Imóvel histórico da TV Manchete em SP, assinado por Niemeyer, irá a leilão após falência e dívida milionária de IPTU


O imóvel será leiloado em julho de 2026 como parte do processo de falência da Bloch Editores. Avaliado em R$ 96,3 milhões, o imóvel da Casa Verde acumula disputas judiciais, dívidas milionárias de IPTU e trabalhistas da extinta TV, além de questionamentos sobre parte do terreno ocupado pela Prefeitura paulistana. O complexo marcou uma fase turbulenta da emissora nos anos 1990, abrigando greves, programas de auditório e a transferência da cabeça de rede do Rio para São Paulo. Desde 2001, o espaço é ocupado pela Editora Escala, que acompanha a tramitação do leilão. O caso tramita na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Capital.

*por Vítor Antunes

A TV Manchete exibiu muitas novelas. No entanto, a mais longa, rocambolesca e controversa de todas sempre foi a dela própria. Falida em 1999, a outrora poderosa emissora dos Bloch foi cedendo, peça por peça, o patrimônio que um dia simbolizou glamour e poder na televisão brasileira. A sede histórica do Rio de Janeiro, na Rua do Russell, já se foi. Agora é a vez de São Paulo. O prédio da Manchete na Casa Verde — assinado pelo gênio da arquitetura Oscar Niemeyer (1907-2012), detalhe que por si só já seria um capítulo à parte — está sendo levado a leilão por uma dívida no IPTU e para pagar dívidas trabalhistas em razão da falência. O valor atualizado até março de 2026, alcança R$ 7,39 milhões, referente a exercícios entre 1993 e 2024, em anos descontínuos dentro do período.

Segundo documentação da leiloeira responsável pelo certame, o processo se dará em três etapas: a primeira tem início em 12 de junho de 2026 e se estende até 15 do mesmo mês; a segunda começa imediatamente após o encerramento da primeira, encerrando-se em 1º de julho; e a terceira — aquela em que o vencedor efetivamente arrematará o imóvel — tem seu desfecho marcado para 28 de julho de 2026.

Construção da sede da Manchete SP, em 1988 (Foto: Reprodução/Foto tratada e recuperada com auxílio de iA)

A própria documentação do leilão descreve um terreno com “área total de 6.119 m², em região estratégica da Zona Norte paulistana, próximo à Praça Delegado Amoroso Neto e à Avenida Ordem e Progresso”, com área construída distribuída em duas edificações corporativas interligadas”.

A avaliação original do imóvel, realizada em julho de 2021, fixou o valor em R$ 74,85 milhões. A reavaliação de março de 2026 chegou a R$ 96,374 milhões — uma valorização considerável, ainda que a história do endereço carregue algumas pedras no caminho.

E que pedras. Uma petição da massa falida da Bloch Editores aponta que a Prefeitura de São Paulo ocupa cerca de 1.000 m² do antigo estacionamento do imóvel, área posteriormente incorporada a uma avenida. O Município, por sua vez, informou uma dívida de IPTU de aproximadamente R$ 4,48 milhões em julho de 2021 — valor que, atualizado até março de 2026, alcança R$ 7,39 milhões, referente a exercícios entre 1993 e 2024, em anos descontínuos dentro do período. Além disso, o leilão também será utilizado para pagar dívidas trabalhistas da extinta emissora.

Anúncio da nova sede de Manchete em SP (Foto: Reprodução/Folha)

O edital, no entanto, assegura que o imóvel será entregue livre de quaisquer ônus. O leilão aceitará pagamento à vista — com quitação integral em até 24 horas após o encerramento — ou parcelado, com entrada de 25% e saldo em até 24 parcelas mensais corrigidas. O processo tramita na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Capital paulista.

A sede da Rede Manchete em São Paulo — um marco da arquitetura de Oscar Niemeyer na cidade — foi inaugurada oficialmente em 24 de janeiro de 1990. Em 1993, quando o Grupo IBF assumiu a gestão da emissora durante sua primeira grande crise financeira, a cabeça de rede foi transferida do Rio para São Paulo. Foi naquelas instalações da Casa Verde que se desenrolaram algumas das mais turbulentas greves e crises internas da história da emissora. Pouco depois, quando a Bloch retomou a TV, a rede voltou a ter o Rio como praça principal.  Em 1997, a sede paulistana produzia o Domingo Milionário, transmitido em rede nacional — e foi ali que um então estreante chamado Luiz Bacci deu seus primeiros passos na televisão. O Programa Raul Gil também tinha endereço fixo naqueles estúdios.

Com a falência da Manchete em 1999, o espaço foi alugado pela Editora Escala, que ocupa o imóvel desde 2001 — mais de duas décadas convivendo com o fantasma jurídico da massa falida. Fontes ligadas à empresa informam que a Editora Escala acompanha a tramitação legal e prepara uma estratégia de ação dentro dos limites da lei. A assessoria jurídica da Massa Falida da Bloch Editores, procurada pela reportagem, não respondeu aos contatos até o fechamento deste texto.