*Por Brunna Condini
Juliana Alves vive um 2025 de múltiplos palcos e conquistas. Confirmada no elenco de ‘Três Graças’, próxima novela das 21h da Globo de Aguinaldo Silva, a atriz também é musa da coleção ‘Sereia – Josephine Baker’, da estilista Fabiana Thorres, lançada hoje, na Runway Vision – Paris Fashion Week. “Me sinto muito honrada em representar essa brasilidade, artesanato e, ao mesmo tempo, dialogar com a potência de Josephine Baker (1906-1975). É um posicionamento da moda brasileira no mundo”, afirma. No cinema, Juliana interpreta uma treinadora de futebol em ‘Apenas Três Meninas’, de Susanna Lira, que aborda pobreza menstrual e solidariedade feminina: “Foi um papel que me reconectou com a minha própria adolescência e com a força transformadora das mulheres na comunidade”. Entre moda, TV e cinema, a atriz, comandou o reality ‘No jogo‘, do E! Entertainment, no ar desde o início de setembro, que mostra a disputa de atrizes por papéis na série ‘(In)Vulneráveis’, do Universal TV; e reforça ainda seu compromisso com a representatividade negra no audiovisual:
Não basta sermos cotas em cena, precisamos de narrativas consistentes, com protagonistas negras vivendo todas as curvas de uma jornada, para transformar de fato o imaginário coletivo – Juliana Alves

Juliana Alves: 25 anos de trajetória profissional, novela ‘Três Graças’, filme sobre pobreza menstrual e musa na Paris Fashion Week (Foto: Rolf Müller)
25 anos de carreira e muitas ‘viradas’
Aos 43 anos e com 25 de trajetória artística, Juliana olha para trás e enxerga não apenas uma carreira consolidada, mas também um caminho marcado por recomeços constantes. “Costumo dizer que não tive um ponto único de virada. Foram muitos. A cada personagem, sinto que preciso revalidar a minha carreira. É cansativo, mas faz parte da estrutura que a gente vive”. A atriz começou na televisão como bailarina do extinto Domingão do Faustão, mas foi ao entrar no Big Brother Brasil, em 2003, que ganhou fama nacional:
O BBB foi uma exposição avassaladora. Eu não tinha essa pretensão de estar na TV, fazia teatro amador e me considerava mais uma estudante do que atriz. De repente, estava sendo observada por milhões – Juliana Alves
Logo após sair do reality, recebeu convites e deu início à sua trajetória como atriz na Globo, estreando em ‘Chocolate com pimenta’ (2003). “Essa foi a primeira grande virada. Precisei de um tempo para organizar tudo, estudar, acreditar em mim mesma”, completa.

Juliana Alves quando despontou para o grande público no BBB3 (Foto: Reprodução/Globo)
Vieram então papéis que ajudaram a cimentar seu espaço. Em ‘Duas Caras’ (2007), Juliana conquistou o prêmio de atriz revelação. Em ‘Ti Ti Ti’ (2010), interpretou uma vilã com protagonismo, antagonizando ninguém menos que Cláudia Raia. “Aquilo me deu musculatura. Foi a primeira vez que senti a responsabilidade de carregar uma trama importante, de estar no centro de um conflito”, diz. Em seguida, brilhou em episódio de ‘As Brasileiras’ (2012), vivendo sua única protagonista heroína na TV. “Cada uma dessas experiências foi me dando mais consciência de que eu não estava ali por acaso”. Mais recentemente, ela emocionou o público em ‘Amor Perfeito’ (2023), e conquistou popularidade com a motorista Cida, de ‘Volta por Cima’ (2024-2025). “Foi uma personagem muito querida, muito amada. Senti um respeito maior pelo meu trabalho, uma escuta mais atenta ao que eu tinha a dizer. Isso foi uma conquista tão importante quanto qualquer prêmio”.
Agora, Juliana encara o desafio de viver Alaíde em ‘Três Graças’, que sucede o remake de ‘Vale Tudo’ no horário nobre. “Ela é uma mulher encostada, folgada, que manipula o marido para não precisar se esforçar. É o meu oposto absoluto. Sou aquela que quer dar conta de tudo. A Alaíde, não. Ela manipula, delega e vive disso”, compara.

Juliana Alves como Cida em ‘Volta por cima’, sua última novela (Foto: Divulgação/Globo)
Apesar do tom cômico, a personagem dialoga com realidades bem conhecidas: “Quem nunca ouviu alguém dizer: ‘não vou lavar a louça porque não sei onde guardar’ ou ‘não vou cozinhar porque a comida dela é melhor’? A Alaíde traz esse espelho da falta de divisão das tarefas, mas de um jeito leve e bem-humorado. Vai ser divertido mostrar esse outro lado, tão comum e real em muitos lares brasileiros. Mas com uma mulher agora”.
A musa da ‘Sereia – Josephine Baker’
Entre um set e outro, Juliana também atravessa as fronteiras da moda. Escolhida por Fabiana Thorres para ser o rosto da coleção ‘Sereia – Josephine Baker’, a atriz volta a colaborar com a estilista que a apoiou no início da carreira. “Quando saí do Big Brother, ela me vestiu em todos os eventos importantes, sem pedir nada em troca. Eu não era ‘ninguém na fila do pão’, mas Fabiana me acolheu com carinho e profissionalismo. Esse gesto ficou marcado para sempre na minha memória”, lembra.
Mais de duas décadas depois, as duas se reencontram em um momento de grande visibilidade internacional. A coleção será apresentada na próxima segunda-feira (29) na Runway Vision – Paris Fashion Week, no charmoso Salão Cléry, em Le Marais, e dialoga com a trajetória da icônica Josephine Baker, artista e ativista que fez história ao transformar sua arte em resistência. “Me sinto muito honrada em representar essa brasilidade, e ao mesmo tempo, dialogar com a potência de Josephine”.

