*por Vítor Antunes
Por diversas vezes, grandes atores foram instados a falar sobre sua sexualidade — ou, mais especificamente, sobre sua homossexualidade. Ao longo de décadas, esse tipo de cobrança, muitas vezes travestida de curiosidade pública, foi dirigida de maneira incisiva a nomes consagrados das artes cênicas brasileiras. Cassio Scapin, um dos mais respeitados atores de sua geração, tornou pública sua orientação há pouco tempo, embora, como faz questão de frisar, nunca tenha escondido nada de ninguém. Ainda que o tema hoje seja tratado com maior naturalidade, o ator pondera: “Eu nunca menti minha sexualidade, nem a omiti. A única coisa que eu fiz foi preservar a minha vida particular. Quando me perguntavam sobre ela, eu sempre desviava o assunto e falava de trabalho. Eu nunca forjei uma verdade’.
Um dos debates mais candentes da cena contemporânea envolve a discussão sobre “lugar de fala” e representatividade — especialmente no campo LGBTQIA+. Termos como transfake tornaram-se recorrentes para criticar a escalação de atores cisgêneros em papéis de pessoas trans. Da mesma forma, há questionamentos sobre atores heterossexuais que interpretam personagens gays. Para Cassio, trata-se de uma questão complexa, que exige reflexão múltipla — ética, artística e de mercado. “Podemos falar sobre isso pela perspectiva do mercado de trabalho, por uma questão comercial ou uma questão artística. Sob a ótica artística, isso deveria ser uma questão menor, o sexo ou a identidade de gênero da pessoa. Hoje há uma abordagem muito debatida sobre o lugar de fala da representação. As pessoas esqueceram que a arte dramática é a arte de representar”.
Hoje parecemos viver uma euforia midiática. Todos estão querendo surfar nesta onda. Acho que falta um lugar de equilíbrio. Comecei a falar mais abertamente sobre isso e as pessoas acolheram bem. Talvez não tenha sido surpresa para ninguém. Eu sempre fui coerente com aquilo que eu fui – Cassio Scapin
A fala de Cassio ecoa um sentimento cada vez mais presente entre artistas de longa trajetória: o de que a visibilidade deve vir acompanhada de liberdade individual — e não de pressões externas. Com serenidade e lucidez, ele se permite escolher os tempos e os modos de compartilhar sua intimidade, sem transformar sua vida pessoal em espetáculo.
Na televisão, um dos trabalhos mais marcantes de sua trajetória é, sem dúvida, “Castelo Rá-Tim-Bum”, clássico da TV Cultura que marcou gerações e consolidou sua popularidade junto ao público infantil. Mas Cassio também não foge de lembrar outros momentos de sua carreira na TV, inclusive aqueles em registros mais inusitados. Um exemplo emblemático é sua participação na saga “Mutantes”, da Record, produção que se tornou um ícone trash do audiovisual brasileiro. Ele relembra a experiência de ‘Mutantes’ com humor e honestidade: “Aquilo era muito trash, ainda que eu me divertisse. Tinha vezes em que era difícil e eu pensava ‘Meu Deus, como eu resolvo essa cena comigo com coerência e dignidade? Como posso falar quatro idiomas na mesma frase?’. Numa delas, meu personagem contracenava com um dinossauro, dizia a ele que queria ser livre, o dinossauro o comia e, em determinado momento, o descartava por vias naturais. Era difícil, mas me dei conta de que estava servindo ao gênero. Apesar disso, foi um sucesso, um grandioso sucesso, um entretenimento rasgado”.
Estabelecido na carreira de ator, que exerce há mais de quatro décadas com reconhecimento de crítica e público, Cassio agora planeja trilhar um novo caminho. Aos 60 anos, pretende voltar aos bancos universitários e dedicar-se à Psicologia, numa guinada de vida que revela inquietude e desejo de renovação. “Eu estou planejando voltar a estudar, cursar Psicologia, que vai ser a minha primeira graduação, já que sou formado em nível técnico como ator. Preciso preparar a minha cabeça para isso”, revela.

