*por Vítor Antunes (Com pesquisa de Sebastião Uellington Pereira)
Por muito pouco a Globo não levou ao ar uma novela dedicada à imigração europeia no Brasil. E, diferentemente do caminho que a emissora consolidaria anos mais tarde em produções marcadas pela presença italiana, o projeto teria como foco a imigração alemã. Contudo, o sucesso de “Os Imigrantes“, da Band, de autoria de Benedito Ruy Barbosa (1931-2026), enterrou os sonhos da trama da Globo e aquela que seria a última novela de Teixeira Filho (1922-1984) na emissora. Segundo informações publicadas pelo Jornal do Brasil em 30 de dezembro de 1982, a novela receberia o título provisório de “Vale Dourado” e abordaria justamente a trajetória dos imigrantes alemães. A produção estava prevista para iniciar suas gravações em janeiro de 1983, com locações em Blumenau, Santa Catarina, um dos principais polos da colonização germânica no país.
O projeto também previa gravações em Frankfurt e Berlim, na Alemanha, algo incomum para uma novela das seis, faixa tradicionalmente associada a produções de orçamento mais modesto. A direção ficaria a cargo de Gonzaga Blota, e a escalação já contava com nomes como Vera Fischer, Maitê Proença e Narjara Turetta. A princípio, “Vale Dourado” seria a sucessora da novela escrita por Walther Negrão. Naquele momento, a trama de Negrão ainda se chamava “Condomínio”, embora posteriormente tenha sido rebatizada como “Pão Pão, Beijo Beijo”. Inicialmente, a estratégia da Globo era apenas inverter a ordem dos projetos, fazendo com que “Vale Dourado” entrasse no ar antes da novela de Walther Negrão.
O plano, no entanto, acabou não se concretizando. Assim, a emissora deixou de produzir uma novela centrada na imigração alemã, que teria combinado gravações internacionais, elenco de destaque e uma abordagem temática pouco explorada na teledramaturgia brasileira da época.

Edson Celulari e Cristina Mullins. Ela estava no ar em “Paraíso”. Ele na novela que a sucedeu – incialmente “Vale Dourado” e depois “Pão Pão Beijo Beijo” (Foto: Reprodução/Cinemateca)
“PROCURA-SE UM NEGRO LINDO DE MORRER”
Para a trama, os anúncios de jornal publicados durante a busca pelo elenco chamariam atenção nos dias de hoje pelo tom que seria considerado politicamente incorreto. Em 16 de novembro de 1982, por exemplo, O Fluminense estampava um chamativo anúncio: “Procura-se um galã escurinho”. Na coluna de Cidinha Campos, a convocação era ainda mais explícita: “A Globo está precisando de um galã negro ou mulato escuro, bonito, entre 20 e 25 anos, tipo Sidney Poitier ou Harry Belafonte”. A busca fazia parte da preparação de Vale Dourado, novela que colocaria a imigração alemã no centro de sua narrativa.
Em dezembro de 1982, a jornalista Hildegard Angel, em O Globo, utilizou justamente a expressão que abre este segmento da reportagem. E foi além ao detalhar o perfil procurado pela produção: “Por mais lindo que seja, ator mulato não serve. Tem que ser negro ou mulato escuro”. Segundo Hildegard, o personagem viveria um romance com a jovem interpretada por Tássia Camargo, fazendo do relacionamento interracial um dos eixos dramáticos da história.
Ambientada no início do século XX, a novela também apostaria em um elenco com forte ligação cultural com a Alemanha. Entre as atrizes pré-escaladas estavam Nathalia Timberg, Eva Wilma (1933-2021) e Norma Blum, todas fluentes em alemão. Comentava-se ainda que a produção poderia contar com uma parceria com uma emissora alemã e com o apoio das Confecções Hering. Além dessas atrizes, o elenco cogitado reunia nomes como Cleyde Blota, Fernando Torres (1927-2008), Herson Capri, André Di Biase, Edson Celulari, Clementino Kelé e Mário Lago (1911-2002).

Norma Blum, em 1976. Atriz fala alemão e viveu uma germânica em outra novela de Teixeira Filho, “Ciranda de Pedra” (Foto: Memória Globo)
O projeto, porém, acabou esbarrando em um fenômeno inesperado da televisão brasileira: o estrondoso sucesso de “Os Imigrantes”, exibida pela Bandeirantes. A novela de Benedito Ruy Barbosa transformou-se em um dos maiores êxitos da emissora e acabou influenciando os rumos de Vale Dourado. Em seu site, o Teledramaturgia, Nilson Xavier relata que Benedito havia oferecido originalmente Os Imigrantes à Globo, que recusou o projeto. Em depoimento concedido a André Bernardo e Cíntia Lopes para o livro A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo, o autor recordou que a emissora encarregou Dias Gomes (1922-1999) de avaliar a sinopse e os seis primeiros capítulos da obra.
Segundo Benedito, Dias Gomes escreveu: “Belíssima história, mas a Globo não precisa dela no momento. Recomendo que seja guardada para o futuro porque é uma novela de sucesso garantido”. O projeto permaneceu arquivado até que o autor, insatisfeito, pediu sua devolução. “Um dia, reclamei com Borjalo [Mauro Borja Lopes, executivo da emissora]. Ele abriu a gaveta, pegou a sinopse e me devolveu. É por isso que eu sei o que o Dias escreveu”, relatou. Já na TV Bandeirantes, onde havia escrito Pé de Vento, Benedito apresentou os vinte primeiros capítulos de Os Imigrantes a Wálter Avancini, então diretor artístico da emissora. Avancini aprovou imediatamente a proposta, dando início à produção que se tornaria um marco da história da Band.

Terra Nostra. Imigração italiana seria um clássico na tela da Globo (Foto: Divulgação)
Enquanto isso, os planos para Vale Dourado continuavam em discussão. Havia expectativa de que o autor Teixeira escrevesse, em 1983, a próxima novela das sete da Globo, projeto que já contaria com a participação de Edson Celulari. O destino, porém, interromperia esses planos: o autor morreria em 1984, encerrando definitivamente qualquer possibilidade de retomada daquele ciclo de projetos.
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