Haonê Thinar, na vida real PcD, é sucesso em ‘Dona de Mim’ e contribui pelo combate ao capacitismo no audiovisual


A atriz dá vida à Pam na novela das 19h da Globo. A personagem representa uma virada simbólica na representatividade do audiovisual brasileiro. Mulher preta, bissexual e pessoa com deficiência (PcD) depois de amputar, aos 9 anos, a perna direita com o diagnóstico de um osteossarcoma, tumor ósseo maligno, ela traz para a tela debates relevantes sobre a inclusão e a representatividade.”Estar aqui é uma abertura de caminhos para quem sempre achou que era impossível”

Haonê Thinar, na vida real PcD, é sucesso em 'Dona de Mim' e contribui pelo combate ao capacitismo no audiovisual

*por Luísa Giraldo

 Haonê Thinar vive de coração aberto a personagem Pam, confidente da protagonista de “Dona de Mim”, Leona (Clara Moneke) e de Kamilla (Giovanna Lancellotti), com quem trabalha na fábrica Boaz. Ao 32 anos, a atriz carioca, mãe de dois filhos, é sucesso e conquistou o público com sua autenticidade em expor a verdadeira essência como pessoa com deficiência (PcD), mulher preta e bissexual. A presença da artista na atual novela das 19h é um marco simbólico e político, já que dá visibilidade a diversas causas sociais: o combate ao capacitismo, a valorização das vidas negras, a luta contra a LGBTfobia e a defesa de um feminismo inclusivo e plural. Aos 9 anos, ela precisou amputar a perna direita depois do diagnostico de um câncer maligno no fêmur. Trata-se de osteossarcoma, que atinge os ossos. Fato que sempre encarou com coragem.

O meu trabalho em ‘Dona de Mim’ traz a normalização do corpo com deficiência. Sempre tive muitos problemas com crianças. Sempre me olhavam com estranheza, pensando: ‘nossa, ela não tem uma perna’. Agora, com a novela, as crianças estão me adorando, querem me abraçar e estar perto de mim. É a normalização do corpo com deficiência – Haonê Thinar 

Haonê se encontrou nas Artes Cênicas aos 16 anos, quando ingressou na Oficina dos Menestréis, em São Paulo. Emocionalmente envolvida com o ofício, ela considera ter sempre feito papéis relevantes: “Fiz alguns monólogos com histórias minhas e falas de acesso, que também falavam sobre capacitismo, um papel de destaque. Por que digo isso? Só da gente conseguir essa oportunidade e ter visibilidade já é estar em um papel de destaque. É muito difícil conseguir. A gente está em um destaque que nunca imaginou chegar”, analisa ela, em relação à visibilidade de PCDs no audiovisual.

Também dançarina, a atriz observa que “ser uma pessoa preta e PcD no audiovisual já é muito diferente, algo fora do comum. Significa a abertura de caminhos”. Ciente da importância de uma representatividade justa e coerente, ela descreve estar nas telas atualmente “não só por mim, mas por muitos que ainda virão. É uma abertura de caminhos para quem sonha com a atuação e sempre achou que era impossível”.

Nunca achei que era impossível. Sempre acreditei que eu podia chegar, mas sabia que o caminho seria difícil e que muitas portas se fechariam. Realmente insisti no que queria e consegui. Estou trazendo representatividade para muita gente. E creio que vai trazer (e já traz) muita força para quem também tem o sonho e o objetivo de chegar onde estou abrindo caminhos e conquistando espaços – Haonê Thinar

Com Pam em “Dona de Mim”, Haonê Thinar dá representatividade a pessoas pretas e com deficiência (PCD) na TV aberta (Reprodução/Instagram)

Com Pam em “Dona de Mim”, Haonê Thinar dá representatividade a pessoas pretas e com deficiência (PCD) na TV aberta (Reprodução/Instagram)

A atriz entende que “o espaço de representatividade ainda não está totalmente conquistado. Estamos devagar, mas chegando”. Por isso, considera o trabalho em “Dona de Mim” tão relevante, sobretudo para pessoas com deficiência e pretas”.

“A minha contribuição para a novela vem da minha vivência. O pessoal da TV Globo já tem um letramento sobre capacitismo, sobre o tratamento de PcDs no set, nas gravações e, inclusive, nos roteiros. Estou gravando a novela há quase quatro meses e nunca tive problema com falas capacitistas, nem nada disso no roteiro”, afirma, acrescentando: “As minhas observações são sempre muito aceitas pelos diretores e pela equipe”. 

