Juliana Alves repercute sua possível escalação para nova novela das 21h e revela que vai apresentar reality


Depois da participação na novela ‘Volta por Cima’, a atriz está em novos projetos: o reality ‘No Jogo, no Canal E!’, a série ‘Capoeiras’, da Star Plus/Disney, e o filme ‘Fé para o Impossível’, em que interpreta uma neurocirurgiã. Juliana também relembra os desafios de sua estreia marcada pela insegurança, inexperiência e preconceito. Ela destaca a importância da representatividade negra na TV e o compromisso com narrativas construídas por pessoas pretas: “É um caminho sem volta. Agora, precisamos que as narrativas sejam construídas cada vez mais por pessoas comprometidas — e, principalmente, por pessoas pretas. Porque quando uma pessoa preta realiza uma criação artística, ela traz nuances que uma pessoa branca jamais vai alcançar por não ter essa vivência”

*por Vítor Antunes

Desde o final da novela “Volta por Cima“, Juliana Alves veio sendo cotada como uma das protagonistas de “Três Graças“, próxima novela das nove. Perguntada, a atriz não negou nem confirmou a escalação para a trama, que marca o retorno de Aguinaldo Silva à Globo. Por enquanto se prepara para lançar novos projetos na TV e no cinema. “Um dos próximos  lançamentos é o reality “No Jogo” e a série “Capoeiras”. Também estou nos cinemas vivendo uma médica neurocirurgiã em “Fé para o Impossível”. Em “No Jogo”, minha experiência foi muito importante por ser apresentadora de um reality sobre uma seleção de atrizes para protagonizar uma série. Isso me deu a ideia de realmente seguir apresentando. Foi bem desafiador, porque num reality tudo muda de acordo com o que está acontecendo. E teve um valor a mais por ser uma seleção de atrizes negras para protagonizar três temporadas diferentes”.

 O reality No Jogo será exibido pelo Canal E!. Já a série Capoeiras, da Star Plus/Disney, também foi marcante para Juliana. “Foi uma experiência muito bonita, por se tratar de uma série que tem como pano de fundo uma cultura tão importante para o Brasil e que ainda não tinha sido utilizada dessa forma no audiovisual — como base para toda a história, com tanta relevância”.

Juliana Alves vai fazer um reality que objetiva revelar novas atrizes (Foto: Arquivo Site HT)

Em “Volta por Cima“, Juliana interpretou Cida, uma motorista de ônibus que também enfrentou a síndrome do pânico. “A gente já teve novelas que abordaram isso, mas o que eu achei uma sacada muito boa da autora foi trazer esse tema para uma personagem das classes populares. Uma personagem que estava ali cuidando de todo mundo, mãezona dos amigos, do filho, uma mãe solo, trabalhadora do transporte público. Foi importante para as pessoas que se identificam com a Cida entenderem que a gente não pode descuidar da nossa saúde mental. É algo fundamental para conseguirmos viver o nosso dia a dia.”

Levar o tema da saúde mental para a novela foi fundamental para que as camadas populares compreendessem que isso não é frescura. Buscar atendimento psicológico não é um capricho, e pessoas aparentemente saudáveis também enfrentam momentos de crise  que precisam ser cuidados por profissionais, e não apenas com conversas informais que acabam gerando culpa. Afinal, o mais comum é a pessoa se sentir culpada – Juliana Alves

Juliana Alves destaca a importância do debate sobre saúde mental na novela das sete (Foto: Guilherme Alves)

A atriz também refletiu sobre os desafios da representatividade ao longo da carreira: “Historicamente, na minha profissão, quando eu entrava em uma seleção e via as atrizes que estavam concorrendo, havia uma angústia muito grande, porque sabíamos que, se uma estivesse sendo selecionada, a outra não poderia estar — por conta do espaço reduzido. Felizmente, a história vai corrigindo essas falhas”.

