*por Vítor Antunes
Para quem acompanha televisão brasileira, não é novidade que o “Zorra Total” foi um celeiro de talentos do humor popular. Entre os nomes revelados pelo programa está Isabelle Marques, que migrou do teatro para a TV ao lado de Rodrigo Sant’Anna. Hoje, ambos seguem trilhando caminhos de sucesso, investindo em uma comédia acessível e de forte apelo comunicativo. Isabelle, no entanto, observa que a visibilidade conquistada também vem acompanhada de um certo enquadramento profissional. “Existe um preconceito sim. Na maioria das vezes isso é um tanto velado. Vem melhorando muito, a gente vem caminhando pra frente. Só que ainda a gente encontra muito preconceito, principalmente com o tipo de humor que eu trabalho, que é o humor mais popular, que é visto como menos inteligente”, afirma.
Apesar do êxito, a atriz não se limita a um único gênero: “Eu me descobri no humor, foi bacana, não me falta trabalho, mas é óbvio que estou tentando trabalhar em outras coisas, abrir novos caminhos. Quero me experimentar em outras áreas. Eu estou pronta para me entregar a qualquer tipo de trabalho da mesma forma que me entrego à comédia popular”. E revela: “Para o ano que vem, a partir da primeira semana de janeiro, a gente já começa as gravações da oitava temporada do ‘Tô de Graça’.
A vocação para o humor, segundo ela, surgiu quase por acaso. “Eu, na verdade, nunca procurei a comédia. Na escola de teatro, na CAL, eu sempre procurava textos mais densos, mais dramáticos. Eu sempre achei que esse era o meu caminho. Quem me enxergou nesse lugar foi o Rodrigo Sant’Anna, que começou a me levar para procurar outras coisas, outros textos para eu trabalhar”.
Acham que a gente só pode fazer aquilo, a gente é colocada, a gente é rotulada, isso existe. Quero sempre dizer que sei trabalhar sem peruca e sem dentadura – Isabelle Marques
Em 16 de outubro, Isabelle estará em cartaz com a peça “Minha Nova Ginecologista”, no Teatro Fashion Mall, no Rio de Janeiro. O espetáculo já percorreu diversas cidades do interior do país, alcançando públicos que, muitas vezes, nunca tiveram acesso nem ao teatro nem a serviços básicos de saúde. “De início, quase que não rola, porque eles acharam que eu não ia topar a aventura de viajar para alguns povoados e me apresentar em lugares improvisados. Mas eu me encantei com o projeto e com a possibilidade de levar conhecimento para essas mulheres”, conta.
“Recentemente levamos a peça para cidades do interior do Rio Grande do Norte, em locais de difícil acesso, onde não só nunca tinham tido contato com teatro, como também com ginecologista. Depois da peça, a gente leva uma profissional para que essas mulheres tirem dúvidas e recebam orientação”. A montagem já passou por cidades pequenas do Rio Grande do Norte e de Goiás.

Isabelle Marques e Bruna Campello: Saúde feminina no interior do Brasil (Foto: Divulgação)
Para Isabelle, a iniciativa escancara uma realidade ainda pouco discutida. “É uma realidade que a gente já sabe que existe. Há casos de mulheres próximas que procuraram um ginecologista, mas quando a gente vai para alguns povoados e tem contato direto, percebe que a situação é muito maior do que se imagina. Arrisco dizer que a maioria das mulheres que foram nos assistir nesses lugares nunca pisou em um consultório ginecológico, mesmo tendo tido filhos. Muitas delas são interessadas no assunto”.
O impacto das apresentações é profundo. “É muito curioso e interessante ver como elas são interessadas. Nunca tiveram teatro, então nem pensar. Se estamos falando de mulheres que não foram ao consultório médico, você imagina o teatro. Geralmente o posto mais próximo é muito longe. Há um deslumbramento nelas, uma felicidade. Tivemos um retorno muito importante. A felicidade delas por estarem ali, presenciando algo que nunca tiveram de perto. É um engano achar que essas pessoas não têm interesse nisso — elas têm, o que falta é oportunidade”.
A discussão levantada pela peça vai além da saúde pública e toca em tabus ainda presentes. “É uma coisa bem enraizada achar que é errado, que é feio, que não é certo você se tocar, se olhar, se conhecer. Imagina deixar que outra pessoa te toque, te olhe, te examine. É muito doido pensar nisso, mas é uma realidade muito presente, que precisa ser mudada. A nossa felicidade com essa peça é justamente conseguir, com o nosso trabalho, transformar um pouco essa mentalidade, essa realidade de alguma forma”.
O processo criativo da peça também surpreendeu Isabelle. Dirigida por Alexandre Lino e escrita por Paulo Fontenelle, a montagem nasceu de uma equipe majoritariamente masculina, o que causou estranhamento inicial. “Isso me causou uma certa estranheza, mas a gente teve liberdade. Primeiro, teve uma médica que acompanhou o processo, auxiliou e deu indicações do que podia e do que não podia. Foi tudo muito bem acompanhado por profissionais. E eles também deram muita liberdade. São homens que procuram entender o universo feminino e nos deram espaço para colocar nosso conhecimento e experiência. O diálogo foi aberto, a conversa funcionou”. Isabelle seguirá com a peça até novembro, dividindo a cena com Bruna Campello. Na sequência, já tem novos compromissos.

