*por Vítor Antunes
Há mais de seis décadas atuando em novelas, Nívea Maria fala com propriedade sobre as transformações que a televisão atravessou — das novelas longas às micronovelas e novelinhas verticais. “Passei por todas as fases da tecnologia brasileira. Nas primeiras novelas, a dramaturgia era mais profunda, a história contada de forma às vezes um pouco mais teatral. A tecnologia foi influenciando tudo de tal maneira que hoje se grava com uma ousadia que ultrapassa, às vezes, o real — fica um pouco over. Por mais que a tecnologia domine, não deixo faltar humanidade ao meu personagem: a sensibilidade, o tempo de dizer as falas, a verdade, a profundidade do texto”.
E vai além, defendendo que a tecnologia não deveria se sobrepor à dramaturgia — e que grandes histórias continuam dependendo de grandes autores e de um trabalho essencialmente coletivo. “Alguns diretores não deveriam deixar a tecnologia intervir demais na dramaturgia. Também precisamos de autores — estamos começando a ter autores jovens de sucesso, que trazem conteúdos e histórias mais modernas. Mas ninguém faz nada sozinho. Aprendi isso sempre: a direção, a técnica, os colegas, a cenografia, o figurino — tudo depende do outro. Se você não estiver de mãos dadas, não consegue fazer um trabalho rico, bonito, que chegue ao coração do público”.
Depois da atuação recente na novela “Êta Mundo Melhor!”, na Globo, Nivea aproveita o momento antes de engatar em uma nova trama para subir aos palcos na peça “Querida Mamãe”, de Maria Adelaide Amaral com direção de Pedro Neschling e fazer uma virada expressiva na sua relação com o cinema. “Tenho três filmes prontos. Entre eles, “Senhoras”, que fiz com Zezeh Barbosa. Uma comédia, mas também uma forma muito atual de falar sobre a maturidade feminina, sobre mulheres que levam uma vida cheia de energia, com intensa participação social. Em breve também estarei no longa “Saidinha de Natal”, do Danilo Gentili“.
Para ela, este é um ciclo especial — aquele que abre espaço para os veteranos e coloca em debate o lugar que ocupam. Com recorrência, os mais experientes foram deixados de lado. Mas, segundo Nívea, o cenário começou a mudar: “Hoje se coloca muito o trabalho das veteranas e dos veteranos. Na verdade, não posso reclamar dos convites que recebi, nem da qualidade dos trabalhos que faço”.
Sempre disse que protagonizo o personagem que estou fazendo. A história do meu personagem é a minha história. Uma produção tem vários personagens — no cinema, na novela, no teatro. Nunca me importei com essa questão de quem é o protagonista do trabalho. Sempre me sinto protagonista da história do meu personagem — Nívea Maria
Em sua última novela, Êta Mundo Melhor!, sua personagem colocou em cena o espaço ocupado pelas mulheres na década de 1940. Uma autora que não podia assinar seu trabalho — pois não havia mulheres naquela função — e que se viu obrigada a vestir-se de homem para ser aceita. “Naquela época havia várias restrições. A mulher não podia ser autora de novela, e a história a conduziu a se vestir de homem para ser aceita na sociedade. Tem o lado do humor, que era engraçado, mas tem também, de repente, o lado de uma luta que permanece — a posição da mulher dentro da sociedade, em valorizar-se e valorizar o trabalho que faz, em qualquer área, em qualquer profissão.”
Há poucos meses, “A Moreninha”, protagonizada por Nívea, voltou ao Globoplay e gerou debate. Havia um clamor entre os noveleiros mais ortodoxos pela retomada da trama dos anos 70. Além desta, a atriz pode ser vista em “Além do Tempo”, que está de volta na faixa Edição Especial da Globo. “É impressionante como, nessas reprises, as pessoas vão lá atrás e se encantam. O público guarda essas personagens e as histórias, que são muito lindas. Havia uma procura, uma vontade real de ver. Tem novelas que ficaram na memória do público. Fico muito feliz”.

Nivea Maria e Regiane Alves em cena na peça “Querida mamãe” (Foto: Leo Aversa)
EM CENA
No teatro, Nívea pode ser vista em Querida Mamãe, ao lado de Regiane Alves — e o encontro de duas gerações em cena é, para ela, muito mais do que uma escolha de elenco. “Nos últimos 10 anos, é o que tenho feito sempre. Todos os meus trabalhos são encontros de gerações, com atores e atrizes mais jovens, importantes, de sucesso. Regiane, além de ser uma atriz maravilhosa, tem uma trajetória muito forte, muito guerreira. A gente troca muito, se olha muito — deu certo. Não só como mãe e filha, mas como duas colegas de trabalho, duas guerreiras dessa arte de representar”.
Sobre a passagem do tempo e o que a profissão significa depois de mais de seis décadas, Nívea é direta: nasceu para isso. “Comecei aos 7 anos com balé clássico. Descobri que através do gestual, através da palavra, podia me comunicar e emocionar as pessoas, encantá-las. Para mim, há um lado de necessidade, de responsabilidade, de missão. Não deu para parar. Minha cabeça ainda tem muita capacidade de decorar, de estudar — e eu gosto”.

Nivea Maria acredita que este é um momento importante para os atores veteranos (Foto: Leo Aversa)
Artigos relacionados
Cristiana Oliveira retorna a novela inédita da Globo após 14 anos, fala sobre maturidade e diz: "Não vivo de passado"
Post de um ex-BBB sobre beleza de Rivellino faz Daniel Blanco, que interpreta o craque em "Brasil 70", explodir nas redes
Do perigo das linhas 0900 nos anos 1990 às bets na CazéTV: velhas fórmulas de lucro voltam a expor público a prejuízos