Na mesma semana em que chegou ao fim a novela Volta por Cima, o BBB também encerrou mais uma edição, a que tornou Renata Saldanha campeã. Juliana participou da terceira edição do reality show, em 2003. Para ela, a experiência foi fundamental em sua trajetória. “Até pela diferença de tempo entre uma coisa e outra, existem duas Julianas muito diferentes, com a mesma essência. Há uma distância de pensamento, de expectativa, de olhar, de experiência muito grande. No BBB, como participante, eu não me inscrevi — fui convidada a participar do processo seletivo por olheiros. Não foi algo que eu busquei. Ao mesmo tempo, eu vivia naquela fase um mergulho em várias atividades diferentes. Só depois de três anos é que as coisas se concretizaram. Quando ganhei o prêmio de atriz revelação [por “Duas Caras”, 2007], percebi que realmente tinha condições de seguir essa carreira. Então, o “Big Brother”, no fim das contas, foi uma grande experiência de superexposição e crescimento humano. Hoje, entendo que foi uma porta alternativa para uma carreira que já estava no meu caminho”.

Juliana Alves na época do BBB, em 2003 (Foto: Reprodução/Globo)

CHOCOLATE SEM DOÇURA

A novela de estreia de Juliana Alves na TV foi “Chocolate com Pimenta”, exibida entre 2003 e 2004. Segundo a atriz, a trama não foi exatamente fácil de fazer. “Fiz um teste para essa novela e, quando recebi a personagem, a Selma, ainda tinha muita insegurança em relação à novela em si. Mas entendi, naquele momento, que era algo que era muito para mim. Acho que fui bem, na medida do que eu tinha condição de fazer naquele momento. Eu não tinha um amadurecimento como atriz. Não duvidava do meu talento — isso eu nunca tive dúvida. Mas houve momentos difíceis, e uma conversa com o Jorge Fernando foi crucial, porque durante a novela eu me sentia um pouco deslocada. Ele me pegou no corredor, segurou minha mão e falou: ‘Estou muito feliz de você estar aqui. A gente desejou muito que você estivesse aqui'”.

Sendo mulher e negra no início da carreira, Juliana já enfrentava desafios. E ainda vinha de um reality show. “Precisei ter muito equilíbrio emocional durante essa novela. Apesar da inexperiência, não deixei isso me esmorecer. Mas, ao terminar, precisei de um tempo para colocar a cabeça no lugar”. Ela também relembra o contexto de preconceito da época: “Os preconceitos já existiam — sempre existiram — e de forma muitas vezes explícita. Hoje as pessoas têm mais preocupação em disfarçar. O Brasil sempre tentou jogar o preconceito para debaixo do tapete, mas ele estava ali, entranhado nas relações.”

Enquanto o Brasil for o Brasil que nós temos hoje, eu sempre serei uma atriz negra, porque isso tem um poder político no imaginário das pessoas, na forma como elas vão me ver. Estar ali, honrando esse lugar, é uma contribuição de muita responsabilidade.” — Juliana Alves

Juliana Alves e Alexandre Barillari em “Chocolate com Pimenta” (Foto: Divulgação/Globo)

De algum tempo para cá, tem sido levantada a questão daquilo que, especialmente os setores conservadores, chamam de “agenda woke” — uma tentativa de problematizar as políticas afirmativas voltadas a populações minorizadas, como pessoas negras, LGBTQIAPN+ e outras. Para Juliana, esse tipo de reação ocorre diante da perda de privilégios de quem sempre ocupou uma espécie de casta social superior. “Quem está se incomodando com a visibilidade dessas questões, com esse debate, são pessoas que querem o mundo como ele tem sido nos últimos séculos. Querem a permanência dos privilégios e das violências que a gente vem sofrendo. É natural que, diante de muitos avanços, existam retrocessos. As pessoas conservadoras, no sentido de conservar privilégios, preconceitos e injustiças, vão se organizar para invalidar essas lutas”.