Isabeller Marques e equipe de “To de Graça” (Foto: Divulgação)
MULHERES NO HUMOR
Com uma trajetória marcada pela comédia popular e pelo teatro, Isabelle Marques tem acompanhado de perto as mudanças — ainda lentas — no mercado do humor, sobretudo no que diz respeito ao papel das mulheres. Para a atriz, embora avanços sejam visíveis, o caminho está longe de concluído. “Eu acredito que a gente tá caminhando, de verdade. E acredito, também, que a gente ainda tem muita coisa pela frente. Está atrasado ainda, mas eu tenho visto mudanças positivas. O universo do humor sempre foi muito dominado pelos homens. Se pararmos para pensar, as personagens femininas de comédia que fizeram sucesso e se consolidaram são interpretadas por homens. São feitos por homens caracterizados de mulheres. E não é um grande esforço pensar: do Paulo Gustavo (1978-2021) ao Chico Anysio (1931-2012), ao Jô Soares (1938-2022). Acho que a gente está ganhando esse espaço, caracterizadas ou não. A mulher pode ser a pessoa que faz a piada — ela não tem que ser o motivo da piada. Porque a vida toda a gente foi o motivo da piada”, afirma.
Segundo Isabelle, a presença feminina em formatos como o stand-up também é um sinal de mudança. “A mulher entrou no stand-up. Eles estão dominando um território que era muito masculino, muito liderado por homens. As mulheres estão entrando. Eu acho que a gente está caminhando positivamente. Acho que tem muita coisa para melhorar. Como tudo, né? A gente está sempre nessa mudança constante. Acho que é importante e positivo, mas tem que melhorar”.
Com clareza, a atriz defende a ampliação do espaço de criação para humoristas mulheres. “Eu acho que a gente precisa de mais mulheres no protagonismo. A gente pode, a gente não é piada. A gente tá melhor do que tava. É preciso dar esse lugar à mulher. É você deixar a mulher agir, ser protagonista”, reivindica.
A comédia ainda é muito machista – Isabelle Marques
Isabelle também critica a atual escassez de programas de humor na televisão aberta, que por décadas sustentaram uma tradição sólida de comédias populares e séries cômicas. “A gente tinha tantos programas de humor. Eu não sei o que foi que aconteceu, em que hora acharam que programa de humor não valia mais a pena. Porque a gente tinha tantas coisas de humor ao mesmo tempo no ar. A gente tinha ‘A Grande Família’, ‘Tapas & Beijos’, ‘A Diarista’… E acho também que a gente precisa colocar o programa de humor, o humorista, para fazer o programa de humor. O cara que é habilitado para fazer humor, que sabe fazer humor”.
Para ela, o problema passa por uma lógica equivocada de produção. “Eu acho que essa é a fórmula perfeita. E não aquele que tem muitos seguidores, que chama público ou que é famoso. Se ele for bom, ok. Mas a gente tem humorista pra caramba. Homens e mulheres. Tem muita gente talentosa no humor. Vamos colocar essa galera para trabalhar. Vamos colocar essa gente para fazer o programa de humor. Não é um programa de humor? Então deixa os humoristas trabalharem. Porque é assim que vai funcionar”.
Isabelle ainda chama atenção para os rótulos que frequentemente limitam a atuação dos artistas de humor. “Nos tiram da novela porque acham que a gente não tem competência para fazer novela, porque a gente faz humor. Nos rotularam assim. E, ao mesmo tempo, pegam a galera da novela para fazer programa de humor. E aí a gente faz o quê? Se a gente não faz novela porque é do humor e não faz o programa de humor porque estão buscando uma galera que dá mais ibope, fica difícil”.
A atriz ressalta que não defende barreiras, mas igualdade de oportunidade. “Eu acho que todo mundo pode fazer tudo. Eu não estou dizendo que quem faz novela não pode fazer programa de humor, assim como eu acho que quem faz humor popular, como é o meu caso, pode fazer novela. A gente pode fazer o que quiser, porque a gente é ator. A gente pode passear, pode fazer de tudo. Mas se você determina que a gente não pode fazer uma coisa porque pertence a um nicho específico, e traz pessoas de fora para esse nicho, aí a gente não sabe mais o que vai fazer”.
Ao refletir sobre sua trajetória e o lugar das mulheres no humor, Isabelle homenageia as artistas que vieram antes. “A minha musa inspiradora, minha atriz preferida, que eu amo — infelizmente não está mais entre nós — é a Marília Pêra (1943-2015). Ela é a síntese disso tudo. Ela passeava em qualquer lugar. Marília Pêra fazia um drama como ninguém, assim como fazia uma comédia como ninguém. Qual mulher humorista não se inspirou em Andréa Beltrão e Fernanda Torres?”
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