Isis Valverde, aos 20 anos de carreira, entre a indicação ao Framboesa de Ouro e a atuação madura em ‘Quarto do Pânico’


Com estreia em 13 de fevereiro no streaming do Telecine, o thriller psicológico marca um momento de virada na trajetória de Isis Valverde: aos 20 anos de carreira, ela vive uma mãe levada ao limite em ‘Quarto do Pânico’, reflete sobre maternidade extrema, medo, violência e renascimento feminino, enquanto encara com humor a indicação ao Framboesa de Ouro – ‘Código Alarum’, ao lado de Sylvester Stallone – e reafirma uma fase mais madura, arriscada e autoral no cinema com “Quarto do escuro”: “Esse filme foi tensão o tempo todo. Foi muito desgastante e muito lindo também, porque acho que estou nessa fase da minha vida de me testar, de testar os meus limites. Esse experimento de personagens, de possibilidades, de histórias”

*Por Brunna Condini

Isis Valverde estrela ‘Quarto do Pânico’, filme que chega com exclusividade ao catálogo do Telecine no streaming em 13 de fevereiro, disponível no Globoplay, Prime Video Channels e via operadoras. Na pele de uma mulher empurrada para uma experiência extrema ao lado da filha, a atriz, que na vida é mãe de Rael, de 7 anos; elabora como foi viver essa relação na ficção em uma situação limite. “Essa maternidade da personagem vem no lugar da sobrevivência naquela casa. Existe uma invasão do masculino, então a casa deixa de ser apenas um cenário e vira uma metáfora. Ela é esse território feminino invadido, um corpo sitiado. E o quarto funciona como um útero, um espaço de regressão e de renascimento, onde essa mãe e essa filha se reconectam”, diz, sobre o longa que é uma adaptação brasileira do sucesso de 2002 dirigido por David Fincher e estrelado por Jodie Foster e Kristen Stewart.

Longe das novelas desde ‘Amor de Mãe’ (2019-2021), a atriz tem se dedicado à vida pessoal, ao streaming e ao cinema. Casada há um ano com o empresário Marcus Buaiz, ela tem administrado a carreira por aqui, e também internacionalmente. Tanto, que lançou ano passado o filme ‘Código Alarum’, ao lado de Sylvester Stallone. No entanto, a experiência pode não ter sido das melhores. Tanto o longa, quanto Isis receberam indicações ao Framboesa de Ouro, prêmio humorístico dos Estados Unidos, concebido como uma paródia do Oscar. A 46ª edição do premiação está marcada para 14 de março, um dia antes da cerimônia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Com 20 anos de carreira e sem perder o jogo de cintura, sobre a indicação, Isis declarou recentemente:

Só consigo levar na brincadeira. Estou competindo com ninguém menos que Robert De Niro. A Natalie Portman também está na lista. O (Francis Ford) Coppola foi eleito por eles, no ano passado, como pior diretor. Quando vi os nomes falei: ‘peraí, gente, que estranho!’. E, depois, descobri ser um prêmio-sátira e levei na brincadeira também – Isis Valverde

Isis Valverde vive uma mãe no limite no filme 'Quarto do Pânico': maternidade, medo e sobrevivência em um corpo sitiado (Foto: Reprodução/Instagram)

Isis Valverde vive uma mãe no limite no filme ‘Quarto do Pânico’: maternidade, medo e sobrevivência em um corpo sitiado (Foto: Reprodução/Instagram)

A indicação ao Framboesa de Ouro, aliás, surge como um contraponto curioso dentro de um momento de amadurecimento artístico assumido pela atriz. Longe de abalar, o episódio parece reforçar uma postura mais desprendida em relação à própria trajetória, menos preocupada com validações externas e mais interessada em experiências que a coloquem em risco criativo. ‘Quarto do Pânico’ é um bom exemplo disso. Primeiro filme de gênero protagonizado por Isis, o longa exigiu um mergulho físico e emocional intenso.

A trama, que na versão brasileira tem direção de Gabriela Amaral Almeida, com a premissa clássica trazida para um contexto nacional, com novas tensões, leituras sociais e uma estética que privilegia o suspense psicológico; se passa quase integralmente dentro de uma casa, em um único dia, com a tensão crescendo de forma contínua. “Todo dia chegar no set e voltar para aquele estado de desespero era muito forte. O pânico realmente vai aumentando até o final da história”. E acrescenta:

É tensão o tempo todo. Foi muito desgastante e muito lindo também, porque acho que estou nessa fase da minha vida de me testar, de testar os meus limites. Esse experimento de personagens, de possibilidades, de histórias – Isis Valverde

Isis Valverde em cena com Marianna Santos no longa 'Quarto do Pânico' (Foto: Divulgação)

Isis Valverde em cena com Marianna Santos no longa ‘Quarto do Pânico’ (Foto: Divulgação)

Para dar conta dessa repetição emocional sem cair nos excessos, a atriz – que contracena com os atores André Ramiro, Marco Pigossi, Caco Ciocler e Leopoldo Pacheco – precisou encontrar um equilíbrio fino entre entrega e técnica. “Aprendi muito com a direção da Gabi. Em algumas cenas específicas, aprendi como usar o sentimento, mas, ao mesmo tempo, uma técnica para conseguir o resultado. Porque, às vezes, só entrar com o personagem, quebrando tudo — e eu amo isso também — não funciona. Não ia ter cena. A câmera não ia ver nada. Esse é um tipo de filme que você se entrega, foi lindo. Valeu cada segundo. Foi uma aula. E estou aberta para os próximos. Realmente foi marcante pra minha vida artística”.