Haonê Thinar, Pam em “Dona de Mim”, teve perna amputada aos 8 anos para superar um câncer ósseo (Reprodução/Instagram)

Haonê Thinar, Pam em “Dona de Mim”, teve perna amputada aos 9 anos para superar um câncer ósseo (Reprodução/Instagram)

A carioca detalha alguns apontamentos que fez ao longo do processo de produção do folhetim. “Geralmente, ajudo, por exemplo, em uma cena que a muleta está apoiada, quando digo que ‘na vida, a colocaria no chão. Ela estaria perto de mim porque não tenho como levantar e ir longe para pegá-la’. A vivência deve ser mostrada como a gente realmente faz, como a gente realmente vive. Tenho ajudado muito no dia a dia de gravação, quando observo, por exemplo, que ‘não andaria com um copo na mão, porque não tenho como me locomover’”.

Animada com a dinâmica acolhedora dos bastidores, Haonê descreve a relação com Giovanna Lancellotti. “Durante as gravações, Giovanna, minha parceira de cena, sempre pega um copo, me ajuda porque ela faz isso na vida também. Já está se habituando comigo”, diz .

A gente grava cenas como realmente vivo. Também mostra a realidade para a galera e passa muita verdade. É tudo real, bem conversado e muito aceito. Está sendo ótimo para a vivência da Pam mostrar essa realidade – Haonê Thinar

Necessidade da inclusão

Haonê Thinar é contundente em suas opiniões sobre a representatividade na contemporaneidade e a necessidade de vencer estereótipos. Lamenta que o Brasil ainda enfrenta desafios em relação à adaptabilidade dos ambientes às pessoas com deficiência.

Precisamos da inclusão e não a temos da forma certa. Não é apenas a onda conservadora que atrapalha ou impede os avanços, acho que é a população como um todo. Ninguém está preparado para nos receber em todo ou qualquer ambiente. Para a sociedade, as pessoas com deficiência não vão sair ou engravidar. É como se uma PCD não vivesse, somente ficasse fechada dentro de casa – Haonê Thinar

Ao site, ela desabafa sobre uma experiência que revela o capacitismo estrutural e com ligação ao nascimento de sua filha, Lavínia, hoje com quatro meses. “No hospital, quando tive bebê, os médicos e as enfermeiras não estavam preparados. Ninguém estava preparado para o parto de uma pessoa com deficiência”, lamenta. Ela também é mãe de Felipe, de 6 anos fruto do casamento com o grafiteiro Bizzar.

A atriz dá vida à Pam, uma personagem alegre, batalhadora e conselheira, parte de um trio com Leona e Kami, com quem trabalha vendendo lingeries. Além de ser mãe solo, ela vive os desdobramentos de um envolvimento mal resolvido com o namorado da adolescência, Danilo (Felipe Simas), que nunca a assumiu realmente, e tem uma história de vida marcada pela amputação de uma das pernas devido a um tumor no fêmur.

A inclusão deve ser feita de maneira certa e de boa vontade. Não pode ser algo que constrange a gente. A população, como um todo, ainda não nos vê. Ainda nos coloca nesse lugar de invisibilidade  – Haonê Thinar.

A atriz Haonê Thinar encara a condição de saúde, um câncer ósseo que se desenvolveu durante a infância em sua perna direita, com muita coragem. Orgulhosa, corajosa e inspiradora, a artista abraça as vitórias desse desafio, que a transformou na mulher que é hoje.

“Amputei a perna com nove anos. Descobri que tinha um câncer, um tumor ósseo, um osteossarcoma diagnosticado quando eu tinha oito anos. Minha mãe sempre conversou muito comigo. Sabia tudo que estava acontecendo no meu tratamento, que fazia quimioterapia e que o meu cabelo cairia”. 

O osteossarcoma, também conhecido como sarcoma osteogênico, é um câncer ósseo primário, comum principalmente em crianças e adolescentes, como foi o caso de Haonê. A doença afeta os ossos longos das pernas, como o fêmur e a tíbia, perto do joelho.

Era muito lúcida de tudo que estava acontecendo. Eu era criança. brincava, me fantasiava de bailarina para a quimioterapia e passava glitter na careca. Sabia que estava doente, mas tentava levar da melhor forma, mesmo sendo muito nova – Haonê Thinar