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Igor Cotrim: De ‘Os Príncipes’, de Luiz Rosemberg Filho, à série de Neville D’Almeida sobre ciúme

O longa, que conta a história da violenta jornada noite adentro de dois homens e duas prostitutas pelo Rio de Janeiro, ganha elogios da crítica e rende convite a ator para atuar em novo projeto de Neville D’Almeida, uma série de histórias sobre ciúmes. Diretor de clássicos como ‘A Dama do Lotação’, ‘Rio Babilônia’ e ‘Matou a Família e Foi ao Cinema’ começou as filmagens ontem, domingo (dia 27), na Ilha da Gigoia, no Rio de Janeiro

Publicado em 28/10/2019 | Por Heloisa Tolipan

Ana Abbot, Patrícia Niedermeier, Alexandre DaCosta e Igor Cotrim em ‘Os Príncipes’ (Foto: Divulgação)

*Por Jeff Lessa

Em uma época em que valores como empatia, amor ao próximo e respeito às diferenças parecem ter sido quase completamente abandonados pela sociedade, o filme “Os Príncipes” surge como um espelho necessário de nossos dias. Penúltimo longa dirigido pelo carioca Luiz Rosemberg Filho, morto em maio deste ano, aos 75 anos, o thriller havia sido exibido apenas na mostra competitiva do Cine PE do ano passado (onde levou os prêmios de melhor atriz para Patrícia Nierdemeier, ator para Igor Cotrim, ator coadjuvante para Tonico Pereira, e, ainda, montagem, som e fotografia) antes de fazer sua pré-estreia no Rio de Janeiro na última quinta-feira (24) e estrear para o público no dia seguinte.

Quem esteve na sala de exibição não foi poupado de uma violentíssima e devastadora crítica ao mundo de hoje. Isso embora o roteiro tenha sido escrito há décadas, ainda durante o período ditatorial brasileiro. Como se verá, porém, jamais poderia ter sido produzido naquela época em função da censura imposta pelo regime militar: na tela é apresentada uma longuíssima e incômoda noitada de dois devassos (os “príncipes” do título, Igor Cotrim e Alexandre DaCosta) acompanhados por duas prostitutas (Patrícia Niedermeier e Ana Abbott). Juntos, eles circulam pelo Rio à noite num antigo Ford Galaxy, cometendo crimes e fazendo sexo selvagem. Entre uma ação e outra, o quarteto se questiona sobre violência e sexo enquanto experimenta o prazer e a dor sem abandonar uma ironia sofisticada que critica os poderosos, como na cena em que uma das garotas garante que poderia ser ministra da Justiça.

No filme, a violência é tanto verbal como visual. Mas também remete a um tipo de degradação mais espiritual por que passamos todos atualmente. “Minha personagem se chama Alma, e isso me faz pensar no espaço da alma no mundo repressor e violento em que a gente vive”, observa Patrícia Niedermeier. “A alma está no corpo, no coração, nas emoções. Nada mais coerente, então, que nossos corpos estarem prostituídos. Existem ‘N’ formas de prostituição e estamos sendo violentados diariamente. Nossas almas foram violentadas”.

Ana Abbot e Patrícia Niedermeier vivem as prostitutas de ‘Os Príncipes’ (Foto: Divulgação)

Patrícia acrescenta que espera que “Os Príncipes” provoque discussões sobre o universo um tanto perdido em que vagamos. “Toda obra de arte tem a intenção de tocar, emocionar e fazer refletir. Meu objetivo como artista é provocar para transformar visões de mundo. Tenho a esperança de que o público enxergue a perspectiva crítica do filme, que toca em questões urgentes como feminicídio e violência”, diz a atriz que, neste domingo (27), está participando da abertura do Rio-Berlim Festival, que, até 4 de novembro, vai exibir 15 longas e 37 curtas brasileiros em quatro salas do cinema Babylon, um patrimônio cultural da capital alemã e símbolo de resistência do cinema independente. “Eu e o Cavi (Borges, diretor, produtor e marido de Patrícia) temos quatro títulos na mostra, que é dedicada totalmente ao cinema autoral brasileiro recente. Ele tem filmes como diretor e realizador e eu tenho dois como diretora”.

