Ícone das novelas, atriz Nívea Maria critica os exageros da tecnologia nas novas tramas e está no ar em duas reprises


Com 62 anos de trajetória, a atriz reflete sobre as transformações tecnológicas nas novelas e defende que a dramaturgia não pode perder humanidade e profundidade. Destaca a importância do trabalho coletivo e do encontro entre gerações, como na parceria com Regiane Alves nos palcos. Ela comemora ainda o retorno de produções clássicas como “A Moreninha”, no Globoplay e reforça que continua movida pela paixão de emocionar o público. Atriz vive um novo momento na carreira ao conciliar televisão, teatro e cinema, com três filmes prontos e negociações para retornar às novelas

Nivea Maria segue investindo em novas linguagens (Foto: Leo Aversa)

*por Vítor Antunes

Há mais de seis décadas atuando em novelas, Nívea Maria fala com propriedade sobre as transformações que a televisão atravessou — das novelas longas às micronovelas e novelinhas verticais. “Passei por todas as fases da tecnologia brasileira. Nas primeiras novelas, a dramaturgia era mais profunda, a história contada de forma às vezes um pouco mais teatral. A tecnologia foi influenciando tudo de tal maneira que hoje se grava com uma ousadia que ultrapassa, às vezes, o real — fica um pouco over. Por mais que a tecnologia domine, não deixo faltar humanidade ao meu personagem: a sensibilidade, o tempo de dizer as falas, a verdade, a profundidade do texto”.

E vai além, defendendo que a tecnologia não deveria se sobrepor à dramaturgia — e que grandes histórias continuam dependendo de grandes autores e de um trabalho essencialmente coletivo. “Alguns diretores não deveriam deixar a tecnologia intervir demais na dramaturgia. Também precisamos de autores — estamos começando a ter autores jovens de sucesso, que trazem conteúdos e histórias mais modernas. Mas ninguém faz nada sozinho. Aprendi isso sempre: a direção, a técnica, os colegas, a cenografia, o figurino — tudo depende do outro. Se você não estiver de mãos dadas, não consegue fazer um trabalho rico, bonito, que chegue ao coração do público”.

Depois da atuação recente na novela “Êta Mundo Melhor!”, na Globo, Nivea aproveita o momento antes de engatar em uma nova trama para subir aos palcos na peça “Querida Mamãe”, de Maria Adelaide Amaral com direção de Pedro Neschling e fazer uma virada expressiva na sua relação com o cinema. “Tenho três filmes prontos. Entre eles, “Senhoras”, que fiz com Zezeh Barbosa. Uma comédia, mas também uma forma muito atual de falar sobre a maturidade feminina, sobre mulheres que levam uma vida cheia de energia, com intensa participação social. Em breve também estarei no longa “Saidinha de Natal”, do Danilo Gentili“.

Para ela, este é um ciclo especial — aquele que abre espaço para os veteranos e coloca em debate o lugar que ocupam. Com recorrência, os mais experientes foram deixados de lado. Mas, segundo Nívea, o cenário começou a mudar: “Hoje se coloca muito o trabalho das veteranas e dos veteranos. Na verdade, não posso reclamar dos convites que recebi, nem da qualidade dos trabalhos que faço”.

Sempre disse que protagonizo o personagem que estou fazendo. A história do meu personagem é a minha história. Uma produção tem vários personagens — no cinema, na novela, no teatro. Nunca me importei com essa questão de quem é o protagonista do trabalho. Sempre me sinto protagonista da história do meu personagem — Nívea Maria

Em sua última novela, Êta Mundo Melhor!, sua personagem colocou em cena o espaço ocupado pelas mulheres na década de 1940. Uma autora que não podia assinar seu trabalho — pois não havia mulheres naquela função — e que se viu obrigada a vestir-se de homem para ser aceita. “Naquela época havia várias restrições. A mulher não podia ser autora de novela, e a história a conduziu a se vestir de homem para ser aceita na sociedade. Tem o lado do humor, que era engraçado, mas tem também, de repente, o lado de uma luta que permanece — a posição da mulher dentro da sociedade, em valorizar-se e valorizar o trabalho que faz, em qualquer área, em qualquer profissão.”

Há poucos meses, “A Moreninha”, protagonizada por Nívea, voltou ao Globoplay e gerou debate. Havia um clamor entre os noveleiros mais ortodoxos pela retomada da trama dos anos 70. Além desta, a atriz pode ser vista em “Além do Tempo”, que está de volta na faixa Edição Especial da Globo. “É impressionante como, nessas reprises, as pessoas vão lá atrás e se encantam. O público guarda essas personagens e as histórias, que são muito lindas. Havia uma procura, uma vontade real de ver. Tem novelas que ficaram na memória do público. Fico muito feliz”.

Nivea Maria e Regiane Alves em cena na peça “Querida mamãe” (Foto: Leo Aversa)

EM CENA

No teatro, Nívea pode ser vista em Querida Mamãe, ao lado de Regiane Alves — e o encontro de duas gerações em cena é, para ela, muito mais do que uma escolha de elenco. “Nos últimos 10 anos, é o que tenho feito sempre. Todos os meus trabalhos são encontros de gerações, com atores e atrizes mais jovens, importantes, de sucesso. Regiane, além de ser uma atriz maravilhosa, tem uma trajetória muito forte, muito guerreira. A gente troca muito, se olha muito — deu certo. Não só como mãe e filha, mas como duas colegas de trabalho, duas guerreiras dessa arte de representar”.

Sobre a passagem do tempo e o que a profissão significa depois de mais de seis décadas, Nívea é direta: nasceu para isso. “Comecei aos 7 anos com balé clássico. Descobri que através do gestual, através da palavra, podia me comunicar e emocionar as pessoas, encantá-las. Para mim, há um lado de necessidade, de responsabilidade, de missão. Não deu para parar. Minha cabeça ainda tem muita capacidade de decorar, de estudar — e eu gosto”.

Nivea Maria acredita que este é um momento importante para os atores veteranos (Foto: Leo Aversa)

Entre os refletores da televisão, o silêncio concentrado do teatro e a redescoberta do cinema, Nívea Maria atravessa o tempo sem jamais parecer presa a ele. Aos 62 anos de carreira, segue movida pela mesma inquietação da menina que encontrou na arte uma forma de tocar o outro — agora com a serenidade de quem compreende que permanência não é insistência, mas reinvenção. Em um país que tantas vezes esquece seus veteranos, Nívea permanece como memória viva da dramaturgia brasileira: uma atriz que atravessou épocas, tecnologias e linguagens sem perder aquilo que considera essencial — a humanidade. E talvez seja justamente isso que faça com que suas personagens continuem ecoando no público: porque, por trás de cada fala e de cada cena, há sempre alguém ainda profundamente apaixonada pelo ofício de emocionar.