “É imenso e é eterno. O cuidar pede muita sabedoria, muita rede de apoio, porque também precisamos ser cuidadas. Pede investimento em saúde mental. Ele pode pesar dentro de nós… no sentido da missão ser pesada. Somos cobradas o tempo todo”, reflete.
Ao mesmo tempo, conta viver hoje uma relação mais leve e prazerosa com tudo isso: “Tenho sentido muito prazer em cuidar. Uma satisfação verdadeira de ocupar esse lugar, e me sinto agora muito à vontade”. Ainda assim, ela admite que o desejo de proteger o filho exige vigilância constante para não ultrapassar limites:
O cuidar é tão complexo que às vezes pode sufocar o outro, pode querer barrar a experiência maravilhosa da própria vida: que precisa produzir o erro e os machucados. É assim que se caminha. Não quero nunca privar meu filho disso. O desejo de proteger é fortíssimo, então fico numa curadoria até de quando intervir mais ou menos – Letícia Colin

“De uns tempos pra cá tenho sentido muito prazer em cuidar. Uma satisfação verdadeira de ocupar esse lugar, e me sinto agora muito à vontade” (Foto: Divulgação/Globo)
Heroína real
Na trama assinada por Walcyr Carrasco e com direção artística de Amora Mautner, Adriana será atravessada por perdas sucessivas e precisará reconstruir a própria narrativa. Ao pensar na trajetória da personagem, Letícia acredita que o público contemporâneo já não se conecta tanto com personagens femininas idealizadas. “Não aceitamos mais sermos representadas dessa forma, sem nossas sombras e sem nossos desafios cotidianos de existir no mundo sem a própria integridade física garantida. Isso expandiu as camadas das personagens femininas, não dá pra aceitar falta de complexidade psíquica e emocional”, pontua. “Quero acreditar que, felizmente, para essa evolução na representatividade não há volta”.

“Não aceitamos mais sermos representadas de forma idealizada, sem nossas sombras e sem nossos desafios cotidianos de existir no mundo ” (Foto: Divulgação/Globo)
Acostumada a personagens intensas, ambíguas e muitas vezes explosivas, a atriz vê justamente na delicadeza e na resistência silenciosa de Adriana o grande desafio deste trabalho. E rejeita a ideia de que exista uma ‘disputa’ entre mocinhas e vilãs por protagonismo emocional dentro de uma trama. “Cabe tudo dentro do coração do público que ama novela. E acredito que a verdade e a visceralidade sempre comovem”, afirma. Leticia destaca ainda, que o desejo de interpretar Adriana partiu dela própria:
Pedi para fazer o teste para essa personagem justamente porque o desafio muito me interessa. Não faria sentido ser atriz e buscar ser camaleônica, sem me propor ao desafio de uma mocinha da novela das 21h. Estou nessa jornada desde os 8 anos para desvendar mundos – Letícia Colin

Leticia Colin e Antonio Fagundes protagonizam ‘Quem Ama Cuida’, a nova novela das nove da TV Globo (Foto: Divulgação/Globo)
E sinaliza que investigar o arquétipo da heroína vai mesmo muito além de uma personagem idealizada: “Ela erra, cai e levanta, supera os próprios medos e vence. Nos lembra que a gente sangra… e que é preciso cuidar, sobretudo, que é preciso não desistir. É a força de resistência da vida. De cultivar mesmo depois do extermínio. De replantar, de permanecer”.
A atriz acredita que a ligação com o público nasce justamente dessa humanidade compartilhada. “Certamente haverá conexão com o que temos de mais humano: a empatia diante da tragédia e a liberdade dos injustiçados. Quando o espectador se reconhece nessa jornada, o elo se faz”. E, mesmo ocupando o centro da narrativa, Letícia faz questão de também celebrar a força da antagonista vivida por Isabel Teixeira. “Ver Isabel dando show e marcando golaços como nossa vilã, já inesquecível, a Pilar, vai ser um deleite pra mim como atriz e como espectadora. Amo vibrar com grandes atuações dos meus queridos colegas”.

“Certamente haverá conexão com o que temos de mais humano: a empatia diante da tragédia e a liberdade dos injustiçados” (Foto: Divulgação/Globo)
Fé na justiça universal
Ao longo da trama, Adriana também será atravessada por uma dor capaz de empurrar qualquer pessoa para caminhos extremos, inclusive o da vingança. Mas, pessoalmente, Letícia diz enxergar uma diferença muito clara entre justiça e revide. “Eu, na minha vida, sei muito claramente que vingança jamais, justiça, sim”. E conta que a personagem reforçou nela uma percepção mais espiritual sobre reparação e sobrevivência diante das injustiças:
Confio nas forças do universo, e elas agem em nosso nome. Nem sempre é preciso ir pra linha de combate. As proteções se materializam – Leticia Colin

“Eu, na minha vida, sei muito claramente que vingança jamais, justiça sim” (Foto: Divulgação/Globo)
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