Juma, Juliette… Dados do IBGE mostram que novelas e artistas influenciam diretamente os nomes dos brasileiros


O levantamento mais recente do IBGE revelou o impacto das novelas brasileiras sobre os registros civis do país. Através de uma linha do tempo na ferramenta “Nomes do Brasil” é possível ver que, desde a década de 1940, folhetins moldam não só o imaginário popular, mas também as certidões de nascimento — de Isabel e Simone a nomes inventados como Emilene e Clarelis. Tramas de sucesso, como “Pantanal”, “O Direito de Nascer”, “Selva de Pedra” e “O Clone”, influenciaram picos de batismo em suas respectivas épocas. Até os nomes de artistas, como Mayara Magri e Kayky Brito, ajudaram a popularizar novas grafias. O resultado é um retrato afetivo do Brasil que, entre capítulos e personagens, batiza seus filhos com o nome da ficção

*por Vítor Antunes

Na primeira semana de novembro, o IBGE divulgou o resultado do Censo 2022 e a ferramenta “Nomes do Brasil”, que traça o perfil dos registros de prenome (o primeiro nome) e de sobrenome no Brasil. O levantamento mede as ocorrências a partir da década de 1940 e segue, década a década, até hoje. É evidente que o Brasil é o país do futebol e das novelas. E os folhetins, ao que parece, deixaram marcas profundas não apenas na cultura popular, mas também nas certidões de nascimento. Personagens de sucesso invadiram os cartórios. Nomes inventados para a dramaturgia — como Emilene e Clarelis — tornaram-se reais, enquanto outros, mais usuais, como Isabel e Simone, tiveram seus índices inflacionados em períodos específicos, coincidentes com o auge de tramas como “O Direito de Nascer” e “Selva de Pedra”.

O sistema do IBGE não permite consultar nomes compostos, mas é possível fazer inferências: muitas das Isabéis nascidas nos anos 1960 provavelmente são “Isabel Cristina”, eco do personagem vivido por Guy Loup; e boa parte das Simones deve ter recebido o nome em homenagem à personagem de Regina Duarte em Selva de Pedra (1972). Há também casos em que o nome do artista, e não o da personagem, deu o empurrão definitivo. Até a década de 1980, não havia registro de nenhuma Mayara no país. Com a aparição da atriz Mayara Magri, os números dispararam nas décadas seguintes. Algo semelhante aconteceu com Kayky, grafado assim por influência do ator Kayky Brito, que estreou ainda criança em “O Beijo do Vampiro” (2002).

Emilene e Clarelis — Pecado Capital (1975 e 1998)

Ambos os nomes foram invenções de autoras de novela. Janete Clair criou Emilene (Elizângela [1954-2023]) para “Pecado Capital” (1975), inspirando-se em duas divas do rádio — Emilinha Borba (1923-2005) e Marlene (1922-2014). O resultado foi um nome híbrido, que virou moda. Segundo o IBGE, apenas na década de 1970 surgiram 1.786 Emilenes registradas em cartório. Na década seguinte, o número caiu para 892, e, na última mensuração, restavam 44 novos registros. A maioria das Emilenes é gaúcha — e, portanto, está completando 50 anos junto com a novela que lhes deu nome.

Quando a trama foi refeita, em 1998, por Glória Perez, a lógica se repetiu: duas musas da música pop inspiraram o nome Clarelis, personagem vivida por Leandra Leal. Até o final dos anos 1980, não havia nenhuma Clarelis no IBGE. Na década de 1990, surgiram 37; nos anos 2000, mais 26. O instituto, porém, não aponta em que estado elas se concentram.

Leandra Leal foi Clarelis em “Pecado Capital” (Foto: Divulgação/Globo)

Juliette e Lucian — Que Rei Sou Eu? (1989)

Juliette e Lucian (na grafia do francês, Lucien) eram personagens de “Que Rei Sou Eu?”, vividos por Cláudia Abreu e Tato Gabus. Nomes franceses, exóticos à realidade brasileira, mas que pegaram. Hoje, proporcionalmente, a maior parte dos Lucians está no Amapá, e das Juliettes, na Paraíba. Coincidência ou não, a campeã do BBB 21 é paraibana e afirma que seu nome foi inspirado na personagem de Abreu.

