*por Vítor Antunes
Ele veio de Curitiba, mas enxergava no Rio de Janeiro uma espécie de Havaí. Talvez por ter nascido na cinzenta e chuvosa capital paranaense. E Guilherme Weber se adaptou tão bem às novelas no Rio, especialmente as solares tramas das sete. Uma delas é a atual “Volta por Cima”, na qual interpreta um contraventor. O ator, no entanto, reflete sobre o quanto o brasileiro é condescendente com a contradição quando ela lhe convém: “No Brasil a gente vive muito nesse fio da navalha. O contraventor do jogo do bicho é, ao mesmo tempo, patrono de uma escola de samba. Fechamos um pouco os olhos para esse casamento complexo. A gente vai assistir as escolas de samba, muitas financiadas pelo dinheiro da contravenção — não só, mas com a contravenção toda nesse entorno. Então esse limite do que é justo, do que não é justo, aonde a gente se coloca para observar a justiça, em que cadeira a gente senta e de que maneira a gente cria os filtros do nosso próprio interesse. É uma discussão bem complexa. E a ficção vai cumprindo, aos poucos, o papel de levantar essas bandeiras e questões”.
Weber também está no elenco de um filme sobre o cirurgião plástico Farah Jorge Farah (1949-2017), o “Doutor Monstro“. A obra retrata a história real do médico que assassinou sua amante em seu consultório, esquartejou o corpo e, 14 anos depois, no dia em que seria preso, cometeu suicídio vestindo trajes femininos, ao som de música clássica. Trata-se de um longa baseado em um crime, enquanto a novela “Volta por Cima”, embora ficcional, também aborda o universo da contravenção. Logo depois da novela, ele tem como projeto um espetáculo de teatro, um monólogo, que é “O corpo mais bonito já visto nessa cidade“, texto de José Maria Miró, que vai ser dirigido pelo Victor Garcia Peralta. Também vai montar uma peça de Neil Simon, através de ‘Plaza Suite’, uma de suas obras. Também estará, em 2027, em ‘Chanel’, com a Christiane Torloni, abordando todas as complexidades da lenda da moda.
O monólogo “O corpo mais bonito já visto nessa cidade” conta a história de um menino de 17 anos, que teria esse corpo que nomeia o espetáculo, e que por conta de sua própria libido acaba por ser punido pela moral vigente. “Eu estou bem envolvido nessa coisa do desejo, do crime. É engraçado, porque a novela passa por esse lugar de alguma maneira amenizada por ser uma novela das sete, mas passa por esse homem que deseja o poder, que deseja uma mulher, que vive uma relação quase que freudiana com a mãe. O monólogo também vai para este lugar da libido castigada, do corpo estranho que é mutilado.”
Isso traz ao debate a questão de que a Justiça é muito passível de ser manipulada, porque a verdade se baseia em poucas provas. O que não se prova se apoia em narrativa e quem faz a melhor, vence. isso num momento em que a pós-verdade se estabelece, torna uma discussão interessante. O que basta é que a narrativa pare em pé – Guilherme Weber

Guilherme Weber é um bicheiro em “Volta por Cima” (Foto: Sérgio Baia)
Embora seja um ator fortemente associado ao teatro denso — muitas vezes considerado intelectualizado —, Guilherme gosta de transitar entre linguagens, especialmente a popular, como a que a novela proporciona. Isso também se deve ao fato de ele próprio ser um grande consumidor de folhetins. “Eu sempre fui muito noveleiro. Quando eu era criança, a novela era uma das nossas principais formas de entretenimento. A gente assistia televisão aberta numa época em que não existia Netflix, nem TV a cabo. Então era novela, desenho, shows… Acho que as novelas que assisti na infância, especialmente as minhas favoritas, ajudaram a compor o meu imaginário. Elas também são, de certa forma, responsáveis pelo meu amor pelo Rio de Janeiro.”
CORAÇÃO, JUGULAR E ANATOMIAS AFINS
Quando Guilherme Weber surgiu para o grande público brasileiro, foi por meio da novela “Da Cor do Pecado”, que neste ano completa 21 anos. A trama revelou seu nome nacionalmente e tornou conhecido o jargão do personagem Tony, que chamava a amada Bárbara (Giovanna Antonelli) de “coração”. “Há quem me chame de Tony ou de ‘coração’ por causa da novela. Tenho o maior orgulho por, de alguma maneira, fazer parte do imaginário das novelas, especialmente das novelas das sete, que me formaram. E agora volto a elas pelas mãos da Claudia Souto, que é ousada. Também está escolhendo temas que não se ousava colocar no horário. A própria novela tem se discutido, feito uma autoanálise e se redescobrindo”.
Weber acredita no potencial do gênero e defende que ele deve ser tratado com a valorização que merece. “Eu acho que a novela só terá futuro se os criadores e os executivos por trás dela entenderem que novela é um gênero em si, que não precisa se adaptar aos outros gêneros. Eu acho muito ingênuo quando eu vejo, às vezes, os próprios colegas falando: ‘As novelas deviam ser mais curtas’. Não, novela é longa. Ela é longa na sua origem. Ela é longa porque o espectador se identifica com os personagens de uma maneira longa, profunda. Ela precisa de tempo para essa identificação. Senão, ela é uma série, ou outra coisa. A novela é um gênero. E por isso eu acho que a Cláudia Souto [autora de Volta por Cima] é uma das grandes escritoras de novela hoje. Porque ela é uma apaixonada pelo gênero”.

