*por Luísa Giraldo
Aos 28 anos, João Vitor Silva colhe os louros pelo papel do jovem Ronaldo, em “Garota do Momento”, atual novela das 18h da TV Globo. Conhecido por encarnar o Pedrinho, em “Sítio do Picapau Amarelo”, o ator carioca cresceu diante dos olhos do público. Atualmente, ele vive um bad boy inseguro, invejoso e apaixonado por Bia (Maisa), que o esnoba pela paixão obsessiva que nutre pelo irmão dele, Beto (Pedro Novaes). Em conversa exclusiva com o site, o ator avalia a importância dos sentimentos negativos, constantemente presentes na trama de Ronaldo, destaca o poder paralisante das inseguranças e detalha o tipo de amor que gostaria de viver – bem diferente da dinâmica dos pombinhos da novela.
Antes de Ronaldo, em “Garota do Momento”, João Vitor marcou gerações ao dar vida ao travesso Pedrinho, na versão de 2004 de “Sítio do Picapau Amarelo”. Ele protagonizou a trama por dois anos ao lado de Caroline Molinari (Narizinho) e Isabelle Drummond (Emília). O carinho do artista pelo personagem é imensurável.
“O Pedrinho foi um dos meus primeiros personagens da vida. Quando comecei a fazer o ‘Sítio do Pica-pau Amarelo’, ainda morava no Morro Santa Marta, em Botafogo. Foi o meu terceiro trabalho. Tinha 6 anos. De lá para cá, tudo mudou. Virei ator”, declara, com emoção.
O Sítio é o grande marco da minha carreira. A partir dele, entendi que aquilo seria o que faria para o resto da minha vida. [Pedrinho foi] o meu primeiro grande personagem, protagonista, com demanda de cenas e falas, com carga horária e responsabilidades muito grandes para uma criança. Me fazia muito feliz encontrar com aquelas pessoas e fazer aquele trabalho. Começou a me trazer para a vida e me trouxe reconhecimento. As pessoas começaram a me reconhecer nas ruas. – João Vitor Silva.
Emocionado, o ator descreve que o papel o permitiu mudar de vida financeiramente. “Comecei a ganhar dinheiro e ajudar os meus pais. O Pedrinho é onde tudo começou, o pontapé dessa jornada linda que tenho orgulho de chamar de carreira. Serei eternamente grato a esse personagem”, comenta.
Nova fase da carreira: Ronaldo
João Vitor Silva vive um momento próspero ao encarnar Ronaldo, típico bad boy dos anos 1950, em “Garota do Momento”. Embora carismático, o personagem tem uma postura conservadora e foge do estereótipo de “mocinho” que estamos acostumados a ver nas novelas. Ainda assim, ele conquistou o coração do público.
Mesmo após ser alçado à categoria de “galã”, João Vitor continua surpreso com o sucesso de Ronaldo, especialmente entre o público feminino. “É engraçado. Não tenho responsabilidade ao carregar o peso de galã. Nunca precisei lidar com isso. É a primeira vez, de fato, que esse título surge. Está relacionado à minha volta às novelas”, avalia.
Não carrego comigo esse título. Não fico apegado, mas me divirto. Quem não gosta de ser elogiado? Levo na esportiva e fico feliz com os comentários sobre a minha aparência. Porém o meu trabalho, de fato, é muito maior. Estou com foco em outras coisas: nas camadas e nos dramas do Ronaldo. É mais do que diversão – João Vitor Silva.
O intérprete ressalta, por outro lado, que o personagem foge do estereótipo de galã, o que torna a “torcida” do público ainda mais surpreendente. “‘Galã’ é um termo que vem do ambiente das novelas; o mocinho. É muito louco. Porque nem mocinho o Ronaldo é. Muito pelo contrário”.
O artista descreve o personagem como o “estereótipo do homem hétero e branco”, visão que o permitiu acrescentar nuances entre falas e comportamentos mais conservadores. “Um homem quadrado daquela época, com aquela cabeça. Ele é diferente do Beto nesse sentido. O Beto é um cara progressista e mais aberto, é interessado nos dilemas dos outros e mais empático. O Ronaldo não”.
