*por Vítor Antunes
Ele é um dos grandes nomes da teledramaturgia nacional, com uma trajetória que se confunde com a própria história da televisão brasileira. Colaborador em clássicos como “Roque Santeiro” e autor da trama que revolucionou a forma de a Record contar histórias nos anos anos 2000, Marcílio Moraes, 81 anos, atravessa hoje uma fase de afastamento involuntário dos holofotes. Desde sua saída da emissora de Edir Macedo, após “Ribeirão do Tempo”, o dramaturgo ainda não conseguiu emplacar novos projetos – um reflexo, segundo ele, das profundas mudanças pelas quais o mercado passou nos últimos anos. “Eu tenho vários projetos, em termos de trabalho. Não parei, mas está difícil de emplacar. Sinto essa dificuldade. O mercado se tornou difícil, diferente daquilo que eu conhecia, é outro”, desabafa o autor, que, ao longo de décadas, firmou-se como uma das vozes mais originais da teledramaturgia.
Ao comentar a atual onda de remakes – prática que se consolidou como estratégia frequente das emissoras -, Marcílio, que foi coautor de “Irmãos Coragem” em sua versão de 1995, ressalta o desafio de recontar obras já consagradas na memória coletiva do público. “O remake é sempre uma dificuldade. Tudo muda, o tempo é outro, a cabeça das pessoas é outra. Uma história que deu muito certo num momento não dá no outro”, analisa, trazendo à tona um olhar de bastidor raro para um gênero que há décadas molda a cultura popular brasileira.
Nesta entrevista, em que o autor revisita os bastidores de novelas emblemáticas como “Irmãos Coragem”, “Mico Preto”, “Sonho Meu”, “Vidas Opostas” e “Mandala”, ele também reflete sobre o impacto da transformação estrutural do mercado audiovisual e da crescente desvalorização dos autores. “Esse movimento de desvalorização dos autores vem de algum tempo e cresceu muito nos nesses últimos anos, com as salas de roteiro que diluem a autoria. Junta-se 10 pessoas ali, tem um que que coordena e tal, mas autor não tem. É um mercado estranho para mim”, afirma.
Eu sempre trabalhei com uma autoria e acredito que é ela que dá a individualidade na assinatura do autor. Cada um percebe um mundo, e a sua ficção, como uma maneira de criar uma história diferente. Quando se dilui muito assim, eu acho que se perde a alma de um projeto. Parece até coisa de inteligência artificial. A diluição da autoria precariza este segmento e os direitos de autor – Marcílio Moraes
Marcílio também não acha ruim que hoje haja o streaming e que novelas antigas possam ser vistas. “Se não fosse o Globoplay, por exemplo, muitas novelas jamais seriam vistas. Agora elas são como livros na estante, que podem ser consultados a todo tempo. Eu acho isso bom, porque dá acesso ao público à história da televisão”. Sobre o futuro das novelas ele é cauteloso. “É uma incógnita mesmo. Eu não sei até que ponto as novelas assim funcionam. Fazer uma história de 200 capítulos no streaming, eu acho que vai ser difícil para cativar o público”.

Marcílio Moraes revela bastidores de seus trabalhos na TV e sua vontade de “emplacar um novo trabalho” (Foto: Reprodução/Facebook Marcilio Moraes)
O TEMPO, PARA ALÉM DO RIBEIRÃO
Com quatro décadas dedicadas à televisão, Marcílio Moraes fala com propriedade sobre os rumos da teledramaturgia brasileira. Para ele, o padrão de qualidade das produções atuais não se compara ao de épocas passadas — e, segundo o autor, isso não se trata de nostalgia, mas de uma análise técnica. “Vejo hoje uma narrativa diluída, tudo é muito ideológico. Antigamente chamávamos de merchandising social, e eu já implicava com isso. A sociedade deve estar dentro da obra, dentro da ficção, naquilo que você cria. Aquilo tem uma relevância social. Fazer uma história qualquer e depois inserir ali uma questão afirmativa eu já acho complicado, muito equivocado. Equivocado do ponto de vista estético e do ponto de vista artístico. E isso piorou com as chamadas políticas afirmativas. Parece que se escreve para afirmar determinadas coisas. Eu pelo menos sempre tive na cabeça que o meu papel era questionar, mais que afirmar. A botar em dúvida. Isso é que é o interessante na arte. Afirmar torna tudo muito óbvio, fraco, sem novidade nenhuma”.
Ao relembrar o contexto de suas novelas, o autor destaca a complexidade de abordar temas sociais de forma realista sem ceder ao maniqueísmo ou à idealização. “‘Vidas Opostas” pegava a situação real da maior parte das classes baixas e os conflitos que podem ser colocados na ficção. Não adianta você tentar criar um mundo ideal e dizer: ‘Não, aqui nesse mundo ficcional aqui todo mundo se dá bem.’ Não cabe. A realidade não é essa, a realidade da vida não é essa”.