Cassio Scapin: “Eu estou planejando voltar a estudar, fazer Psicologia, que vai ser a minha primeira graduação” (Foto: Carlo Locatelli)
LUGAR DE FALA
Com mais de quatro décadas dedicadas à cena teatral e televisiva, Cassio Scapin observa com atenção a nova geração de atores e as transformações profundas no mercado artístico. A perspectiva de quem viveu diferentes ciclos da cultura brasileira permite-lhe traçar um diagnóstico preciso sobre a formação dos intérpretes e os rumos da arte dramática no país. “Eu acho muito difícil essa questão da mudança do mercado hoje. Já peguei uma geração que era consagrada, que começou com uma geração anterior que também foi consagrada, então eu tenho um background de história do teatro e de formação de ator que é muito específica e muito afortunada pelo momento histórico. O que acontece agora, na verdade, é que a quantidade de informação é tanta que a formação não existe. As pessoas estão preocupadas com muitas coisas e sequer entendem sobre a arte de representação. Até a Escola de Arte Dramática já passou por transformações. Porque a gente está numa sociedade hoje em que o artista, o ator, é um pouco antena”, analisa.
Qualquer pessoa, qualquer ator, deveria poder fazer tudo. E eu acho um prejuízo, na verdade, para a arte e para a cultura, que tenha se estabelecido este limite, onde só uma trans pode fazer uma trans. Eu acredito, inclusive, que uma trans deveria fazer mulheres cis ou qualquer personagem feminino, pois é uma atriz. Temo que, em algum momento, só os heteros vão fazer heteros, os gays só vão fazer gays. E vamos, assim, ficando num nicho limitado da potencialidade artística, o que é muito complicado – Cássio Scapin
Ele prossegue: “Eu sou de uma geração que eu vi trabalhos maravilhosos de atores homens fazendo travestis, e que foram importantes para a formação da minha sexualidade, que foram libertadores. Porém, isto posto, há a questão da sobrevivência. Essas pessoas têm pouco lugar de acesso e pouco trabalho. Então, se transformou numa reserva de mercado. E o mercado é espremido — e, para estas pessoas, ainda mais. Espero que as coisas evoluam a ponto de a gente não precisar mais dessa distinção, que um homem trans possa fazer o mocinho da novela, da mulher trans fazer a voz de família, que a gente volte a sermos todos pessoas criadoras, criativas”.

Cassio Scapin amplia o debate sobre as questões LGBT (Foto: Carlo Locatelli)
O ator amplia a reflexão para os efeitos das novas dinâmicas de comunicação sobre o ofício: “A gente está numa sociedade onde tem o tal dito lugar de fala, onde eu tenho que me exercer como indivíduo na minha peculiaridade, e isso é muito complicado, porque a função do ator vai se dissolvendo. Hoje começa a se buscar um norte para se representar, para as pessoas pararem de fazer elas mesmas. A gente tem que conversar com as cobranças do mercado, o que é absolutamente cruel. Além disso, há o mercado das mídias, do Instagram, dos likes, dos influencers. Então, um ator compete com influencer, tornando o mercado estreito. Geralmente, um influencer acaba sendo ator. Mas um ator dificilmente passa para o lado do influencer porque é um outro jeito de pensar. É um outro código. Essa fronteira começou a ficar muito esfumaçada. Não se tem uma fronteira muito delimitada. O pessoal de maior alcance no mercado financeiro acaba ocupando espaço. Inclusive, no passado, alguns modelos se esforçaram e se transformaram em atores bons, em atores possíveis”.
Outro tema que Cassio traz à cena é o envelhecimento dentro da comunidade LGBTQIA+. Segundo ele, trata-se de um assunto ainda permeado por tabus e idealizações: “O envelhecimento é igual para todo mundo, mas ele não é democrático. Quando se fala do LGBT, há uma referência muito forte com a potência, com a juventude, com a beleza, com alguns valores que são perecíveis. Velhice é ruim para todo mundo, assim como a solidão é difícil para todo mundo. Parece que, num determinado momento, a sociedade LGBT tenta adquirir os valores da sociedade heteronormativa, como casamento, família e propriedade. É difícil envelhecer para qualquer pessoa. Há muitas pessoas que estão envelhecendo sozinhas e hoje começa a se pensar em todo um grupo de discussão de moradias alternativas comunitárias. Então a sociedade vai começar a arranjar um jeito de se agrupar, de se entender e de criar um lugar de envelhecimento mais sadio”.
