Helga Nemetik fala de padrões, abuso e autoaceitação no cinema como mãe de miss e ao viver Fafá de Belém em musical


Com a estreia do longa ‘A Miss’, amanhã, dia 26, a atriz mergulha na pressão estética e nas feridas herdadas ao interpretar uma mãe de miss que projeta na filha seus próprios sonhos e fracassos. Paralelamente está nos palcos vivendo Fafá de Belém em musical sobre a cantora, e confronta os padrões que também atravessaram sua história pessoal e profissional. Aos 45 anos, Helga fala de abuso, envelhecimento, vaidade e da difícil negociação com o espelho, sem romantizar o processo: “Demorei muito para me aceitar, para aceitar o meu corpo. Na verdade, ainda estou nesse processo da autoaceitação. Meu primeiro papel título no teatro musical é essa mulher fora dos padrões. E é muito significativo que eu faça… fiquei aí 20 anos da minha carreira tentando me encaixar nos padrões que a televisão e a mídia me exigiam”

*Por Brunna Condini

Helga Nemetik vive um daqueles momentos raros em que a carreira parece fazer mais sentido do que nunca. Em cartaz, como protagonista do musical sobre Fafá de Belém (“meu primeiro papel título no teatro é essa mulher fora dos padrões”), a atriz também chega aos cinemas com ‘A Miss’, dramédia que estreia hoje, dia 26, e desmonta, com humor afiado e dor reconhecível, a engrenagem familiar por trás da “mãe de concurso”: “Ela é uma mãe bem carrasca com a filha, que educa na porrada e que carrega essa mágoa, esse amargor de não ter conseguido realizar seu sonho”.

Aos 45 anos e com 23 de carreira, Helga atravessa um tema que conhece de perto: a cobrança estética. E fala sobre as contradições de envelhecer, se aceitar e ainda negociar com o espelho: “Botox já fiz, faço, não nego. Já fiz vários procedimentos, não nego”. No papo, ela relembra a virada pós-pandemia, quando perdeu o contrato com a Globo e decidiu “se produzir”, fazendo seu primeiro monólogo ‘Não conta pra ninguém’, no qual aborda o abuso sexual que sofreu quando criança; e conecta ainda, o filme que lança a conversas urgentes sobre autoaceitação LGBTQIAPN+, e revela onde mora sua coragem ao revisitar a própria trajetória desde que saiu de Madureira, subúrbio do Rio, para tentar a vida de atriz:

Minha coragem mora em muitos lugares. Mas sou suburbana e tive que ‘furar a bolha’ para conseguir entrar nesse meio artístico, o que fiz sozinha, porque não tinha família, não tinha padrinho, não conhecia ninguém – Helga Nemetik

Helga Nemetik: protagonista de musical sobre Fafá de Belém, às vésperas da estreia de ‘A Miss’, a atriz revisita padrões, estigmas e a virada após a pandemia (Foto: Reprodução/Instagram)

Helga Nemetik: protagonista de musical sobre Fafá de Belém, às vésperas da estreia de ‘A Miss’, a atriz revisita padrões, estigmas e a virada após a pandemia (Foto: Reprodução/Instagram)

Helga chega até aqui com uma sensação preciosa, de que o trabalho está, finalmente, conversando com a mulher que ela se tornou. No palco, em ‘Fafá de Belém, o Musical’, a atriz sustenta quase três horas de exigência física e emocional. Na telona, encarna uma personagem que expõe o pior de uma herança: a pressão estética passada como educação, afeto e controle, tudo ao mesmo tempo. Sobre Iêda, sua personagem em ‘A Miss’, Helga não suaviza: “Ela é a típica mãe de miss, que carrega essa mágoa, esse amargor de não ter conseguido realizar esse sonho para ela. E que, no final das contas, nem era um sonho seu, mas da sua mãe. Só que ela passa isso adiante com filha Martha (Maitê Padilha)”.