Uma curiosidade: enquanto conversamos, Patricia nunca deixa de observar o quanto ficou impactada pelas filmagens e pelo resultado de “Os Príncipes”. O mesmo acontece com o ator Igor Cotrim que, aos 44 anos, vive uma das fases mais intensas de sua carreira. “Quando terminamos de rodar, a primeira coisa que fiz foi tomar um longo banho, raspar a barba e cortar os cabelos. Eu não queria aquela energia, aquele carma do personagem em mim. Só pensava em me livrar daquele peso imenso, daquela vibração extremamente ruim que me impactou tanto”, conta.

As muitas cenas de nudez e sexo geraram o boato amplamente divulgado de que Cotrim teria pedido à sua mãe, dona Branca, para não assistir ao filme para não ver o filhote pelado. Em parte é verdade, só que o buraco é muito mais embaixo, de acordo com o ator. “Eu liguei e expliquei o que acontecia, e ela foi muito engraçada, disse que era ‘uma doce velhinha’”, diverte-se Cotrim para, em seguida, assumir um tom mais sério: “Na verdade, estão omitindo o resto do meu depoimento. Não é só a questão de aparecer nu no filme. O que eu realmente não gostaria é de que ela ficasse exposta à minha violência. Não quero que ela me veja sendo tão horrível e fazendo tão mal para as pessoas. Dona Branca não precisa passar por isso”.

Para exemplificar, o ator conta que uma cena improvisada com Patrícia Niedermeier atingiu um grau de catarse impressionante – justamente o que dona Branca deve ser poupada de ver: “Gritamos coisas horríveis um para o outro. O que nos veio naquela hora foi muito pesado”. E é justamente dessa característica absurdamente catártica que Cotrim mais gosta nos “príncipes”. “São homens de extrema direita, profundamente niilistas. O Cássio, meu personagem, chega a apontar uma arma para a mulher ao seu lado na cama e, em seguida, mira a própria boca. Ele não quer saber se vai morrer, se vai matar ou se vai carregar alguém junto”, observa. “É como a catarse das peças gregas, é para ver e não repetir. Eu acho assustadores certos filmes americanos que glamourizam esses seres. Somos dois caras abjetos, apenas. Nossa abordagem aqui é uma espécie de ‘Laranja Mecânica’ dirigido por Pasolini”.

(Cotrim sabe exatamente do que está falando. Recentemente, o ator perdeu duas amigas mortas por feminicídio na cidade de São Pedro da Serra, no interior de São Paulo. O assunto provoca muita indignação e se soma à carga emocional provocada pela participação em “Os Príncipes”.)

Prosseguindo: será que a catarse, característica mais marcante do libelo de Luiz Rosemberg contra a violência, valeria comparações de sua obra com “Bacurau”? Afinal, o longa de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, agraciado em maio deste ano com o Prêmio do Júri no Festival Internacional de Cannes, levantou debates intensos sobre revolta e insubmissão – em uma palavra, catarse. “’Bacurau’ trata da insurgência de pessoas sacaneadas, é diferente. Nosso filme fala de relações íntimas de violência e sexo”, acredita Cotrim. Patrícia Niedermeier concorda e observa que, apesar do aspecto catártico, “Os Príncipes” é diferente: “É um trabalho orgânico e provocativo de um homem atento a delicadezas, às pulsões de vida e morte”.

Desde o começo, a obra de Luiz Rosemberg Filho foi feita de indignação, daí sua associação com o chamado cinema marginal. Ele teve seus primeiros contatos com cinema no começo dos anos 1960, no Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE, e tornou-se conhecido como autor de obras como “Jardim das Espumas” (1971), “A$suntina das Amérikas” (1976) e “Crônicas de um Industrial” (1978). Este último chegou a ser elogiado até pelos censores da ditadura que o proibiram de ser exibido em Cannes, o que de nada adiantou: as latas do filme foram retiradas, no último momento, do avião que seguia para a Europa.