Lima Duarte e Regina Duarte em ‘Roque Santeiro”. Marcílio foi um dos colaboradores da trama (Foto: Reprodução/Globo)
IRMÃO, “FOI” PRECISO CORAGEM
Uma das experiências mais emblemáticas de Marcílio Moraes no campo dos remakes foi “Irmãos Coragem”, novela originalmente escrita por Janete Clair (1925-1983) em 1970. Marcílio entrou na trama em seu capítulo 20, conforme combinado com Dias Gomes (1922-1999), mas encontrou um cenário turbulento. Até aquele momento, a produção havia enfrentado conflitos internos, problemas de audiência e uma estratégia de exibição equivocada: estrear em pleno horário de verão, na primeira semana de janeiro de 1995.
“Foi uma experiência interessante fazer aquele remake. O Dias que comandou ali o início. A gente se dava muito bem, e o remake foi pedido a ele pelo Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, um dos diretores da Globo). A direção da novela foi do Luiz Fernando Carvalho. O grande equívoco dele foi achar que podia fazer uma direção densa daquela forma no horário das seis horas, com um texto da Janete – que não tem nada de água com açúcar, apesar de pensarem isso. Luiz Fernando fez uma direção muito pesada, muito lenta, muito escura”.
Era uma escuridão em cena, num pleno horário de verão. Um mega bang bang. A audiência foi lá embaixo e, acredito eu, que deva-se a isso: à densidade da direção. Ele, Luiz, quis fazer um estilo cinematográfico que não deu certo. Quando eu assumi a novela, tinha que resolver aquela revolta dos irmãos protagonistas contra o Pedro Barros, um opressor. Esse clima de guerrilha cabia bem no início dos anos 70, mas era anacrônico em 95 – Marcílio Moraes
Marcílio detalha como redirecionou a trama: “ [Para reorientar a rota], peguei o rumo e centrei mais na trama romântica, que é o que o horário das seis acaba pedindo. O Paulo Ubiratan (1947-1998), que era o diretor de dramaturgia, me chamou lá um dia e pediu para eu aumentar o índice de audiência da novela. Eu disse: ‘Vou tentar, vou fazer o que for possível. Se conseguir, você me dá um aumento.’ Por fim, ganhei o aumento. A novela não foi um sucesso, mas ficou dentro de um padrão aceitável. E, desmentindo o que corre ainda hoje, não é que eu tenha rompido com o Dias [Gomes]. Quem rompeu com ele foi o Luiz Fernando. Quando eu entrei, no capítulo 20, o Luiz saiu. A minha entrada já era prevista, a saída dele que não”.

Marcos Winter foi o jogador de futebol Duda, em “Irmãos Coragem” (1995) [Foto: Jorge Baumann/Globo]
MANDALA: UM ESCÂNDALO ANUNCIADO
Se “Irmãos Coragem” já exigiu – por que não dizer, coragem, “Mandala” (1987) foi um exercício ainda mais intenso de ousadia e resiliência. A trama, inspirada na tragédia grega “Édipo Rei”, trouxe para a televisão brasileira uma das histórias mais polêmicas de sua época: um relacionamento amoroso entre mãe e filho. A proposta gerou atritos entre Marcílio e Dias Gomes, com quem trabalhava em parceria, mas também resultou em uma novela que se tornou um marco da teledramaturgia. “O único momento em que eu e Dias brigamos foi em Mandala (1987), mas isso foi rapidamente superado. Essa novela, aliás, tinha tudo para não ser [exibida]”, lembra.
A ousadia da trama ficou clara desde o início: a censura vetava a abordagem direta do tema, mas Boni assumiu o compromisso de conduzir a história com cuidado. “‘Mandala’ é um grande mistério para mim. Ela chega num quadro muito confuso, com muita interferência. O Boni se comprometeu de que não haveria um incesto. Eu e o Dias fomos a Brasília, conversamos lá com a censura e nos comprometemos a tocar com muito cuidado nesse assunto, e aí eles toparam, liberaram a novela. Mas depois que o filho mata o pai, fazê-lo dormir com a mãe complicou tudo e a novela embatucou um pouco ali. Acabamos saindo pela tangente, que era o Tony Carrado (Nuno Leal Maia), e a novela se segurou no humor. A audiência não foi nada desprezível, mas a novela foi muito atacada. Aquela novela estava fadada a ser um escândalo”. Marcílio ainda relembra um detalhe curioso que reforçou a aura polêmica de Mandala: “Coincidentemente, na trama, o Édipo era filho de Laio (Perry Salles [1939-2009]) e Jocasta (Vera Fischer). Na vida real, Felipe [Camargo] se envolve com Vera, que era casada com o Perry”.