No filme de Daniel Porto, essa cobrança ganha contornos quase didáticos e até cruéis. “Colesterol vai bem, minha filha? Está comendo manteiga com pão? Desse jeito não vai caber no maiô que eu comprei. Não vai ganhar o concurso. Está gorda?”, diz a personagem para a filha. Helga destaca, que o que assusta é a naturalização desse discurso. “Ela acaba transmitindo para os filhos, educando os filhos da forma que foi educada”, reflete.

Helga Nemetik é Iêda em 'A Miss': uma mãe controladora e até cruel com a pressão sobre os filhos (Foto: Divulgação)

Helga Nemetik é Iêda em ‘A Miss’: uma mãe controladora e até cruel com a pressão sobre os filhos (Foto: Divulgação)

A atriz reconhece que o tema não é ficção distante. A pressão estética atravessa sua própria história, pessoal e profissionalmente. “Quantas vezes já ouvi na minha carreira que eu tinha que perder 10 quilos para fazer determinado personagem?”, relembra. E vai além, conectando a cobrança ao trauma do abuso que sofreu na infância: “Essa coisa de engordar e emagrecer, problemas de compulsão alimentar… hoje sei que isso tudo tinha muito a ver com o abuso que sofri. Essa sabotagem de engordar para não parecer sensual, porque ser sensual desde criança fez com que eu fosse abusada”.

Se sua personagem projeta na filha o sonho que não realizou, Helga parece, hoje, interromper a própria herança de silêncios e padrões, e escolher, com mais consciência, o que quer carregar adiante. “Posso perder 10 quilos e eu nunca vou ser uma sílfide. Já aceitei a minha estrutura. Meu ombro é largo, minha coxa é grossa, meu quadril é largo, e eu não vou caber numa estrutura que a mídia e os padrões querem que eu me encaixe”.

Helga Nemetik no filme 'A Miss', de Daniel Porto (Foto: Divulgação)

Helga Nemetik no filme ‘A Miss’, de Daniel Porto (Foto: Divulgação)

Demorei muito para me aceitar, para aceitar o meu corpo. Na verdade, ainda estou nesse processo da autoaceitação. Não sei se avancei mesmo ou se só me aceitei e pronto Ao mesmo tempo, ainda me sacrificaria a perder ou engordar 10 quilos, por exemplo, para fazer uma personagem, por entender que faz parte da minha profissão – Helga Nemetik

Além da pressão estética, ‘A Miss’ também joga luz sobre uma conversa urgente: autoaceitação e acolhimento dentro da própria família quando o assunto é identidade de gênero e sexualidade. “Acho que o mais importante e bonito desse filme é as pessoas entenderem a relação da aceitação própria, e como uma pessoa LGBTQIA+. E, obviamente, também da relação dos pais com essa aceitação”, afirma. Ela destaca o arco de Alan (Pedro David), também filho de sua personagem, que vive à margem dentro da própria casa até encontrar coragem para se assumir. “Quando ele decide, quando se monta, quando se sente à vontade, é que os olhos dele brilham, que ele se sente pertencendo, é muito lindo de ver. Têm muitos jovens que passam por isso”. Helga conta, que a virada está justamente na transformação da mãe, que primeiro rejeita e depois aprende a acolher: “Ela briga, não aceita, mas depois reflete. E aí pede perdão, aceita e incentiva. É mais lindo ainda. Porque é ela que o leva para o concurso de miss, que o treina, e vai estar lá pra ele”.

"Acho que o mais bonito desse filme é as pessoas entenderem a relação da aceitação própria, e como uma pessoa LGBTQIA+. E, obviamente, também da relação dos pais com essa aceitação” (Foto: Divulgação)

“Acho que o mais bonito desse filme é as pessoas entenderem a relação da aceitação própria, e como uma pessoa LGBTQIA+. E, obviamente, também da relação dos pais com essa aceitação” (Foto: Divulgação)

Em um momento em que o mundo vive retrocessos e discursos de intolerância ganham força, a atriz defende o papel da arte como espaço de construção, e não apenas de denúncia: “O cinema e a arte precisam escancarar isso mais e mais. Mostrar essa realidade de uma forma bonita, de uma forma lúdica, de quem vence nesse lugar, é muito mais significativo”.