Guilherme Weber: “Não acho que as novelas deviam ser mais curtas” (Foto: Sérgio Baía)
Com olhar atento às transformações do tempo, Guilherme reflete sobre os desafios e mudanças do formato televisivo no contexto contemporâneo: “A gente tem visto, cada vez mais, até nas escolhas estéticas mesmo, das novelas, que acabam indo para a série. E nem todo mundo se reconhece. O público se queixa nas redes sociais, especialmente, de que não consegue se identificar, não consegue se reconhecer. O público hoje é dono da sua vontade, imperador do seu desejo, mas ele não deve ser o rei sobre a escolha dos artistas. Isso também eu acho um outro tiro no pé. ‘Ah, nós temos que fazer isso porque a dona de casa’… A dona de casa não sabe o que ela quer ver. A dona de casa quer ser surpreendida, ela quer sentir emoções. Ela quer detestar os personagens, ela quer falar mal. Isso tudo faz parte da familiaridade, da humanidade que uma novela oferece”.
Logo após o fim de “Volta Por Cima“, Guilherme se dedica ao teatro. Ele estreia, no dia 17 de agosto, o monólogo O Corpo Mais Bonito Já Visto Nessa Cidade, do autor catalão Josep Maria Miró, com direção do argentino Victor Garcia Peralta, no Teatro SESI Firjan, no Centro do Rio. A montagem narra a história de um jovem de 17 anos que, por conta de sua própria libido, acaba punido por uma moral vigente opressiva. Guilherme explica o que o atraiu no texto:
“Uma das coisas que me interessou nesse texto é justamente essa associação entre a realidade daquela época e essa infeliz alegoria que podemos fazer do Brasil de hoje, que é a do lugar que mais mata a comunidade gay e trans do mundo. Extinguir o corpo diferente, matar a libido e o desejo, é como enquadrar tudo numa moral calvinista, religiosa e do trabalho, como se tudo que tangenciasse ou se aprofundasse no prazer, na festa, na beleza — e até na inutilidade, como diria o Paulo Leminski (1944-1989) — tivesse que ser morto, assassinado, castigado. Essa peça é a infeliz alegoria de um lugar gerido por uma moral conservadora”.
Nos últimos tempos, os crimes reais vêm ganhando protagonismo nas telas, com adaptações em filmes, séries e documentários. Guilherme celebra o movimento, mas faz ponderações importantes sobre a forma como esses casos têm sido retratados. “Tem havido um movimento curioso e recente, que reacende discussões sobre esses grandes crimes — em boa parte deles envolvendo mulheres vitimadas. Especialmente quando se observam os últimos títulos lançados, como o da Ângela Diniz (1944–1976) e o do caso Daniella Perez (1970–1992). Eu acho que os podcasts foram grandes responsáveis por trazer essa onda do true crime. De alguma maneira, ele reinaugurou essa espécie de percepção oral que a gente perdeu com o rádio. Eu lembro de escutar “Praia dos Ossos” sentado assim na minha cozinha depois de almoçar, e aquele universo todo me invadindo. Acho que o true crime veio, dessa maneira, a mim, de uma forma muito particular. Ele mexe com sentimentos muito primitivos do ser humano, como a violência, a injustiça, o crime passional, o quanto a gente que está escutando se coloca como capaz de cometer uma violência daquelas ou não, de que forma a gente se defenderia. Então, acho que mexe em lugares muito selvagens”.