A gente precisa continuar insistindo nos avanços que entendeu como necessários, sabendo que haverá reações — às vezes desonestas — para tentar invalidar essas lutas. Eu vejo o boicote a produções que trazem essas pautas como uma reação de quem não aceita que todas as pessoas merecem as mesmas oportunidades de sobrevivência, de qualidade de vida e respeito. Negar isso é dizer que um grupo tem mais direito à dignidade do que outro. Precisamos reconhecer quem são essas pessoas — algumas mais assumidas, outras disfarçadas — e combatê-las com coragem.” — Juliana Alves

Juliana reforça a necessidade do debate sobre ações afirmativas: “Quando a gente chegava para pedir para fazer um papel, ouvia que naquela novela seria difícil porque já tinha sido escalada uma atriz negra. Eles não tinham ideia do quanto era doloroso ouvir isso, porque basicamente estavam dizendo que meu perfil tinha restrições. Era importante quebrar o efeito criminoso do racismo nas nossas relações. Não tínhamos muito espaço, mas precisávamos construir esses espaços: indo atrás, reivindicando, cobrando maior representatividade negra nas produções. Ao longo dos anos, fomos entendendo que, unidos, podíamos estar numa produção. Quando nos mobilizamos enquanto movimento, junto ao público, esses espaços crescem — e hoje o público já não aceita mais que seja diferente”.

É um caminho sem volta. Agora, precisamos que as narrativas sejam construídas cada vez mais por pessoas comprometidas — e, principalmente, por pessoas pretas. Porque quando uma pessoa preta realiza uma criação artística, ela traz nuances que uma pessoa branca jamais vai alcançar por não ter essa vivência” – Juliana Alves

Juliana Alves acredita ser fundamental o debate sobre agendas afirmativas (Foto: Arquivo/Site HT)

ETERNAMENTE, YOLANDA

Quem é Juliana, a mãe? Considerando que a maternidade abre portas, passos e relações — inclusive de afeto — Juliana Alves reflete sobre o que significa maternar. “Eu tinha um desejo enorme de ser mãe. Só que agora sou mais consciente da responsabilidade e da força que isso exige. Tomei posse dessa força ao me tornar mãe, por pura necessidade. Hoje, tenho uma organização pessoal melhor por causa da minha filha, a Yolanda. Tenho um compromisso com a cidadã que estou criando — com toda a potência que ela pode alcançar. Eu, Juliana mãe, me sinto muito mais feliz. Todo dia, quando acordo e vejo ela dormindo na caminha, tenho uma injeção de alegria diferente. Tem pessoas que não são mães e vão encontrar alegria em outras coisas. No meu caso, a maternidade é minha alegria garantida”.

É muito gostoso vivenciar isso. Me sinto honrada. Agradeço a ela sempre, digo que é a melhor companhia que tenho e agradeço por ela ter me deixado ser mãe dela. A gente enfrenta muitas dificuldades. A alfabetização, por exemplo, é difícil. Pode ser um processo tenso. Se a criança não embarca no ritmo de todo mundo, o mundo já julga: ‘Ih, tem alguma coisa errada’. Mas não — a criança só está no ritmo dela. Está tudo ali, não há problema de aprendizado – Juliana Alves

Quando pensa no legado que deseja deixar como mãe, Juliana fala dos desafios de maternar na contemporaneidade: “A minha responsabilidade é que ela seja uma pessoa boa para o mundo — e que o mundo também seja bom para ela. Ela precisa viver o brincar. Às vezes, nas correrias do dia a dia, a gente tira esse tempo da criança ao entregar um celular na mão dela para poder fazer outras coisas. E depois não entende por que a criança está tensa, ansiosa ou por que não se comunica bem. A gente precisa parar com essa comparação que os adultos fazem o tempo todo — e que acabam projetando nas crianças. Temos que construir pessoas boas, potentes, que entendam a importância de se relacionar bem”.