Antes dos anos 1980, poucas Juliettes haviam sido registradas no Brasil. Depois da novela, vieram 916 registros ainda na década de 1980, e 1.256 nos anos 1990. Entre 2000 e 2019, o número despencou para menos de 400. As pouco mais de duas mil Juliettes brasileiras nasceram quase todas entre os anos 1980 e 1990 — um retrato fiel da influência da televisão.

Cláudia Abreu e Tato Gabus acabaram batizando uma geração de Lucians e Juliettes (Foto: Divulgação/Globo)

Jade — O Clone (2001)

Protagonista de O Clone (2001), Jade era um nome raro antes de sua aparição na TV. Na década de 1970, o IBGE registrava apenas 219 Jades. O número subiu para 4.506 nos anos 1980, influenciado pela canção homônima de João Bosco, tema de “O Salvador da Pátria” (1989). Quando O Clone estreou, a curva disparou: só na década de 2000, foram 5.661 Jades registradas – o maior pico até hoje. Proporcionalmente, o Amapá lidera em densidade de Jades. Coincidentemente, ou não, a atriz e influencer Jade Picon nasceu em 2001.

Jade (Giovanna Antonelli), em O Clone (foto: Divulgação/Globo)

Juma — Pantanal (1990)

“A mulher que vira onça.” Até 1989, havia menos de 100 Jumas no Brasil. Com a estreia de Pantanal, em 1990, surgiram 318 novos registros, homenageando a personagem de Cristiana Oliveira. Na década seguinte, o nome caiu novamente em desuso — apenas 20 registros até 2009. O remake de 2022 ainda não aparece nas estatísticas do IBGE. O Pará concentra, proporcionalmente, o maior número de Jumas.

Pantanal e uma geração de Jumas (Foto: Reprodução/Manchete)

Simone — Selva de Pedra (1972)

Embora seja um nome comum, Simone experimentou uma explosão estatística nos anos 1970. Até o fim da década anterior, o Brasil não somava três mil Simones. Nos anos 1970, o número saltou para 135 mil. O salto coincide com o sucesso avassalador de Selva de Pedra (1972), protagonizada por Regina Duarte. Na década seguinte, o ritmo de batismos caiu, mas permaneceu alto — possivelmente influenciado pelo sucesso da cantora Simone, cujo primeiro êxito nacional veio em 1979. Proporcionalmente à população, o estado que mais concentra Simones é o Rio de Janeiro.

Regina Duarte e Francisco Cuoco em “Selva de Pedra” (Foto: Divulgação/Globo)

Isabel — O Direito de Nascer (1964)

Isabel sempre foi um nome popular, mas o gráfico do IBGE mostra um salto vertiginoso nos anos 1960 — exatamente quando foi exibida O Direito de Nascer (1964), primeiro fenômeno nacional da teledramaturgia, transmitido pela TV Tupi e pela TV Rio. A personagem principal, Isabel Cristina, vivida por Guy Loup, inspirou milhares de homônimas — embora o IBGE contabilize apenas o primeiro nome. O pico daquela década jamais foi superado: foram 47.097 Isabeis registradas, contra 30.200 na década anterior e 35 mil na seguinte. Até o último dado disponível, de 2009, o número ainda era expressivo: quase 15 mil.

Guy Loup e Hamilton Fernandes em “O Direito de Nascer” (Foto: Divulgação)

Flamel — Fera Ferida (1993)

Um dos nomes mais inusitados da lista é Flamel, sobrenome do personagem de Edson Celulari em Fera Ferida (1993) – Raimundo Flamel, como era chamado na trama. O nome só passou a existir nos registros da década de 1990, com 102 Flaméis cadastrados no país. O IBGE não informa em que estado eles se concentram.

