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“Homens, mulheres e filhos”: com um Adam Sandler surpreendente, longa revela o vazio existencial em meio às mídias digitais

O diretor e roteirista Jason Reitman avança fundo na crítica que mostra o quanto a humanidade andou para trás, mesmo com todas as benesses da tecnologia da informação

Publicado em 09/12/2014 | Por Alexandre Schnabl

Em cartaz no cinemas, “Homens, mulheres e filhos” (Men, Women & Children, de Jason Reitman, Paramount, 2014) não é o primeiro filme a abordar a influência da internet e das mídias sociais nas relações humanas contemporâneas, mas vai fundo na questão quando apresenta não apenas um relacionamento específico, mas vários deles, sintetizados no grupo de pessoas reunidas no ambiente de um colégio em uma cidadezinha norte-americana, por onde circulam alunos, pais e funcionários. A novidade fica por conta do panorama de diferentes tipos de conexão e também na utilização de recursos gráficos que são usados para exemplificar o quanto a sociedade se tornou telêmica, com profusão de telas de computadores e smartphones abertas simultaneamente à exaustão, facilitando o excesso de comunicação, mas prejudicando a qualidade da interação entre os indivíduos, verdadeiros zumbis urbanos incapazes de olhar à sua volta, tal o grau de envolvimento com os seus brinquedinhos eletrônicos.

O próprio diretor Jason Reitman assina o roteiro baseado no livro homônimo de Chad Kultgen, que parte do princípio do quanto a humanidade regrediu na capacidade de se comunicar, mesmo com toda a efervescente tecnologia atual e – o mais surpreendente –,  em paralelo a um ambicioso empreendimento da Nasa que pretende se fazer compreender por possíveis civilizações intergalácticas, através da sondas espaciais. São a Voyager 1 e 2 que, após lançadas em 1977 e tendo cumprido suas tarefas no sistema solar, foram enviadas (respectivamente em 2004 e 2007) além dessas fronteiras, repletas de informações sobre nosso planeta e civilização, selecionadas pelo astrônomo e astrofísico Carl Sagan. Um curioso feito que até pode mudar o mundo, mas também um possível ato de arrogância, já que, em solo firme, cada vez mais os seres humanos aprendem a se comunicar menos.

Ser ou não ser onipotente no mundo virtual: Jennifer Garner vive a genitora que passa do limite na hora de evitar que a filha caia em enrascada digital (Foto: Divulgação)

Ser ou não ser onipotente no mundo virtual: Jennifer Garner vive a genitora que passa do limite na hora de evitar que a filha caia em enrascada digital (Foto: Divulgação)

Os arquétipos modernos estão todos lá: a adolescente anoréxica que quer se sentir gostosa e participa de uma comunidade de garotas que amam o estilo top model vara-pau, trocando dicas online para vomitar o gorduroso jantar caseiro; a mãe neurótico-onipotente que invade completamente a privacidade da filha com medo do tipo de envolvimento em que ela pode se meter através dos sites de pegação, a ponto de rastrear até celular pelo GPS; o casal que, após os filhos crescerem, perdeu intimidade e não tem mais vida sexual, cada um fazendo uso de chats para arrumar parceiros; o garoto abandonado pela mãe que descobre que ela vai se casar de novo através do Facebook e que, diante de tanto sofrimento, se esconde nos role playing games de ação; a ninfeta e o bad boy que se azaram, mas que, estando no mesmo ambiente, só se comunicam por whatsapp ao invés do eficiente olho no olho; o adolescente que é capaz de ter ereção apenas quando estimulado pelos sites pornôs; a teen gostosa que transforma sua vida íntima em espetáculo virtual a ser compartilhado na sua rede de relacionamentos; e até a mãe que estimula a filha viciada em exposição e que quer que esta se torne celebridade a qualquer custo, transformando sua intimidade da menina em Big Brother digital que margeia a pornografia escandinava.

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Fotos (Divulgação)

Nesse caleidoscópio de tipos, acaba saindo na frente o casal formado pelo marido abandonado pela esposa e a mãe solteira da coleguinha do filho, que começam a desenvolver uma relação nos moldes tradicionais, com flerte cara a cara, jantarzinho romântico e desentendimento ao vivo e a cores, sem precisar fazer usos de apetrechos eletrônicos que nada contribuem para melhorar o tête-a-tête.

No bom elenco, sobressaem Dean Morris (o vilão da série televisiva “Under the Dome“, exibida na TNT) e Judy Greer nesses dois papeis, além de Rosemary DeWitt e do jovem Ansel Elgort(“Carrie”, “A culpa é das estrelas”), que vem sendo preparado por Hollywood para alcançar o posto de novo galã, com seu jeito de bon chic, bon genre, olhar introspectivoe lábios carnudos. Provavelmente, ele se sairia bem no cinema europeu e acabaria se tornando ator cult, tipo Louis Garrel.

A culpa é dos diretores de casting: o ator Ansel Elgort faz upgrading de namoradinho de "Carrie, a estranha" para candidato a neo galazinho de Hollywood (Foto: Divulgação)

A culpa é dos diretores de casting: o ator Ansel Elgort faz upgrading de namoradinho de “Carrie, a estranha” para candidato a neo galazinho de Hollywood (Foto: Divulgação)

Mas, entre os atores, um inacreditável Adam Sandler, fora da zona de conforto das comédias bobocas, surpreende no papel do pai de família que não sabe como lidar com a passagem dos anos, a incapacidade de se relacionar com os filhos e a falência do casamento. Prova de que ele pode voar além daquilo que costuma lhe ser oferecido pelos estúdios.

DeWitt e Sandler: quando o casamento vai para o brejo, a solução agora é esquentar suas existenciazinhas com aventuras na internet (Foto: Divulgação)

DeWitt e Sandler como o casal em crise dos tempos modernos: quando o casamento vai para o brejo, a solução é esquentar suas existenciazinhas com aventuras na internet (Foto: Divulgação)

Trailer Oficial (Divulgação)

No final, uma curiosidade: a maneira como o filme está construído visualmente, com sobreposição de telas de celulares, computadores e afins acima da cabeça dos personagens que andam para lá e para cá, dispersos do mundo real, é um ganho que revela o quanto os dias atuais podem ser vazios, mesmo plenos de possibilidades de comunicação, com todos fazendo péssimo uso desta.

Nesta questão formal, essa curiosa maneira de exemplificar aquilo que acontece no cotidiano atual acaba se tornando tão eficiente quanto a famosa (e revolucionária) divisão de tela em filmes como “Confidências à meia-noite” (“Pillow Talk”, de Michael Gordon, com Doris Day e Rock Hudson, Universal, 1959), quando o cinema passou a fracionar a tela em dois para mostrar ambos os pontos de vista de duas pessoas conversando ao telefone. Afinal, em um longa-metragem onde a interação digital é o tema, simplesmente seguir o padrão clássico de narrativa sem inclusão de uma representação pertinente às novas tecnologias da informação seria o mesmo que não penetrar no assunto. E já que a vidinha dos personagens já está suficientemente na superfície…

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