Ao falar sobre o contato com jovens talentos, Cássio identifica um traço recorrente: a sensação de estar diante de uma geração que, muitas vezes, se comporta como se estivesse inaugurando temas e práticas já experimentados no passado. “A liberdade de costumes que se diz muito moderna — essa de relação a três, de casais mistos — na verdade é muito antiga. E, enquanto isso, os jovens acham que estão fazendo revolução. Há coisas que só podem ser discutidas hoje porque alguém falou delas antes”.
A questão é que nem todos optaram por levantar bandeira antigamente; fizeram por bravura e sem o respaldo do coletivo – Cassio Scapin

“Os jovens acham que estão fazendo revolução. Há coisas que só podem ser discutidas hoje porque alguém falou delas antes” (Foto: Carlo Locatelli)
O ator continua: “Eu acho que a gente sofreu, algum tempo atrás, eu não sei aonde a gente classifica isso, se é por causa do neoliberalismo cultural ou por lei de mercado, que as pessoas, em todas as áreas, começaram a achar que estão inventando a roda. Fazem uma coisa que é absolutamente repetitiva, que já foi feita, e se dão ao luxo de dizer que aquilo é uma inovação. Só porque está esquecida na memória. Porque, até um determinado momento da história, a gente teve uma coisa que era o acúmulo de conhecimento. Mesmo para negar o que estava acontecendo antes de você, você tinha que ter um acúmulo de conhecimento para ter ponto de contrapartida para negar aquilo que você queria afirmar. Para validar aquilo que você estava afirmando, você teria que ter argumentos para refutar o que tinha sido anterior. Hoje você não precisa mais disso. As pessoas inventam porque o mercado lança como se fosse uma coisa absolutamente inovadora”.
O FUTURO É POP
Na trajetória de muitos artistas, há personagens que se tornam indissociáveis de seus nomes. São criações que ultrapassam a tela, moldam a memória coletiva e acabam, de certo modo, sublinhando toda uma carreira. Lucélia Santos tem a sua Isaura, a icônica protagonista da novela homônima; Mel Lisboa, a Anita da minissérie que marcou o início dos anos 2000. No caso de Cassio Scapin, o personagem que se tornou símbolo de sua popularidade é Nino, o aprendiz de feiticeiro de “Castelo Rá-Tim-Bum”, uma das produções mais emblemáticas da televisão brasileira.
“Há muito tempo atrás, quando eu fazia o Castelo Rá-Tim-Bum e, simultaneamente, eu fazia uma peça (Tamara), que fazia um sucesso, logo depois fizemos um espetáculo baseado no Castelo e ele também virou um sucesso. Ficamos mais ou menos por quatro anos fazendo espetáculo e enchendo estádio de futebol. A gente andava escoltado. Eu tive uma loucura na vida por causa do personagem, que era muito complicado. Quando eu entrava em cena, parecia que era jogo de futebol mesmo. Alguma coisa na minha cabecinha falava assim: ‘calma, porque passa. Calma, porque passa’. Eu sempre fui uma pessoa bastante impaciente e meio insatisfeita com os estados aonde eu me encontrava, e sempre tive muito medo da estagnação. Em um determinado momento, que foi muito difícil, muito complicado, de um trabalho de suporte mesmo, eu decidi parar. Decidi parar quando tudo estava bem. Na época eu estava com cerca de 33 anos — e, pensando com o olhar de hoje, eu era uma criança”.
Acrescenta: “Não que hoje eu não reviva o Nino. Já o revivi por muitas vezes. Eu não repudio o sucesso. Não tem como repudiar uma coisa que foi tão positiva na minha vida. Eu sou grato a ele, eu tenho o maior carinho com o personagem. Eu tenho o maior carinho com as pessoas que vêm me abordar por causa do personagem. O que fica com as pessoas, você não controla. Depois que você entrega, você entrega para o público, você entrega o seu trabalho e você não é mais dono. É muito do desejo de como as pessoas te veem. Esse personagem sempre teve um feedback positivo, eu me dou muito bem com ele, com a memória dele, com o tributo que ele rende”. O depoimento revela a delicada relação entre o ator e um papel de alcance monumental. Nino projetou Cassio para uma dimensão de reconhecimento popular raramente alcançada por atores vindos do teatro. Mas, ao mesmo tempo, exigiu dele discernimento e coragem para não se cristalizar apenas na imagem do personagem. A decisão de interromper o ciclo no auge dos aplausos demonstra um impulso de reinvenção que marca toda sua trajetória.