Sentimentos negativos
As dores de Ronaldo tocam João Vitor Silva profundamente. Os arcos do personagem são atravessados por sentimentos considerados negativos, como a inveja e a raiva. Ele se sente preterido em relação aos irmãos e constantemente se frustra pela falta de reconhecimento do pai, Raimundo (Danton Mello), que tem Beto como filho preferido.
O ator encara a oportunidade de dar espaço às emoções reprimidas com orgulho. “É muito potente falar sobre sentimentos humanos tão viscerais e que fazem parte do cotidiano. Todo mundo já sentiu inveja. Todo mundo já sentiu raiva de alguma coisa. Todo mundo sabe como fica e, geralmente, não se gosta. Não é um estado que a gente admira. Não é o estado que a gente normalmente busca estar. É uma magia do trabalho”, declara ele.
Não tenho para onde fugir se o personagem está sentindo inveja ou ciúmes. Tenho que encarar e sentir por ele, com verdade. Amo o que faço, levar esses sentimentos e levá-los para cena, sabendo que, quando ‘corta, corta’ . O que o Ronaldo sente não é o que o João sente. Consigo sempre separar para não voltar com esses sentimentos para casa – João Vitor Silva.
Ele reconhece que se inspira em situações reais, sobretudo nas cenas com Bia (Maisa), que descreve como um “um ciúmes meio bobo e infantil, que beira à fase adolescente, quando você ainda está descobrindo um sentimento”.
“Tento buscar um pouco das memórias do tempo de escola, daquele ciúmes que se sentia lá atrás, que era um pouco mais desmedido e sem controle. Na vida, de modo geral, não sou uma pessoa muito ciumenta e nem invejosa”.
Outro aspecto que atravessa Ronaldo – e, consequentemente, o ator – é a insegurança, uma das marcas fortes da personalidade do publicitário.
Todo personagem me faz rever algo em mim e refletir sobre alguma coisa. O que Ronaldo mais me fez pensar nos últimos tempos foi sobre a insegurança. De modo geral, quanto a insegurança pode atrapalhar uma pessoa e paralisar uma vida, os anseios e ambições – João Vitor Silva.
João Vitor entende que o personagem é tão preso ao ciúmes de Beto, da vida e das conquistas do irmão que isso quase o paralisa na trama. Ele destaca as camadas de complexidade de Ronaldo.

João Vitor Silva ganhou fama e conquistou gerações ao dar vida ao Pedrinho, um dos protagonistas de “Sítio do Picapau Amarelo” Foto: @lavraphillip e @relvas.oficial)
“Ele é um cara muito interessante. Ronaldo é visto como um cara bonito, anda bem vestido, é rico e tem tudo na vida para ser maravilhoso. Mas ainda há algo interno que o segura. Está relacionado a esse sentimento de inveja e a síndrome de inferioridade que ele tem”.
O artista compartilha as reflexões mais íntimas a partir do papel. “Ronaldo me ensina muito que não basta ser uma pessoa bem criada, bem educada e com valores: precisa estar cuidando de você e da sua saúde mental. Ele me mostra o quanto a terapia é importante. Se fizesse terapia, talvez, os questionamentos dele seriam outros”.
Sempre tento aprender alguma coisa com os meus personagens. O Ronaldo tem me ensinado muito sobre insegurança – João Vitor Silva.
Romance estilo ‘Enemies to Lovers’
João Vitor Silva e Maisa são os verdadeiros protagonistas de “Garota do Momento”, de acordo com a audiência, que bombardeia as redes sociais com comentários do casal. Eles vivem uma dinâmica “enemies to lovers” (em tradução literal, “inimigos para amantes”), popularizada nas comédias românticas norte-americanas dos anos 2000. A química de “amor e ódio”, sentimentos que andam próximos, é um dos elementos essenciais.
O artista revela que já experimentou um amor no estilo de Bia e Ronaldo. “Vivi na época de escola, acho. Todo romance, quando a gente ainda não conhece a comunicação do amor e, em geral, não a domina muito bem, acaba se comunicando através da linguagem da implicância e da alfinetada”.
Segundo o ator, o tipo de amor que procura atualmente é diferente. Em 2024, ele terminou o relacionamento de nove anos com a atriz Mariana Molina. O casal havia se conhecido nas gravações de “Verdades Secretas”, também da TV Globo.