Fafá

No musical sobre a vida cantora, em cartaz até 8 de março no Teatro Riachuelo, ela encarna Fafá ao lado de Lucinha Lins, Laura Saab e grande elenco. Para Helga, o encontro com Fafá de Belém tem um peso íntimo e simbólico. A atriz reconhece o que Fafá representa em um país que sempre pediu que mulheres se afinassem (no corpo e no comportamento) para caber na moldura. “Minha primeira protagonista no teatro musical é a Fafá, que era uma mulher completamente fora dos padrões. E nunca se dobrou, né?”. E completa, lembrando de uma recusa histórica da cantora diante das imposições: “‘Ah, você tem que emagrecer 10 quilos’, uma gravadora disse pra ela. ‘Ah, eu tenho? Então eu não vou assinar nada com vocês. Tchau’. Essa é a Fafá. Isso é muito inspirador”.

Helga Nemetik é Fafá de Belém em musical sobre a cantora (Foto: Divulgação)

Helga Nemetik é Fafá de Belém em musical sobre a cantora (Foto: Divulgação)

A experiência ganha ainda mais força porque, por muito tempo, Helga sentiu que precisava negociar com esses mesmos padrões para existir profissionalmente:

Meu primeiro papel título é essa mulher fora dos padrões. E é muito significativo que eu faça… fiquei aí 20 anos da minha carreira tentando me encaixar nos padrões que a televisão e a mídia me exigiam – Helga Nemetik

É daí que nasce também a fisicalidade da fala sobre o tempo, e a lucidez sobre o corpo aos 45. “A coluna chora, o joelho chora”, ela resume, explicando que a academia, hoje, não é só estética: é sobrevivência de ofício. “Tenho que malhar para fortalecer, porque eu preciso continuar dançando nos meus musicais, preciso que meu joelho esteja saudável, preciso fortalecer minha coluna, eu preciso ter fôlego”. Sobre vaidade, diz ainda: “Faço meus procedimentos estéticos, sim, para me sentir bem”.

Helga Nemetik e Fafá de Belém nos ensaios do musical (Foto: Nil Caniné)

Helga Nemetik e Fafá de Belém nos ensaios do musical (Foto: Nil Caniné)

Autoralidade 

Feliz com o momento de vida e profissional, a atriz afirma que apesar dos ótimos convites que tem recebido, deseja continuar investindo em sua voz autoral. Foi na pandemia, quando perdeu o contrato com a Globo e se viu sem chão, que Helga decidiu assumir as rédeas da própria narrativa. “Me vi ali perdida, sem contrato, sem Globo, sem teatro. E foi quando comecei a querer fazer as minhas próprias coisas, comecei a idealizar meu monólogo. Me dar a minha protagonista foi me dando mais autoridade, menos síndrome da impostora”, diz sobre ‘Não Conta Pra Ninguém’, espetáculo em que aborda o abuso que sofreu na infância. Agora, ela busca patrocínio para trazer a montagem ao Rio. “Já estou no segundo ano do monólogo e ainda não consegui trazê-lo para a minha cidade. Estou correndo atrás de patrocínio, colocando em editais, porque eu vou conseguir”. Nos planos, além do lançamento de ‘A Miss’ e da turnê do musical sobre Fafá de Belém, ainda há a estreia de mais um longa em 2026. “As coisas vão acontecendo quando a gente entende que pode se produzir, que pode se colocar no lugar que quer estar”, diz, reafirmando a virada autoral que decidiu não abandonar.

“As coisas vão acontecendo quando a gente entende que pode se produzir, que pode se colocar no lugar que quer estar” (Foto: Danilo Donadeli)

“As coisas vão acontecendo quando a gente entende que pode se produzir, que pode se colocar no lugar que quer estar” (Foto: Danilo Donadeli)