Juliana Alves brilha como musa de Fabiana Thorres que apresenta coleção “Sereia – Josephine Baker” na Runway Vision (Foto: Rolf Müller)
A coleção reúne macramês, bordados 3D e rendas renascença produzidas pelas rendeiras pernambucanas Valcira Santiago e Maria Ivoneide, além de acessórios exclusivos da designer Iara Figueiredo (LuxandFit). Para Juliana, esse encontro entre tradição e sofisticação sintetiza a força da moda autoral brasileira:
É lindo ver como o Brasil é rico em diversidade e em arte. Representar essas mulheres e levar esse trabalho para Paris é mostrar que temos potência, originalidade e sofisticação para ocupar qualquer passarela – Juliana Alves
Mais do que uma participação especial, o convite também resgatou memórias pessoais. “Eu já tinha me inspirado em Josephine Baker em outras ocasiões, inclusive no último Baile do Copa. Quando Fabiana me fez o convite, parecia que tudo fazia sentido, que havia um destino ali. Foi emocionante revisitar essa parceria depois de tantos anos”, completa.

Juliana Alves à frente da coleção “Sereia – Josephine Baker” na Runway Vision: “É lindo ver como o Brasil é rico em diversidade e em arte” (Foto: Rolf Müller)
O cinema como reencontro com a juventude
No cinema, a atriz filmou este ano ‘Apenas Três Meninas’, longa que aborda a pobreza menstrual e a força coletiva de adolescentes da Zona Norte carioca que decidem transformar sua realidade. A atriz dá vida a Jo, técnica de futebol e líder comunitária que, além de orientar as jovens em campo, atua como mentora em oficinas e atividades sociais. “Foi emocionante revisitar a minha adolescência, quando eu também participei de ONGs e ações sociais. Esse papel me conectou com mulheres que inspiraram minha trajetória, e que muitas vezes, seguem invisíveis”. E detalha como o mergulho no universo da personagem trouxe lembranças vivas da sua juventude: “Na minha adolescência, também fiz parte de grupos de formação, de projetos que buscavam multiplicar conhecimento e criar lideranças comunitárias. Reviver isso no set me fez reencontrar aquela Juliana cheia de vontade de transformar o que parecia impossível. Foi um reencontro muito íntimo”.
A produção, que chega aos cinemas ainda este ano, se soma ao engajamento social que Juliana já carrega fora das telas. Para ela, o filme é mais do que entretenimento: é um alerta. “É uma história sobre amizade, dignidade e solidariedade entre mulheres. E me orgulha poder contribuir para um debate urgente, porque a pobreza menstrual ainda é uma realidade no Brasil. Pensar que, em pleno 2025, tantas meninas não conseguem ter o mínimo de dignidade nesse momento da vida é revoltante. Esse filme ajuda a multiplicar essa consciência e, quem sabe, impulsionar mudanças”.

Leticia Braga, Lívia Silva, Shirley Cruz, Mel Maia e Juliana Alves nos bastidores do filme ‘Apenas 3 Meninas’ (Foto: Ajota)
Para a atriz, a produção também é uma forma de homenagear mulheres anônimas que sustentam comunidades Brasil afora:
Já estive com muitas mulheres como a minha personagem no filme ao longo da minha vida. Mulheres que ensinam, que cuidam, que criam alternativas, que inspiram sem nunca receberem visibilidade. Interpretá-la foi também um agradecimento a essas líderes silenciosas que seguem transformando realidades – Juliana Alves
Representatividade como prática cotidiana
Ela deixa claro que sua atuação vai muito além das personagens que interpreta: está também nas narrativas que sustenta e nas bandeiras que escolhe defender: “Não aceitamos mais ser mera cota em uma trama. O público cobra, e nós também. Representatividade não é só estar em cena, mas ter personagens com relevância e camadas. Porque o racismo nos tira até a possibilidade de viver as curvas de uma protagonista, por exemplo, que em sua jornada tem alto e baixos”. Essa postura firme já a levou a embates criativos, ajustes de roteiro e até à contratação de profissionais especializados para garantir um olhar mais responsável sobre personagens negros:
Tenho um jeito de dialogar, de buscar caminhos que não sejam conflituosos, mas que tragam avanços. Minha luta é para que um dia eu chegue no set e só precise decorar meu texto, sem ter que me preocupar em corrigir estigmas ou reforços racistas. Esse ainda é um sonho, mas é nele que eu insisto todos os dias – Juliana Alves

“Não aceitamos mais ser mera cota em uma trama. O público cobra, e nós também” (Foto: Rolf Müller)
Juliana diz ainda, que cada conquista individual é resultado de um processo coletivo de décadas. “Tenho muito orgulho do que a gente conquistou com o movimento negro e com o movimento de mulheres negras. Esse respaldo nos permite dizer não, contestar, apontar caminhos. É uma vitória construída a muitas mãos, ao longo de gerações. Mas ainda tem muita água para rolar, porque a estrutura social sempre tenta manter privilégios. Nosso papel é garantir que esses avanços não retrocedam”.
Conciliando novela, cinema e prestígio internacional da moda, Juliana se mostra consciente do peso de sua voz, e otimista com os rumos da transformação:
Sigo sempre me desafiando, sempre dedicada. Quero que minha filha (Yolanda, de 8 anos), cresça em um país onde meninas negras possam se ver protagonistas de histórias felizes, complexas, múltiplas. O que eu faço hoje é por mim, mas também por elas. Para que amanhã o sonho seja só arte, e não mais resistência – Juliana Alves

Posando com uma das criações de Fabiana Thorres: “Honrada de representar o Brasil lá fora” (Foto: Rolf Müller)
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