Nino de “Castelo Rá Tim Bum” , exibido pela TV Cultura em 1994 (Foto: Jair Bertolucci/TV Cultura)
Para o próximo ano, Cassio tem uma série de projetos em andamento, e um deles dialoga diretamente com o presente: um espetáculo sobre a inteligência artificial, previsto para o primeiro semestre. “É um texto que foi adaptado para uma leitura pensando na relação do artista com a inteligência artificial. O espetáculo é provocativo”.
A inquietação com a IA não se restringe ao plano artístico; há também um olhar atento para seus riscos e lacunas. “A IA ainda é um pouco terra de ninguém. A gente precisa estar muito atento. A IA realiza vários dos comandos que demandamos, mas ao mesmo tempo comete erros crassos de informação. Ainda bem que a gente não pode estar entregue. Enquanto a gente não estiver entregue às comodidades totais da inteligência artificial, a gente ainda tem controle. E, infelizmente, não dá para fugir. Estamos num ponto sem volta. Impossível negar o que isso está feito, que isso existe no mundo e que isso é uma ferramenta, um instrumento. É impossível — seria uma burrice negar. Mais que burrice, um suicídio. Então, para isso, é importante se municiar de informação, de conhecimento tecnológico para usar essa ferramenta e poder seguir em frente, porque o tempo não volta. A gente tem que entender que tem os seus prós e seus contras”.
A proposta não é meramente temática, mas política: inserir o teatro no centro dos grandes debates contemporâneos, transformando a cena em espaço crítico diante de uma revolução tecnológica ainda em curso.

Cassio Scapin também quer revelar-se como palestrante, em 2026 (Foto: Carlo Locatelli)
Outra iniciativa de Cássio envolve uma série de palestras no estilo TED Talks, nas quais pretende revisitar sua própria trajetória e compartilhar reflexões sobre arte, pertencimento e realização pessoal. “Estamos organizando uma sequência de palestras para falar, contar um pouquinho do percurso de vida. Para mim, o teatro foi uma coisa absolutamente fundamental de formação. Eu sou de família muito pobre, da periferia e, enfim, tive uma formação muito difícil, e o teatro realmente salvou minha vida. Se dependesse da meritocracia, eu só estaria desamparado porque não dava para competir. E no teatro eu achei um lugar para mim, dentro do teatro. Eu não sei falar muito de mim se não falar de teatro. Quando você se dedica a uma coisa com amor e com afeto, e você se identifica naquilo e você se realiza, a probabilidade — sem contar a questão de rico ou pobre, se você vai ficar milionário ou não — de que você se sinta feliz na vida, de que você tenha uma existência boa, são maiores. Então, as palestras vão nesse sentido: de tentar encontrar esse conforto de realização, mesmo que seja numa casinha de chá pequenininha, ou se você é arquiteto, ou se você cuida de cachorro, ou o que você tiver para fazer na vida — que você faça com amor e com afeto, que a coisa acontece de alguma maneira”.
Podemos encerrar esse percurso com a imagem de um artista que, mais do que habitar personagens, habita o próprio tempo – com consciência, delicadeza e curiosidade. Cassio Scapin atravessa décadas de cena sem se deixar aprisionar por rótulos ou papéis icônicos. Soube transformar a notoriedade de Nino em trampolim, não em jaula; fazer da própria sexualidade um território de liberdade, não de espetáculo; e do envelhecer, um gesto político, não um silêncio imposto. Entre a memória afetiva de gerações e os debates mais urgentes da contemporaneidade – da inteligência artificial ao lugar de fala -, constrói uma trajetória que é, ao mesmo tempo, documento e reinvenção. Aos 60 anos, Cassio segue em movimento, reafirmando, com a serenidade dos que sabem quem são, que a arte continua sendo seu espaço de reflexão, resistência e afeto.
Artigos relacionados
Lázaro Ramos fala da chegada de seu vilão africano ao Brasil em "A Nobreza do Amor" e sobre autores negros na TV
Gabriel Braga Nunes comemora sucesso no teatro e nega volta à TV: "Fiz 25 novelas em 25 anos"
GloboPop erra no conceito, falha na execução e revela dificuldades da Globo para competir com TikTok e Kwai