Guilherme Weber: “Uma das coisas que me interessou nesse texto é justamente essa associação entre a realidade daquela época e essa infeliz alegoria que podemos fazer do Brasil de hoje” (Foto: Divulgação/Globo)
Sobre o filme que tem Taís Araujo como protagonista, Weber interpreta o advogado de defesa de um assassino, o ator reflete sobre os limites e os dilemas da Justiça: “O advogado de defesa, personagem que eu faço, estabelece uma forma de inocentar o culpado, cria um estudo sobre aJjustiça. O conceito de justiça em termos legais, não em termos morais. E esse julgamento também se tornou uma grande investigação sobre o feminismo e o feminicídio. Essa mulher é assassinada e esquartejada. Meu personagem é um advogado muito polêmico, que acaba por alegar que, se não houvesse a mutilação, teria sido um crime banal — e não um hediondo. Eu nunca tinha entendido essa encenação do tribunal como construções de narrativas, a partir de provas encenadas. E o que importa, às vezes, não é só a prova, a coisa que pode ser provada, mas sim a coisa que não pode ser provada. Que julga apressadamente muitos inocentes. Compreender um pouco os meios da justiça foi muito interessante para mim, como cidadão”.
Essas série nos fazem pensar também sobre a possibilidade de extensão do perdão, no quanto a gente é capaz de perdoar uma pessoa que cumpriu a sua pena, se essa pena foi suficiente ou não. É possível aceitar um criminoso dessa envergadura cursando direito na USP? É possível aceitar uma das assassinas da Daniella Perez como uma juíza, no Rio de Janeiro. Qual é a extensão moral da do cumprir uma pena e qual é a extensão moral do nosso perdão e do nosso medo? Por vezes parece que esses grandes crimes ficaram no passado, num Jornal Nacional qualquer – Guilherme Weber”

Guilherme Weber: “Eu acho que as pessoas escolhem também de que maneira elas querem conviver com a rede social” (Foto: Divulgação/Globo)
Ao refletir sobre a presença das redes sociais na vida contemporânea, especialmente entre os artistas, Weber adota um olhar analítico: “Eu acredito ter uma relação bem sadia com as redes sociais. Eu acho que as pessoas escolhem, também, de que maneira elas querem conviver com a rede social. Por mais que sejamos assaltados, assombrados e estuprados pelo algoritmo que está sempre nos perseguindo em todos os lados, eu acho que eu consegui criar uma convivência boa, porque eu tenho uma relação próxima com os meus amigos que moram fora e que são muitos. E faço da minha rede social um uso para conversa sobre literatura, por exemplo, e um pouco sobre as imagens das minhas viagens”.
Refletindo sobre a sociedade moderna brasileira e latino-americana, Weber evoca uma fala de Gabriel García Márquez (1927-2014) para explicar o modo como enxerga a realidade do país. “Na América Latina, o surrealismo é uma realidade. Porque tudo parece tão além das possibilidades concretas e civilizadas do continente, especialmente no Brasil, que é o coração do continente, pelo tamanho. O surrealismo é a chave possível para olhar o país, para compreendê-lo. E talvez daqui a pouco a gente já não esteja mais no surrealismo e estejamos indo para o dadaísmo. Tal é o nível de loucura. Um nível de loucura bom — fascinante, tropicalista, louco, demolidor — e um nível de loucura ruim, absolutamente manipulado, com as pessoas totalmente reféns da pós-verdade, contando a história a partir dos seus próprios pensamentos e julgamentos. Então é uma coisa insana. Entre lobisomens e prefeitos corruptos e beatas pulsando em desejo”.

Guilherme Weber: “”O único realismo possível na América Latina é o surrealismo” (Foto: Divulgação/Globo)
E assim segue Guilherme Weber — entre cortes de navalha, batidas de tambor, tribunais encenados e corpos punidos por desejarem. Seu ofício é o da pergunta: sobre o perdão, sobre a justiça, sobre a verdade e sua performance. No calor do Rio de Janeiro que o acolheu como um Havaí possível, ele segue traduzindo o país em cena, com a coragem dos que não temem o excesso, nem o abismo. Seu caminho é feito de desejo e densidade, de popular e sofisticado, de novela e tragédia grega — porque, afinal, como ele próprio encarna, a única forma de falar do Brasil é pelo surreal. E entre a jugular e o coração, é da anatomia do sensível que se faz seu teatro.
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