Busco coisas mais tranquilas. Sou muito apaixonadinho na vida, de me entregar para o outro. Não sou muito da implicância. Sou mais passivo quando estou apaixonado – João Vitor Silva.
“Não é meu perfil [ter um relacionamento no estilo] de inimigos a amantes. Ao mesmo tempo, acho que é por isso que estou me divertindo tanto gravando essas cenas. Solto tudo e brinco com o que acho que é. Não tenho medo de errar. Pode tudo quando tem esse sentimento por alguém”.
João Vitor ressalta o aspecto favorito das cenas de implicância em forma de flerte. “É um sentimento legal de ver. Quando está falando uma ofensa, mas com vontade de dar um beijo. Pensar nesses sentimentos e nessas intenções, que são múltiplas e, às vezes, contrárias, me encantam”.
Dinâmica com Maisa
Sucesso de “Garota do Momento”, Bia e Ronaldo instigam cada vez mais o desejo dos telespectadores pela oficialização do casal. João Vitor Silva e Maisa não escondem a fórmula para a dinâmica perfeita.
“A gente ficou muito feliz quando soube que faríamos esse casal atrapalhado, meio errado, de inimigos a amantes. Desde o início, a gente ficou animado. Trocamos muitas figurinhas sobre esses dois, ajudando e trazendo algum tipo de ‘cor’ para essa relação: as implicâncias, que tornam esse casal um pouco mais real. As pessoas ficam chocadas com a nossa química, que se dá pela nossa parceria”.

João Vitor Silva se tornou galã de “Garota do Momento” e vive romance com personagem de Maisa, com quem desenvolveu grande parceria (Foto: @lavraphillip e @relvas.oficial)
O intérprete de Ronaldo tece inúmeros elogios à atriz. “A dinâmica com a Maísa é um presente. Ela é um fenômeno. Acompanhei Maisa a minha vida toda e, agora, estou em cena com ela, chocado com tamanho profissionalismo e entrega”.
Segundo João Vitor, a parceira de cena o contata diariamente com ideias e insights sobre os personagens. A amizade se converte em amor em frente às câmeras.
“A Maísa é muito parceira, chega junto e quer saber o que estou pensando. Se tenho ideias, divido com ela. Se ela tem ideias, divide comigo. A gente está sempre em prol do melhor resultado para a cena e da melhor relação de Ronaldo e Bia, seja através da implicância ou do amor. Estamos sempre interessados em construir momentos mágicos entre esses dois”.
Postura low profile
João Vitor Silva lida com uma única “puxada de orelha” dos fãs: a ausência nas redes sociais. O ator se considera um usuário “low profile” ao compartilhar pouco da vida pessoal.
“Sempre tive uma postura mais ‘low profile’ nas redes sociais, mas não por escolha. Não por achar ‘cool’ para a minha imagem como ator, mas por falta de habilidade com a internet de modo geral. Não sou um cara muito antenado, apesar de ser muito tecnológico”.
A nossa vida já está muito exposta. A gente já tem que lidar com a exposição de modo exagerado. Então, todas as vezes que tenho a opção e a oportunidade de ficar mais quietinho, de não contar o que estou fazendo na minha vida e criar um mistério, faço isso – João Vitor Silva.
Ele critica a postura invasiva, incentivada pelas plataformas digitais. “As pessoas querem saber o tempo todo [sobre os atores]. Tenho manter um pouquinho sobre esse mistério, que é fundamental para um ator. Você não pode saber tudo porque ele precisa te impressionar e te surpreender nos próximos trabalhos. Essa é a nossa função: sempre mostrar ao público o que ele ainda não viu. Nesse sentido, as redes sociais atrapalham o trabalho do ator. Se você se expõe 24 horas por dia, é muito difícil daquela pessoa não ter uma imagem sua muito clara na cabeça dela. Ficar mais difícil de associar os personagens”, opina.
O intérprete pontua, finalmente, como usa as mídias sociais para melhorar a performance em cena. “Sinto que ser ‘low profile’ é uma escolha e, ao mesmo tempo, uma necessidade. Uso as redes para me comunicar com o meu público, ver o que ele está achando e ter um termômetro dos trabalhos que estou fazendo. Uso pouco para me exibir e mostrar coisas que acho fúteis. Prefiro me guardar e deixar que vejam as coisas em um personagem ou em uma história”.
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