*Por Brunna Condini
Indira Nascimento se firma como uma das maiores atrizes de sua geração após sua performance nos capítulos que já foram ao ar em ‘Dona Beja’. No ar na novela da HBO Max como Maria, personagem que atravessa um tortuoso processo de autodescoberta em meio a um contexto de repressões sociais e afetivas, lidando com conflitos ligados à sexualidade e ao amor. Na releitura do folhetim da Rede Manchete em 1986, Maria deixa de ser definida apenas por uma moral rígida, que a coloca em rivalidade direta com a protagonista Beja, vivida por Grazi Massafera, e passa também a revelar desejos por outras mulheres, algo ainda mais complexo dentro do contexto do século XIX. “O caminho dela é marcado por esse desejo que não pode acontecer. Esse é o grande conflito. Tem algo muito pulsante, muito forte, que ela tenta o tempo inteiro conter, abafar. Primeiro por si, porque ela mesma tem dificuldade de lidar com isso. E, claro, pelo contexto em que está inserida”, analisa.
A atriz, que também brilha em ‘Salve Rosa‘, filme de Susanna Lira, sucesso da Netflix, estrelado por Klara Castanho, que orbita ao redor do universo polêmico das influenciadoras mirins; tem sido mesmo incensada por seu trabalho em ‘Dona Beja’. Indira, que tem 35 anos e soma mais de uma década de trajetória, acredita que o reconhecimento do público também tem relação com o tempo de maturação de seu próprio percurso. “Acho que esse reconhecimento desse tamanho é resposta de um trabalho executado com muita maturidade, com muito rigor e muita precisão. Sou muito ‘caxias’, tenho muito respeito pela inteligência do público”.
Muitas vezes me frustrei com meus resultados por não sentir que conseguia entregar aquilo que eu deveria. E agora, pela primeira vez, tenho a sensação de que consegui entregar e fazer aquilo que tinha me proposto – Indira Nascimento

Indira Nascimento é exaltada por sua Maria em ‘Dona Beja’, personagem marcada por desejo, repressão e autodescoberta no século XIX (Foto: Divulgação)
Ela celebra o momento de visibilidade na carreira, e apesar do crescimento da exposição pública, Indira — que viu a curiosidade voltada para sua vida pessoal quando namorou Lucy Alves em 2024 (as duas fizeram a novela ‘Travessia’ ) — até comentou o assunto no passado, em prol da naturalidade para amar e contra preconceitos; mas ao falar de exposição hoje, diz manter uma relação cuidadosa com a própria privacidade, em todos os âmbitos, inclusive nas redes sociais. “Sou leonina com capricórnio. O meu grande conflito é que eu gosto de aparecer, mas sou extremamente reservada”, conta, rindo. “Com o tempo, fui entendendo que vou deixar esse sol brilhar através do meu trabalho. Porque nele eu fico nua, tudo que um ator pensa e sente aparece, já estamos muitos expostos. Por isso fiz uma escolha: deixar público esse universo da artista, mas preservar a minha vida privada. É bem melhor assim”.

Indira Nascimento como Maria em ‘Dona Beja’ (Foto: Divulgação/HBO Max)
Nos bastidores da profissão, a atriz também tem investido em ações de fortalecimento coletivo. Um exemplo é a criação de uma mentoria voltada para atrizes negras. “Isso surgiu porque senti falta, ao longo da minha trajetória, de poder trocar com meus pares. A experiência de uma mulher negra no mercado é diferente, e muitas vezes eu não tinha com quem conversar sobre isso”, explica. “Então pensei: posso contribuir com outras mulheres que estão chegando. Quero que meninas negras consigam acessar esse lugar mais preparadas para encarar o mercado”. A iniciativa, chamada ‘Mentoria entre Atrizes‘, já formou quatro turmas. “Foi incrível. Fiquei surpresa com o tanto de meninas interessadas nessa troca e pela confiança que elas têm em mim e no que venho construindo”, diz. “E este ano, no segundo semestre, vai ter também”, anuncia.
Estar pronta é tudo
Indira, que começou sua trajetória profissional como repórter, e ainda atua como apresentadora do programa ‘Momento Trailer’ no Canal Like, constata que o encontro com Maria marca um ponto de virada em sua trajetória artística. “Considero que viver essa personagem agora é um marco. Um momento de mudança de nível mesmo. Ela me encontra com mais experiência, com mais ferramentas técnicas, com um repertório emocional mais disponível. Sinto que a Maria chega em um momento preciso para que eu pudesse acolher suas necessidades e dar vida a ela da melhor maneira possível”.
Fico muito orgulhosa do trabalho em ‘Dona Beja’ porque sinto que é o meu momento mais maduro de carreira. Foi muito desafiador, mas curiosamente o papel para o qual eu estava mais preparada – Indira Nascimento

