*por Rodrigo Otavio
Uma trama cheia de arestas. Um remake que não quis ser remake. O “Vale Tudo” de 2025, aposta das 21h da Globo, nasceu sob desconfiança – e ainda navega sob pesadas críticas. Mas a novela, vai além do ruído inicial – ainda que a trama continue ruidosa. De imediato, dois nomes emergem como grandes motores do folhetim: Odete Roitman, agora vivida por Débora Bloch, e Leonardo Roitman, interpretado por Guilherme Magon. A primeira, naturalmente, dispensa apresentações. Odete continua sendo um furacão moral, com sua crueldade elegante e frases que se tornaram munição no imaginário popular. Bloch, no entanto, não se limitou a repetir Beatriz Segall (1926-2018). Construiu uma Odete própria, mais corporificada, mais irônica, e igualmente perigosa. Há momentos em que sua vilania transborda prazer e malícia, compondo uma mulher que não apenas manipula, mas se diverte com isso.
Mas é justamente no contraponto com essa figura avassaladora que surge o grande trunfo inesperado: Guilherme Magon. Seu personagem, Leonardo, jovem adulto que convive com as sequelas neurológicas de um acidente de carro, e que o impossibilita de falar, poderia facilmente ter sido relegado a um papel ornamental, um coadjuvante quase invisível. Mas Magon, com experiência no teatro musical e passagens discretas pela TV, transformou o silêncio em potência dramática. O que poderia soar como limitação virou linguagem. Cada gesto, cada olhar, cada hesitação do corpo é uma frase não dita, mas perfeitamente compreendida. Ele constrói a presença de Leonardo com rigor de ator de ofício — aquele que sabe que a fala é apenas um dos instrumentos da dramaturgia.

Odete (Debora Bloch) e Leonardo (Guilherme Magon) destaques de “Vale Tudo” (Foto: reprodução/Globo)
A cena em que Leonardo encara a mãe após mais um dos tantos absurdos proferidos por Odete já entrou para a lista dos grandes momentos da televisão em 2025. Foi um duelo cênico: de um lado, Bloch, reinventando uma das maiores vilãs da teledramaturgia; do outro, Magon, respondendo apenas com os olhos, sem precisar articular uma palavra. O impacto foi imediato. Eis ali um novo rosto para se acompanhar com atenção.

Odete (Debora Bloch) e Leonardo (Guilherme Magon) protagonizaram o destaque da semana (Foto: Divulgação/Globo)
Não foram poucos os que torceram o nariz para a ideia de revisitar a obra-prima de Gilberto Braga (1945-2023) , Aguinaldo Silva e Leonor Bassères (1926-2004). Afinal, como atualizar uma novela que se tornou símbolo de uma era, um retrato quase insuperável da corrupção, da malandragem e da moralidade brasileira?
A autora Manuela Dias não recuou diante do peso histórico. Em vez de copiar, ela reescreveu. Optou por imprimir sua marca, num ritmo fragmentado e novos olhares para personagens icônicos – para bem ou para mal. O resultado não é exatamente um remake – muito menos uma cópia reverente. É um reboot, que se permite ousar e confrontar memórias afetivas do público. Isso, por si só, já basta para irritar setores mais conservadores da audiência, sempre receosos de ver suas referências reimaginadas.
RELEMBRE OUTROS ATORES QUE FIZERAM PERSONAGENS SEM FALA
A televisão brasileira tem tradição em personagens sem fala, que testam os limites do intérprete. Chico Treva, vivido por Edney Giovenazzi em “Felicidade” (1991), é exemplo ainda lembrado pela sofisticação. Já em “A Viagem” (1994), o ator Breno Moroni deu corpo a um personagem silencioso que marcou a trama espiritualista de Ivani Ribeiro (1922-1995). Esses papéis costumam ser reservados a veteranos, pelo nível de complexidade. Não é à toa que, anos depois, Tarcísio Meira pediu para deixar “A Lei do Amor” ao se ver diante de um personagem que exigia exatamente esse tipo de entrega silenciosa. Eliane Costa também ficou famosa em razão do bordão “Cala a boca, Luzineide”, em “Torre de Babel“, e só teve uma fala no final da novela. Curiosamente, a mais importante de toda a obra, a que revelava quem explodiu o shopping, um dos principais cenários da trama. Local, inclusive, onde Lucineide morreria, no capítulo 45.

Edney Giovennazzi em “Felicidade” (Foto: Bazilio Calazans/Globo)
Magon, portanto, se coloca numa linhagem rara. Com um detalhe: ele faz isso logo em sua primeira grande chance, dentro de um elenco povoado por medalhões. Há coragem e maturidade nessa construção. Sua interpretação mostra que não basta decorar falas; é preciso habitar o personagem, estabelecê-lo. Em um ano em que a novela volta a ocupar centralidade no debate cultural, Leonardo Roitman se destaca como símbolo dessa nova fase. Ele mostra que a televisão ainda é capaz de revelar talentos, mesmo em meio ao excesso de telas e plataformas.

Breno Moroni em “A Viagem” (Foto: Reprodução/Globo)
Carlos Lombardi, roteirista experiente, costumava dizer que “novela tem 100 personagens correndo atrás da felicidade e a gente torcendo”. Leonardo não corre. Ele caminha em silêncio, observa, sente. E é justamente esse silêncio que nos prende.
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