Giulia Gam e Celia Helena na primeira fase de “Mandala” (Foto: Bazilio Calazans/TV Globo)
VIDAS OPOSTAS
Em 2005, quando Marcílio Moraes foi contratado pela Record, a emissora vivia um momento de ousadia estratégica: queria construir um núcleo de dramaturgia próprio, capaz de competir diretamente com a Globo. A aposta começou com “Essas Mulheres”, adaptação de obras de José de Alencar (1829-1877), e alcançou seu ponto de virada com Vidas Opostas (2006), uma novela que se destacou pela abordagem realista e pelo retrato sem filtros do crescimento do crime organizado no Rio de Janeiro. “A Record queria mesmo fazer um confronto com a Globo, disputar a liderança e foi muito aberta a isso. Eu tive muita liberdade lá. Vidas Opostas, a Globo jamais faria”, afirma Marcílio. A trama, exibida às 22h, tinha dois núcleos contrastantes: um ambientado na Zona Sul carioca, entre famílias ricas, e outro em uma favela dominada pelo tráfico. A novela não apenas conquistou audiência, mas também marcou uma mudança no tom das produções da emissora.
Marcílio relembra os bastidores: “O diretor de dramaturgia até me questionou, falando que eles já haviam feito uma trama com esse teor e que não dava publicidade. Argumentei que faria um folhetim clássico, que não seria uma trama exclusiva de gueto. E que haveria lugar para a publicidade. O sucesso da novela influenciou a abertura desse caminho. Tanto que a Globo começou a fazer novelaspassadas em favelas… Quase simultaneamente a “Vidas Opostas”, a Globo fez “Duas Caras”, que era dentro de uma comunidade”.
O autor destaca que o período marcou o auge criativo da emissora na teledramaturgia, mas também um ponto de inflexão: “Faltou ali na Record uma competência para continuar naquele caminho [da liderança]”. Sua saída da Record, após Ribeirão do Tempo (2010), não se deu por falta de espaço, mas por divergências de rumos “Quando eu saí da Record, eu saí porque eu quis. Eles não queriam que eu saísse, não, mas já havia muita influência religiosa, num caminho diferente do que eu queria trilhar”.
A Globo é muito massacrante. Eu me lembro que das novelas que eu fazia lá na Record para cada notícia que saía da minha novela eram 20 sobre as da Globo. É muito avassalador. A Globo domina muito do mercado, assim como os prêmios, inclusive – Marcílio Moraes

Lavínia Vlasak gravou, segundo ela, uma das cenas mais difíceis de sua carreira em “Vidas Opostas”: Uma violência sexual (foto: Reprodução/RecordTV)
ENTRE O SUCESSO E O “MICO”
Em 1990, Marcílio Moraes assinou “Mico Preto” ao lado de Euclydes Marinho e Leonor Bassères (1926-2004). A novela, entretanto, tornou-se um dos capítulos mais conturbados de sua carreira, tanto em audiência quanto em bastidores. “A história era minha. Fiz em Mico Preto o que eu aprendi que jamais devia ter feito, que era dividir a autoria. Aceitei isso por sugestão da própria Globo, da direção de dramaturgia daquela época. Não que temesse que Euclydes ou a Leonor tomassem o meu lugar, mas ficou muito dividida a autoria. A dramaturgia da Globo também forçou que não queria que eu assumisse a autoria total daquilo. A novela ficou muito sem rumo, sem um controle. Cada um foi fazendo o que dava na cabeça, e isso passou para os atores também, esse descompasso que havia na autoria. A novela foi para o buraco. “Mico” foi uma novela tumultuada, e esse tumulto ficou nas minhas costas.”
Marcílio conta que, apesar da experiência desgastante, ela trouxe uma das lições mais importantes de sua trajetória: “Para se fazer novela, há de se ter o domínio da coisa, porque uma coisa é escrever a novela, outra coisa é você administrá-la. Há de se ter uma questão de poder mesmo, de centralizar. Se não for assim, não dá certo. A verdade é essa. Mas ali, até o diretor da novela, Dennis Carvalho, começou a botar coisa da cabeça dele… Deixei esse controle escapar das minhas mãos e aí realmente a coisa degringolou.”

