*por Rodrigo Otávio
“O Rei do Gado”, “A Viagem”, “Mulheres de Areia”… Todas essas novelas são consensualmente reconhecidas como grandes sucessos da teledramaturgia da Globo. Coincidentemente — ou não —, tratam-se de obras exibidas nos anos 1990, frequentemente classificadas como icônicas por terem alcançado, simultaneamente, prestígio crítico, enorme popularidade e um lugar privilegiado na memória afetiva do público brasileiro que acompanhava televisão, ainda que de forma ocasional.
O problema não está no valor intrínseco dessas produções, mas no uso reiterado e pouco criterioso que a Globo tem feito delas nos últimos anos. Apostando de maneira quase exclusiva no apelo nostálgico de um telespectador que envelheceu junto com essas tramas, a emissora passou a adotar soluções cada vez mais previsíveis – e, em muitos casos, preguiçosas – na seleção das obras destinadas à reexibição.
A nostalgia, quando explorada sem estratégia editorial, deixa de ser ferramenta e passa a ser muleta. Na última semana, o Globoplay Novelas (ex-Viva) promoveu uma “eleição” para definir qual novela seria reapresentada em sua programação. A iniciativa, que tenta conferir alguma aura de participação do público e, ao mesmo tempo, devolver relevância a um canal que vem perdendo audiência desde que abandonou a marca Viva, terminou de forma sintomática. Em uma disputa apertada, “O Rei do Gado” foi a escolhida, superando “Renascer”. Ambas, vale lembrar, já haviam sido exibidas anteriormente pelo canal.
Hoje, novelas como “Chocolate com Pimenta”, “O Cravo e a Rosa”, “Por Amor” e, novamente, “O Rei do Gado” cumprem praticamente o mesmo papel que “Chaves” desempenha no SBT: uma presença contínua, quase ininterrupta, que transforma grandes sucessos em produtos de desgaste. Assim como a série do menino do barril é reprisada desde 1984, já se tornou previsível imaginar que as próximas apostas do Globoplay Novelas – e até da Globo na TV aberta – recairão sobre títulos já explorados à exaustão.

Diná era a protagonista de “A Viagem” (Foto: Acervo/Globo)
A decisão chama atenção não apenas pela repetição, mas pelo contexto. “O Rei do Gado” já foi reprisada duas vezes no “Vale a Pena Ver de Novo”, enquanto “Renascer”, além de ter passado na faixa de reprises da TV aberta, foi alvo de um remake recente. Ou seja, trata-se de duas obras amplamente exploradas, ainda muito frescas na memória coletiva, o que esvazia qualquer discurso de redescoberta ou resgate histórico.
É evidente que há espaço – e até mérito – em manter na grade novelas antigas que ocupam um lugar afetivo no imaginário popular. O problema é quando esse espaço se torna quase exclusivo e mal administrado. Há, no catálogo da Globo, inúmeras tramas igualmente marcantes, especialmente das décadas de 1980, 1990 e 2000, que poderiam gerar impacto e renovação de interesse justamente por não terem sido tão exaustivamente reprisadas.
Não seria surpresa alguma uma nova exibição de “A Gata Comeu” ou “Senhora do Destino”. A lógica dos “medalhões” parece segura, mas nem sempre se confirma. O fracasso da reprise de “Rainha da Sucata” é um exemplo recente de que o peso simbólico de um título não garante, por si só, sucesso de audiência ou engajamento.

Jayme Periard e Mayara Magri em “A Gata Comeu”. Trama é um clássico da teledramaturgia brasileira (Foto: Nelson di Rago/TV Globo)
Todo grande autor possui ao menos uma obra de sucesso que ainda poderia ser reapresentada com frescor. “Páginas da Vida”, de Manoel Carlos, foi exibida no Viva em 2021 e jamais voltou à TV aberta. “Salve Jorge”, de Glória Perez, apesar de controversa, só agora está sendo reprisada no Globoplay Novelas e nunca teve nova chance na TV aberta.
“Kubanacan”, obra cult de Carlos Lombardi, permanece inédita em reprises tanto na TV aberta quanto na fechada. O remake de “Paraíso”, de Benedito Ruy Barbosa, só recentemente entrou na grade do ex-Viva, quando poderia ter sido exibido também em sinal aberto. Até novelas bem recebidas de autores com trajetórias singulares, como “Beleza Pura”, de Andrea Maltarolli (1962-2009), seguem restritas ao catálogo do streaming, sem qualquer reapresentação linear.
O cenário aponta para duas possibilidades igualmente preocupantes: ou não há, nas instâncias de decisão, profissionais com repertório e entendimento suficientes para realizar uma curadoria técnica e histórica de novelas, ou a escolha deliberada é apostar no chamado “comfort-telenovela” — a reprise pela reprise, mais barata, mais previsível e supostamente mais segura. O custo dessa opção, no entanto, é alto: o desgaste progressivo de obras de primeira linha, transformadas em produtos descartáveis pela superexposição.

Thiago Lacerda e Graz Massafera em “Páginas da Vida” (Foto: Divulgação/TV Globo)
Desde a pandemia, praticamente todas as novelas citadas nesta crítica já foram exibidas, somando-se exibição original, reprises na TV aberta e reapresentações no Viva/Globoplay Novelas, pela quinta ou sexta vez. “A Viagem” é exemplar: exibida originalmente em 1994, teve repeteco ainda nos anos 1990, nova reprise em 2005, outra em 2025, além de duas exibições no canal por assinatura. “O Rei do Gado”, agora, caminha para sua segunda reprise no Globoplay Novelas, depois de já ter passado três vezes no “Vale a Pena Ver de Novo”. Trata-se, na prática, de sua sexta reexibição.
Mais do que uma questão de nostalgia, o que está em jogo é a ausência de uma política editorial consistente para o acervo. Quando tudo retorna o tempo todo, nada retorna de fato. A memória, que deveria ser preservada, acaba banalizada.
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