Conexão real em cena

A experiência foi atravessada também por um aspecto inédito em sua carreira: o trabalho em dupla com uma criança. Em cena, Isis contracena praticamente o tempo todo com Marianna Santos, que vive sua filha no filme. Fora do set, a relação foi construída com cuidado e afeto. “Fiquei muito receosa. Não era um papel fácil para ela. Como sou mãe, acho que isso me ajudou. Tentei ser muito acolhedora, parceira. Criei uma relação fora de cena para que esse vínculo fosse real ali dentro”. E recorda:

“Tanto que ela ficou muito grudada comigo. Me aproximei como pessoa dela. Porque acho que a primeira coisa que a criança procura é a segurança. Fiz questão de levá-la no cinema, para tomar sorvete. Criamos uma relação, para que isso adentrasse o filme, para que esse olhar fosse real. Porque a criança é muito transparente. É um vidro, você vê tudo. Por isso construímos uma amizade e tudo fluiu. E ela deu um show. Nossa, é impressionante essa menina, incrível, realmente um talento”.

Marianna Santos e Isis Valverde: "Criamos uma relação fora de cena" (Foto: Divulgação)

Marianna Santos e Isis Valverde: “Criamos uma relação fora de cena” (Foto: Divulgação)

Essa conexão, segundo Isis, foi fundamental para sustentar a dimensão mais sensível da história, que se equilibra entre o suspense psicológico e um retrato cru da maternidade em situação extrema. Ao longo do filme, sua personagem é levada a confrontar o limite do cuidar, e o que acontece quando esse limite parece insuficiente. “Quando você percebe que talvez não consiga mais proteger quem ama, algo muda”, reflete. É nesse ponto que a narrativa se afasta do heroísmo clássico e se aproxima de um instinto mais primal.

Todas nós temos essas feras internas. A personagem arranca as seguranças falsas e vai com o que tem — corpo, instinto, coragem — para proteger o que mais ama – Isis Valverde

Força feminina e renascimentos

Para Isis, ‘Quarto do Pânico’ nasce de uma decisão clara: tirar a história da superfície e levá-la ao essencial. A atriz explica que, desde o início, ela e a diretora Gabriela Amaral Almeida construíram uma leitura simbólica do espaço. A casa não seria apenas cenário, mas metáfora do feminino; o quarto, um útero. “É ali que essa mulher gera de novo a relação com essa filha”, diz. Ao abandonar a roupagem espetacular do original hollywoodiano, o filme opta por ir “para o osso da história”, um osso que, na visão de Isis, está diretamente ligado à interpretação dos atores e à forma como um mesmo espaço é filmado sob diferentes estados emocionais.

"A casa deixa de ser apenas um cenário e vira uma metáfora. Ela é esse território feminino invadido, um corpo sitiado” (Reprodução/Instagram)

“A casa deixa de ser apenas um cenário e vira uma metáfora. Ela é esse território feminino invadido, um corpo sitiado” (Reprodução/Instagram)

Esse processo foi profundamente atravessador. “Foi um filme que foi me descamando ao longo dos dias, me transformou”, conta. A entrega ultrapassou o set e invadiu a rotina: “Eu dormia com um vaso na frente da porta. Uma coisa meio doida”. Aos poucos, ela foi entrando nessa maternidade extrema, marcada pela responsabilidade do cuidar e pela descoberta da impotência. “Quando você percebe que existe um limite do cuidar, e que talvez não consiga mais proteger quem ama, isso dói”, reflete.

A presença masculina invasora, com três homens rompendo esse espaço sagrado, foi vivida como um embate direto com esse feminino sitiado, forçando a personagem a reagir quase de forma primitiva. É nesse ponto que Isis identifica a potência mais profunda do filme: o acesso às “feras internas”. Inspirada por ‘Mulheres que Correm com os Lobos’, clássico de Clarissa Pinkola Estés, ela vê sua personagem como uma mulher que se despe das seguranças falsas e parte para o enfrentamento com o que tem. “Ela vai com uma faca, com o corpo, com tudo o que tem para proteger o que mais ama”, resume.

"Foi muito desgastante e muito lindo também, porque acho que estou nessa fase da minha vida de me testar, de testar os meus limites" (Reprodução/Instagram)

“Foi muito desgastante e muito lindo também, porque acho que estou nessa fase da minha vida de me testar, de testar os meus limites” (Reprodução/Instagram)

Ao falar do equilíbrio entre fragilidade e força, Isis volta ao símbolo do quarto como espaço de transformação. Para ela, ali acontece um renascimento. “Costumava dizer que essa mulher é meio fênix. Dentro desse quarto, ela se queima e ressurge outra”, afirma. No início da história, a personagem está insegura, atravessada por uma perda recente. Ao longo da narrativa, no entanto, o confinamento e o risco fazem emergir outra mulher, mais consciente, mais feroz, mais inteira. “A parte mais forte pra mim foi essa maternidade extrema e esse renascimento dessa mulher dentro dessa casa, dentro desse quarto”. Ainda, ao comparar a versão brasileira à original dirigida por David Fincher, ela destaca a mudança de perspectiva.

É um filme mais cru, mais íntimo e mais conectado à realidade brasileira, onde o medo, a violência e a sobrevivência feminina não são abstrações. Foi muito forte estar ali e renascer ali. Foi muito lindo poder contar essa história – Isis Valverde

“Foi um filme que foi me descamando ao longo dos dias, me transformou" (Reprodução/Instagram)

“Foi um filme que foi me descamando ao longo dos dias, me transformou” (Reprodução/Instagram)