Larissa Maciel fala sobre o Outubro Rosa, estreia filme sobre o câncer e revela vivência de cuidados paliativos


Atriz atravessa um momento de recolhimento fértil. Longe das novelas desde 2019, ela tem se dedicado ao teatro e ao cinema, onde reencontra zonas mais íntimas de criação. Em Refúgio, curta dirigido por Daniel Pereira e Denise Sganzela, ela mergulha no tema do câncer e da adoção, tocando também sua própria experiência familiar — o pai, em tratamento paliativo, inspira reflexões sobre tempo, amor e finitude. Paralelamente, Larissa prepara o espetáculo Fim de Tarde, de Marcelo Aquino, e produz Um Prefácio para Olívia Guerra, de Liana Ferraz, reafirmando seu desejo de falar sobre as múltiplas camadas das mulheres. Conhecida pelo papel de Maysa, ela encara a personagem não como sombra, mas como herança luminosa

*por Vítor Antunes

Faz tempo que Larissa Maciel não aparece na televisão. Sua última novela foi “Jesus”, exibida em 2019. Mas isso não significa que a atriz tenha se afastado do ofício. Muito pelo contrário. Nos últimos anos, Larissa tem se dedicado intensamente ao teatro – e, mais recentemente, ao cinema. Neste ano, ela gravou “Refúgio”, curta-metragem dirigido por Daniel Pereira e Denise Sganzela. O filme aborda o câncer e a adoção a partir de uma perspectiva intimista, com traços autobiográficos do próprio diretor. Ao mergulhar no projeto, Larissa reencontrou zonas profundas de sua experiência pessoal. O pai da atriz, diagnosticado com câncer, vive atualmente sob cuidados paliativos – e a arte, mais uma vez, tornou-se um espelho delicado da vida.

Inclusive, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estipulou o dia 11 de outubro como sendo o Dia Mundial dos Cuidados Paliativos. “Infelizmente eu estou passando por um processo também parecido [ao do personagem]. O meu pai, está com câncer, em tratamento paliativo, mas fazendo quimioterapia. Todo esse processo a gente sabe que é muito doloroso para a família inteira passar, por mais que sejamos espiritualizados”.

É muito difícil a gente lidar com a morte, por mais que seja a coisa que a gente tenha mais certeza de que vai acontecer. Quando a morte está batendo na porta de alguma pessoa que a gente ama, da nossa família, a gente tem que conviver com isso. É um processo muito difícil – Larissa Maciel

Larissa Maciel no longa de Daniel Pereira e Denise Sganzela (Foto: Divulgação)

No set de Refúgio, entre câmeras, silêncios e lembranças, a atriz percebeu que o filme ultrapassa a narrativa sobre a doença. É, antes, uma reflexão sobre o tempo, o amor e as formas de permanência. “Acho que é um filme muito sensível, que vai emocionar as pessoas, e que fala dessa transformação. E que tudo se transforma, na verdade. O amor, ele continua, não acaba quando as pessoas partem desse plano. O amor se perpetua e é a razão pela qual a gente segue vivendo”.

Eu acho que tem algo de bonito na partida e na paliatividade. Há tempo para se preparar para a partida de alguém. Para tudo ser dito, para tudo ser colocado, para todos os ‘eu te amo’ serem manifestados, para todos os momentos de poder estar junto com a pessoa, serem vividos. Então, essa frase ‘valorize cada pequeno momento’, tem poesia, tem beleza. Dá para enxergar algo além do sofrimento – Larissa Maciel

Da experiência pessoal nasce também uma consciência pública. Larissa faz questão de exaltar iniciativas de prevenção, como o Outubro Rosa e o Novembro Azul, que voltam a cada ano para lembrar a importância da atenção à saúde. “Acho muito importante essas campanhas, muito efetivas. Elas lembram as mulheres de que elas precisam fazer os seus exames de mamografia, de ressonância, de prevenção. E aos homens, com relação ao câncer de próstata. O câncer de mama hoje em dia, tem chance de cura com o diagnóstico precoce. Então isso efetivamente salva-vidas”.

Larissa Maciel observa aquestão do câncer no longa e na própria família (foto: Divulgação)

TELA

Desde 2019, Larissa não faz novelas. “Eu saí da Record em 2019 e desde então eu não fiz mais novela. Eu estava bastante tempo na emissora, já havia feito 7 anos e fiz seis obras. Eu só não trabalhei enquanto estava grávida. Voltei a trabalhar quando a minha filha tinha 7 meses e trabalhei praticamente direto o período todo que fiquei lá. Fiz várias obras das quais tenho maior orgulho, mas eu senti que já havia tinha feito todos os personagens que eu poderia fazer dentro do que a Record se propõe, que são as novelas bíblicas”.

A pausa televisiva não foi um hiato, mas uma travessia. “Eu estava com muita saudade de fazer teatro, sentia uma necessidade. Optei por não fazer teatro enquanto estava contratada, fazendo novela e tendo esse grande volume de trabalho, porque eu tinha uma filha pequena. Estava com o pensamento de buscar o que fosse do meu interesse, o que eu queria falar, o que eu queria. Passei um tempo fazendo essa busca, e aí encontrei o que eu queria falar. Estou na preparação de um espetáculo que chama “Um Prefácio para Olívia Guerra”, que é um texto da Liana Ferraz, que é uma escritora que faz muito sucesso, e fala sobre questões femininas”. A montagem está em pré-produção.