Logo depois da realização de “O Jardim das Espumas” (1970), mudou-se para Paris, onde se aproximou de Glauber Rocha. De volta ao Brasil, após dirigir “O Santo e a Vedete”, em 1982, passou 32 anos sem filmar para cinema. Seu retorno às telas aconteceu com “Dois Casamentos”, em 2015, e se deu pelas mãos do cineasta e produtor Cavi Borges. O filme é, inclusive, estrelado por Patrícia Niedermeier, que iniciava ali uma bela parceria com o cineasta: ”Ele estava havia muito tempo sem filmar. Passamos por um processo imersivo sobre questões éticas e estéticas muito intenso, com ensaios para investigar e descobrir o universo feminino”, conta a atriz, que filmaria também “Guerra do Paraguay” e “Os Príncipes” com Rosemberg.)

Ao longo de sua carreira, realizou dezenas de curtas-metragens e 11 longas, sempre marcados pela experimentação e pela crítica política. O diretor deixa um filme completamente inédito, intitulado “O Bobo da Corte”.

Diretor de clássicos como ‘A Dama do Lotação’, ‘Rio Babilônia’ e ‘Matou a Família e Foi ao Cinema’ chama ator para atuar em série de histórias sobre o ciúme. As filmagens começaram neste domingo (27), na Ilha da Gigoia, no Rio de Janeiro

Neville convidou Igor Cotrim para fazer parte de seu novo projeto, sobre o ciúme (Foto: Divulgação)

 Por essa, ninguém esperava. Talvez nem o próprio Igor Cotrim. O cineasta e ator Neville D’Almeida, de 78 anos, na ativa desde a década de 1960, ficou tão impressionado com a atuação do ator no longa de Luiz Rosemberg Filho que tratou de incluí-lo em seu novo projeto na noite de estreia de “Os Príncipes” para o público, sexta-feira passada. Convite feito, convite aceito. O projeto, sobre ciúmes, ainda não tem título definido, mas as primeiras cenas foram rodadas neste domingo, na Ilha da Gigoia, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Neville D’Almeida posa com a equipe de ‘Os príncipes’ logo após a estreia para o público (Foto: Divulgação)

“Ele me chamou e pediu para eu escolher uma canção francesa de que eu gostasse para cantar na cena. Escolhi ‘La Mer’, de Charles Trenet’”, conta, entusiasmado, o ator, lembrando que a canção encerra o longa “As Férias de Mr. Bean”, de 2007, na emocionante cena em que o personagem do ator inglês Rowan Atkinson finalmente consegue chegar ao mar, como qualquer turista britânico de férias na França.

(Ao telefone, Cotrim canta, em francês impecável, um trecho da canção escrita e gravada pelo chansonnier em 1946: “La mer / Qu’on voit danser / Le long des golfes clairs / A des reflets d’argent / La mer / Des reflets changeants / Sous la pluie”)

Cantar, aliás, não é novidade para Cotrim, que estrela a série “Amor de 4 + 1”, do Canal Brasil, ao lado de Branca Messina, Carolina Chalita, Gabriel Chadan, Angela Vieira, Pedro Brício, Antonio Pitanga, Gisele Itiê, Paulo Reis e Bruce Gomlevsky: “Eu canto duas músicas do Fagner e o ‘Space Oddity’, do David Bowie’. Também estou preparando um show com as minhas músicas”, conta. Assinada por Paula Barreto, da LC Barreto/Filmes do Equador em coprodução com a Caravela Filmes, “Amor de 4+1” está em sua segunda temporada.

Igor Cotrim estreou no teatro em 1995, na montagem de “A Lenda de Peter Pan”, interpretando o papel-título. Em 1999, entrou para o elenco do seriado “Sandy e Junior”, da Globo, em que interpretava o Boca, papel cômico pelo qual ficou famoso em todo o país. No cinema, fez seu primeiro longa em 2011, em “Elvis e Madona”, de Marcelo Lafitte, que lhe rendeu diversos prêmios pela interpretação do travesti Madona, cabeleireiro que acaba se sentindo atraído pela homossexual Elvis, interpretada por Simone Spoladore.

“As coisas estão acontecendo de um jeito muito bom. É uma fase nova. Tem o seriado ‘4 Estações’, que vai sair, o (filme)Belatriz’, para o ano que vem, uns curtas-metragens… Tem muita coisa legal”, revela o ator.

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