Miguel Falabella, Marcello Picchi e Glória Pires em “Mico Preto” (Foto: Jorge Baumann/CEDOC TV Globo)
Diferentemente de Mico Preto, que naufragou em audiência, “Sonho Meu” (1993-1994) tornou-se um fenômeno. A trama é até hoje a segunda maior audiência do horário das seis na década de 1990, perdendo apenas para “Mulheres de Areia”. Ainda assim, não passou ilesa ao peso das interferências internas da emissora. “Sonho Meu foi prejudicada também por interferência da Globo. Acabou ficando muito água com açúcar, pois não pudemos tratar a questão da bigamia, um dos temas centrais da trama. A direção da Globo disse ter recebido cartas dos espectadores protestando contra aquilo, que Cláudia (Patrícia França) não podia ser bígama ou enganar o homem a quem ela ama. Acabaram interferindo e teve que desfazer aquele conflito, aquela trama, o que prejudicou em termos de densidade da novela. Curiosamente, a trama tem uma temática muito atual, já que a protagonista sofria violência doméstica e era ameaçada de feminicídio. Todas as questões que hoje são discutdas, ainda que a trama tivesse uma embalagem infantojuvenil”. Essa “embalagem infantojuvenil” se manifestava em dois pontos-chave: a presença constante de crianças no enredo e a trilha de abertura cantada por Xuxa, algo que reforçava o apelo familiar, mas suavizava a gravidade dos conflitos que a história queria abordar.
A novela foi uma adaptação ousada de duas obras do dramaturgo Teixeira Filho (1922-1984), A Pequena Órfã e Ídolo de Pano. Uma adaptação, e não um remake, das novelas. “Mário Lúcio Vaz (diretor da Globo) tinha comprado essas novelas dos herdeiros do Teixeira Filho e não sabia o que fazer com aquilo. Me propuseram juntar A Pequena Órfã e Ídolo de Pano. Realmente, refazer qualquer uma das duas, era algo que eu achava muito fora do tempo, era uma novela de outra época. Não que fossem ruins, em absoluto, mas a minha intenção era dar uma densidade. Sonho era uma novela muito diferente das originais”.

Ângelo Paes Leme em sua primeira novela, “Sonho Meu”, de 1993 (Foto: Reprodução)
Marcílio Moraes é um daqueles raros autores cuja obra atravessa gerações, como se suas histórias estivessem gravadas na memória afetiva do país. Ao relembrar sua trajetória, ele não fala apenas de novelas, mas de um Brasil que se transformou diante das câmeras — um país que aprendeu a rir, chorar e se reconhecer em tramas que desafiavam o senso comum. Hoje, afastado dos holofotes, o dramaturgo parece observar o mercado com a mesma lucidez com que construiu seus personagens: consciente de que tudo muda, mas de que a essência da arte permanece.
Seu olhar crítico sobre a televisão atual revela uma inquietação constante: a de que a arte deve provocar mais do que afirmar, questionar mais do que tranquilizar. Com uma carreira marcada por ousadia e experimentação — que ajudou a construir pontes entre o melodrama clássico, o realismo social e narrativas inovadoras —, Marcílio se vê agora em um cenário em que o talento individual, que outrora era celebrado, parece diluído em equipes de roteiristas e em decisões baseadas em algoritmos de audiência. Em cada palavra do autor há a serenidade de quem conhece os bastidores do poder, a dureza das disputas criativas e o peso do tempo; mas também há a convicção de que o ato de escrever continua sendo um gesto de resistência. Marcílio segue à espera de novos capítulos, como um cronista que nunca abandona a pena, certo de que as grandes histórias sempre encontram um caminho para renascer.
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