“Quero que meninas negras consigam acessar esse lugar mais preparadas para encarar o mercado” (Foto: Divulgação)
‘Dona Beja’ e a liberdade feminina
Na trama, Maria enfrenta um conflito profundo diante de um desejo que não encontra espaço para existir. Para a atriz, a força da personagem também está em sua dimensão humana, e no fato de que seu drama ecoa questões que ainda atravessam o presente. “Só faz sentido essa personagem existir porque ela é atual. Porque as mulheres ainda vivem isso hoje. Acho que as pessoas se identificam muito com Maria por conta dessa vulnerabilidade”, analisa.
Entre as cenas mais marcantes para Indira está um momento decisivo envolvendo Maria e Beja. “Teve uma cena, a do casamento, em que ela vê a Beja e surta. O texto que a personagem fala ali é um dos mais comoventes para mim. Porque é como se ela dissesse: ‘Meu Deus, não é possível que você não vai me deixar. Eu estou casando com outra pessoa, estou fazendo tudo que é para ser feito, estou seguindo todo o script para tentar tirar você da minha vida, e você não some’”, conta. “É muito comovente porque revela essa incapacidade de conseguir fazer aquilo que se espera. A Maria escancara para a gente as nossas limitações”.

Indira Nascimento e Grazi Massafera nos bastidores de ‘Dona Beja’ (Foto: Reprodução/Instagram)
Na visão da artista, a novela também abre espaço para reflexões contemporâneas sobre identidade, desejo e liberdade:
Em ‘Dona Beja’, minha personagem fala muito sobre sexualidade, sobre orientação sexual, mas também sobre a pressão que a sociedade coloca sobre as mulheres. Ainda hoje as mulheres estão debaixo de um jugo, de uma moralidade, de uma violência. Tem um teto que a gente está sempre encostando a cabeça. A novela atualiza essa discussão para que possamos pensar: se já é difícil lidar com isso hoje, imagina como foi para essas mulheres naquele período – Indira Nascimento
Indira acredita que esse tipo de narrativa reforça o papel transformador da arte. “Ela, o cinema, a televisão, têm uma contribuição fundamental para ampliar a discussão e levar temas importantes para dentro da casa das pessoas. A imagem é muito poderosa. Às vezes falamos sobre algo, mas quando vemos uma cena de alguém sofrendo porque não pode se declarar para a mulher que ama, isso é muito forte”, afirma. “Levo isso muito a sério. Acho que o meu trabalho pode ser uma ferramenta para que a gente construa uma sociedade melhor”.

“Ainda hoje as mulheres estão debaixo de um julgo, de uma moralidade, de uma violência. Tem um teto que a gente está sempre encostando a cabeça.” (Foto: Divulgação)
Salve Indira
O momento de destaque em ‘Dona Beja’ coincide com a chegada de outro trabalho ao público: o longa ‘Salve Rosa’, em que Indira vive Vera, uma mãe preocupada com o interesse da filha Luana (vivida por uma ótima Alana Cabral) pelo universo dos influenciadores e as ‘facilidades’ ofertadas. A personagem habita um universo bem diferente do de Maria. “Consigo assistir à Vera e ver a Vera. E consigo assistir à Maria e ver a Maria. É um momento de crescimento e de expansão como atriz”, diz ela, que nasceu na periferia de São Paulo e iniciou sua trajetória no jornalismo antes de se mudar para o Rio de Janeiro, em 2012, para se dedicar à atuação.
No filme, a trama discute o impacto das redes sociais na vida de crianças e famílias.
‘Salve Rosa’ é um filme que reflete muito o momento que vivemos: essa exposição excessiva e a ideia de que ser influencer virou plano de carreira. Minha personagem é esse contraponto, uma mulher com os pés no chão, tentando proteger a filha e entender esse universo – Indira Nascimento

Indira Nascimento no suspense ‘Salve Rosa’ (Foto: Divulgação)
De olho no futuro, Indira revela o desejo de seguir explorando personagens complexos. “Adoraria fazer outra antagonista, mas partindo realmente de um lugar de perversidade”, comenta. Com o sucesso de ‘Dona Beja‘, os convites já começaram a surgir, mas ela prefere dar os próximos passos com assertividade: “Chegaram propostas, e estamos analisando tudo com cuidado. Tenho muito rigor em construir uma carreira plural. Me interessam personagens que me expandam e me desafiem. Não posso divulgar ainda, mas vem coisa boa aí”.
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