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HBO cancela “Looking” após duas temporadas e quem sai perdendo é o público LGBT e sua representatividade

Série girava em torno de três amigos gays moradores de São Francisco e fugia de temas-clichês. Um filme especial ainda será produzido pela emissora

Publicado em 25/03/2015 | Por João Ker

Após duas temporadas, a HBO anunciou na manhã desta terça-feira (25/3) que “Looking” está oficialmente cancelada. O final da trajetória de Patrick (Jonathan Groff), Agustín (Frankie J. Alvarez) e Dom (Murray Bartlett) poderá ser visto em um “especial”, que provavelmente será um filme exibido na própria emissora. Apesar de decepcionante para os fãs da série, a notícia dificilmente choca após a relativamente baixa audiência do programa e a maneira como a segunda temporada terminou.

“Após dois anos acompanhado Patrick e seu grupo de amigos na busca pelo amor e relacionamentos em São Francisco, a HBO vai apresentar o capítulo final dessa jornada em um especial. Estamos ansiosos para compartilhar essa aventura com os fãs leais da série.”  

Como você leu aqui, “Looking” começou 2015 com melhoras positivas no roteiro (apesar de algumas cenas nonsense e o reforço de clichês) e foi melhorando o pique ao longo de toda a temporada, se a profundando mais no passado e na complexidade emocional de todos os personagens, inclusive em suas relações. Um dos melhores acertos da série reflete o maior erro de sua “parceira” de horário e emissora, “Girls”: ao invés de focar em apenas um protagonista – como Lena Dunham tem feito há mais de duas temporadas com Hannah -, o trio principal e, consequentemente, seus melhores amigos (como Doris, vivida pela ótima Lauren Weedman) e namorados (o Kevin de Russel Tovey e o Eddie de Daniel Franzese) também tiveram espaço para brilhar.

Agustín, Patrick e Dom, o trio principal de "Looking" (Foto: Divulgação)

Agustín, Patrick e Dom, o trio principal de “Looking” (Foto: Divulgação)

O motivo para o cancelamento não é certo, mas provavelmente a baixa audiência desde o início do programa deve ter sido um agravante para a decisão da emissora. Claro, a recente declaração de Russel Tovey não deve ter ajudado (leia mais sobre isso aqui), mas dificilmente seria motivo suficiente para tanto. No final das contas, quem acaba perdendo é o público LGBT que, já carente de representação em papeis de destaque na TV, perde um de seus melhores e mais fieis retratos desde a extinta “Queer as Folk”, que se pecava pelo excesso de sexo e promiscuidade, acertava nos embates psicológicos que a permeavam.

"Queer As Folk" e o pioneirismo da representatividade gay na TV (Foto: Divulgação)

“Queer As Folk” e o pioneirismo da representatividade gay na TV (Foto: Divulgação)

Claro, “Looking” não é um exemplo perfeito ou um manual a ser seguido de “como abordar a temática LGBT na TV”, já que muitas das nuances desse universo não apareceram no programa. Esse papel, falando realisticamente, dificilmente conseguirá ser desempenhado por qualquer série, ainda mais uma com apenas duas temporadas. Sempre faltará uma ou outra classe na representação e, vale ressaltar, a série estrelada por Jonathan Groff nunca teve a pretensão de ser “um retrato fiel” de como é ser um gay, mas sim uma amostra de como é ser gay, branco, “bem de vida” e morador de São Francisco. E não há problema nenhuma nisso, uma vez que dramas de relacionamento, preconceito e milhares de outros temas LGBT não vêem cor, classe social ou endereço.

Não, “Looking” não é o único e último seriado gay no ar atualmente. Além de séries como “Transparent” (do serviço de streaming da Amazon) e a clássica “RuPaul’s Drag Race” ainda continuarem firmes e fortes, o canal britânico E4 – que já fez escola de roteiro sobre o tema com a saudosa “Skins” há alguns anos – ainda mantém na grade “Banana”, um spin-off de “Cucumber”, outra que atendia o público LGBT. Mas, infelizmente, a grande mídia ainda é influenciada diretamente pelo que passa nos Estados Unidos e, ali, com o fim de “Looking”, os gays continuam a aparecer como coadjuvantes, onde os temas giram sempre em torno da mesma velha e cansada tríade que limita a personalidade e complexidade gay: a promiscuidade, a homofobia e o HIV.

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