No palco, Larissa reencontra uma zona de liberdade que a televisão, com sua engrenagem de urgências, costuma engolir. O texto de Ferraz a conduz a um território de mulheres – múltiplas, complexas, contraditórias. “As mulheres têm muitas camadas, são múltiplas. Então existem milhões de assuntos que ainda não foram abordados ou foram abordados, mas não na sua total complexidade”.

A gente passou muito tempo em que a palavra, a escrita, era uma prerrogativa masculina. Os homens escreviam sobre as mulheres. Então, as mulheres estarem contando as suas histórias, é uma novidade. É uma coisa relativamente nova, que implica em muitos prismas. – Larissa Maciel

Larissa Maciel está preparando-se para um novo trabalho em 2026 (Foto: Divulgação)

Essa multiplicidade também a leva a pensar sobre o tempo, a morte e o apagamento simbólico das mulheres criadoras. “Eu acredito que as histórias individuais, falam para um número maior de pessoas. Quanto mais a gente concentra na história de uma mulher, mais a gente está falando da história de várias outras mulheres. Muitas mulheres, são valorizadas depois que elas estão mortas. As escritoras morrem e aí elas passam a ser valorizadas. Quando elas passam a ser um produto, quando elas não têm mais voz ativa para dizer que a obra delas é isso ou é aquilo, ou que elas estão falando disso ou daquilo”.

FUTURO

Além dos trabalhos recentes, Larissa se prepara para voltar aos palcos no ano que vem , enquanto a montagem da peça com texto de Liana Ferraz está em produção. A atriz começa agora os ensaios de “Fim de Tarde”, texto de Marcelo Aquino. “Eu estou começando os trabalhos de ensaio de um espetáculo, com um texto bem provocante, bem reflexivo. A idéia é conseguir estrear no primeiro semestre do ano que vem no Rio e depois, viajar com a peça pelo Brasil”.

Conhecida por dar vida à cantora Maysa (1936-1977), na minissérie homônima de 2009, Larissa carrega com serenidade o legado da personagem. O papel, baseado na vida da artista falecida em 1977, foi um dos marcos da teledramaturgia brasileira – e se tornou, inevitavelmente, uma sombra luminosa na carreira da atriz. “Eu acho que é uma grande sorte quando um ator consegue ter um personagem muito marcante, porque a maioria dos atores vai fazer dezenas de personagens e as pessoas não vão lembrar. Mas alguns atores fazem personagens que marcam, que ninguém esquece. E Maysa é, para mim, essa personagem. Ela só seria um peso se as pessoas olhassem e dissessem: ‘Cara, olha ali Maysa de novo. Ela tá igualzinha à Maysa, sempre faz a mesma coisa’. Mas nos meus trabalhos, as minhas personagens são muito diferentes entre elas. Eu trouxe composições diferentes de personagens a cada um que entreguei. E acho que é inevitável as pessoas olharem para mim e lembrarem da Maysa. Fiz outros trabalhos depois que tiveram muita repercussão, que é o caso de “Os Dez Mandamentos”, que fora do Brasil é um sucesso estrondoso. Eu tenho, por exemplo, no meu Instagram, muitos falantes da língua espanhola, em razão do sucesso da novela na América Latina”.

Larissa Maciel deu vida à Maysa e Jayme Matarazzo interpretou Jayme Monjardim, na série sobre a cantora (Foto: Divulgação/Globo)

Na vida pessoal, o foco se desloca para outro palco: o da maternidade. Mãe de Milena, de 11 anos, Larissa fala com ternura sobre a curiosidade artística da filha. “Ela tem um espírito bem artístico, uma criatividade enorme, adora contar história. Claramente ela tem uma vocação natural para as artes.Gosta de dançar,  de cantar, de interpretar. Então ela fala para mim que ela gostaria de ser artista de musical. Mas acho que ela é muito nova. O trabalho infantil tem que ser feito com muita cautela. Porque a gente vê que os artistas mirins,  sempre têm uma carga que é igual à de um adulto”.

Para encerrar, Larissa traz um trecho de Pequeno manual de como me amar, da autora Liana Ferraz: “A primeira coisa que quero contar bem baixinho é que se sinto escorrer da minha cara uma pessoa todinha ao fim do dia, ou quando me olho mais demorado no espelho. Quando estou escorrida, penso ser completamente interessante.” A citação soa como uma fresta por onde se pode espiar a atriz – e também a mulher – que aprende a reconhecer-se entre papéis, perdas e recomeços. Há algo de espelho e de escorrimento em sua trajetória: uma carreira que transborda dos limites da tela, que se dissolve e se refaz no palco, no cinema, na vida comum. Em meio a tantas personagens, Larissa Maciel parece continuar procurando o que há de mais raro em qualquer intérprete – o instante em que o rosto já não é máscara, mas passagem.