Edson Celulari em “Fera Ferida”. Ele era Raimundo Flamel (Foto: Divulgação/Globo)

Dara — Explode Coração (1995)

Antes de 1989, havia menos de duzentas Daras no Brasil. Com a exibição de “Explode Coração” (1995), de Glória Perez, a protagonista cigana interpretada por Tereza Seiblitz fez nascer uma legião de homônimas. Na década de 1990, foram 6.692 Daras registradas. Proporcionalmente à população, Roraima é o estado com mais Daras. Em números absolutos, porém, São Paulo lidera, com 1.831 meninas batizadas assim — todas, direta ou indiretamente, herdeiras da novela. A atriz Tereza Seiblitz disse sentir-se honrada por isso. “Fico muito feliz, em ter provocado isso junto com a Glória Perez e com toda a equipe que fez “Explode Coração”. E realmente a Dara tem uma coisa de muito afeto por ela, vinda das pessoas. E eu já encontrei Dara na rua, já encontrei pessoas falando, “eu sou Dara por causa de você”, já vi também, uma vez num festival de teatro, uma Dara que sabia que era por causa de uma atriz, mas não sabia que era eu, e, neste festival, quando foram servir o almoço chamaram por “Dara”, serviram o prato de uma outra pessoa, chamada Dara, para mim. Eu ainda me sinto muito honrada e muito feliz de botar esse nome “na roda”. Acho um nome tão bonito”.

Em “Explode Coração”, Tereza Seiblitz viveu Dara. Uma moça que, embora gostasse das tradições ciganas, queria estudar e se “urbanizar” (Foto: Jorge Baumann/DIvulgação TV Globo)

OS ARTISTAS

A Mayara pioneira

Quando Mayara Magri surgiu na televisão, no fim dos anos 1970, havia menos de quinhentas Mayaras no Brasil. Na década de 1980, quando a atriz participou de ao menos três novelas e um filme, o nome explodiu: 12.519 registros. Nos anos 1990, o número quase quadruplicou — 54 mil novas Mayaras. Somadas as duas décadas, são pouco mais de 70 mil brasileiras com o nome. A atriz conta que muitas delas a abordam dizendo ter sido batizadas em sua homenagem. Há até quem tenha adotado o nome completo — Mayara Magri — como nome composto, uma espécie de homenagem literal. Ela própria celebra a homenagem: “Eu fico muito feliz porque hoje existem muitas Mayaras pelo Brasil inteiro”.

Quando eu era criança só tinha eu, e aí eu falava pro meu pai que eu queria ter um nome mais normal, como todo mundo chama, e meu pai falou “um dia você vai se orgulhar muito desse nome”. É um orgulho, hoje eu vejo quanto meu pai tinha razão, meu nome é muito, muito bonito. De repente, quando eu entrei na TV Globo e comecei a fazer novela, meu nome explodiu. Nos anos 80, o que nasceu de Mayara, assim como nos Anos 1990… Recebo muitas  mensagens dizendo, “minha filha se chama Mayara por causa de você”. Fora isso, há uma bailarina, a Mayara Magri da Silva – Mayara Magri

Jayme Periard e Mayara Magri em “A Gata Comeu”. Trama é um clássico da teledramaturgia brasileira (Foto: Nelson di Rago/TV Globo)

Kayky

Até 1999, não havia registro algum de meninos chamados Kayky no país. O nome, com essa grafia, surgiu junto com o ator Kayky Brito, revelado no fim dos anos 1990 em Chiquititas (SBT). Em 2001, com o papel de protagonista em O Beijo do Vampiro, os registros dispararam: só na década de 2000 foram 5.742 Kaykys cadastrados. O nome com esta grafia, embora popular, entrou em declínio nas décadas seguintes. Proporcionalmente, Roraima concentra mais Kaykys; em números absolutos, o estado de São Paulo lidera.

Kayky Brito foi o responsável pelo aumento dos seus homônimos (Foto: Arquivo Site HT)