Globo 60 anos e a teledramaturgia como espelho de evolução institucional, mas algumas novelas foram um desastre


A TV Globo completa seis décadas de história. Desde os anos 1970, a emissora aposta em produções especiais para marcar datas simbólicas. Este ano, o remake de “Vale Tudo” tenta ocupar esse papel. Ao longo dos anos, produções grandiosas foram planejadas para alinhar comemoração e estratégia narrativa. Em algumas ocasiões, os resultados foram marcantes; em outras, decepcionante. Títulos como “Gabriela” e “Roque Santeiro” também serviram para celebrar a emissora e deram certo. Nem sempre, porém, os resultados foram positivos: versões como “Irmãos Coragem” e “Babilônia” não atingiram o impacto esperado

*por Rodrigo Otávio

No próximo dia 26 de abril, a TV Globo completa 60 anos de fundação — uma trajetória marcada por inovação, hegemonia no mercado audiovisual brasileiro e uma relação íntima com a teledramaturgia. Desde meados dos anos 1970, a emissora adota o hábito de celebrar datas redondas com produções especiais e, muitas vezes, com novelas pensadas para representar esse espírito comemorativo. Neste 2025, o destaque é o remake de “Vale Tudo”, uma das novelas mais emblemáticas da história da TV brasileira. Com uma superprodução, locações externas fora do eixo Rio-São Paulo e alto investimento em divulgação e estética visual, a emissora retoma uma tradição que havia sido colocada em segundo plano: o cuidado meticuloso com suas novelas enquanto produtos simbólicos de sua identidade e relevância cultural.

Desde 1975, quando celebrou uma década de existência com “Gabriela”, a Globo vem utilizando a teledramaturgia como espelho de sua evolução institucional. Ao longo dos anos, produções grandiosas foram planejadas para alinhar comemoração e estratégia narrativa. Em algumas ocasiões, os resultados foram marcantes; em outras, decepcionantes. Mas todas as obras ajudaram a contar a história da emissora — e da própria televisão brasileira.

Paulo Gracindo foi o Coronel Ramiro Bastos em Gabriela (Foto: Acervo/Globo)

Os Sucessos das Novelas Comemorativas

Gabriela (1975)


A Globo completava 10 anos no ar e marcava a data com uma produção ousada: “Gabriela”, adaptação de Walter George Durst (1922-1997) para o romance de Jorge Amado (1912-2001), sob direção de Walter Avancini. A novela foi um marco não apenas pelo luxo de sua produção — em cores, o que ainda era novidade —, mas também pela escalação cuidadosa do elenco. Após muitos testes, a protagonista ficou a cargo de Sonia Braga, embora Gal Costa (1945-2022) tenha sido cogitada para o papel. A trilha sonora também se destacou: Gal e Maria Bethânia estrearam como intérpretes em novelas da Globo, enquanto artistas como Fafá de Belém e Djavan apareciam pela primeira vez. Dorival Caymmi (1914-2008) compôs três músicas exclusivas para a trama, e o LP foi lançado em edição especial pela Som Livre.

Gabriela, de 1975, celebrou os 10 anos da Globo (Foto: Reprodução)

Roque Santeiro (1975/1985)

Originalmente prevista para estrear em 1975 como grande aposta da Globo para celebrar seus 10 anos, Roque Santeiro”, de Dias Gomes (1922-1999), foi censurada na véspera da estreia. Dez anos depois, a novela finalmente foi ao ar em 1985, tornando-se não apenas o símbolo dos 20 anos da emissora, mas um dos maiores sucessos da história da televisão brasileira. A novela marcou a volta de Regina Duarte à Globo e apresentou uma trilha sonora com dois volumes nacionais, algo inédito até então.

Lima Duarte e Regina Duarte em ‘Roque Santeiro”

Rainha da Sucata (1990)

Em comemoração aos 25 anos da emissora, a Globo apostou em Rainha da Sucata, escrita por Silvio de Abreu. Ambientada em São Paulo, rompeu com a tradição das novelas das oito exclusivamente no Rio de Janeiro. Com um elenco repleto de estrelas, a estreia da personagem Dona Armênia Aracy Balabanian (1940-2023) , inicialmente pensada para Nair Bello (1931-2007), a trama teve um começo conturbado — com excesso de comédia e pouco drama —, mas se recuperou ao longo da exibição e permanece como um dos títulos mais lembrados da teledramaturgia brasileira.

Aracy Balabanian é Dona Armênia (Foto: Divulgação/Globo)

As Tentativas Frustradas

Irmãos Coragem (1995)

Para celebrar seus 30 anos, a Globo optou por um remake: “Irmãos Coragem”, novela originalmente exibida em 1970. No entanto, a nova versão, adaptada por Marcílio Moraes, não alcançou o sucesso esperado. Exibida às 18h, faixa horária inadequada para a densidade da trama, a novela sofreu com mudanças internas na direção e conflitos criativos, inclusive com a família de Janete Clair, autora da versão original.

Marcos Winter foi o jogador de futebol Duda em “Irmãos Coragem” (1995) [Foto: Jorge Baumann/Globo]

Babilônia (2015)

Lançada como uma das grandes apostas para celebrar os 50 anos da emissora, Babilônia, de Gilberto Braga (1945-2021), Ricardo Linhares e João Ximenes Braga, ficou marcada como um dos maiores fracassos do horário nobre da Globo. A trama ousada, que abordava temas como prostituição, violência familiar, corrupção e relacionamentos homoafetivos, encontrou forte rejeição por parte do público. Lançada em meio à ascensão de um movimento conservador no Brasil, a novela terminou com uma das piores audiências da história do horário, apesar da liderança isolada da emissora.

Babilônia: novela não manteve os índces da antecessora “Império”. Chocou e afastou o público (Foto: Cláudio Maragaia/TV Globo)

Vale Tudo (2025): Um Olhar para o Presente

O remake de “Vale Tudo”, no ar desde março de 2025, ainda é cedo para avaliações definitivas, mas já mostra-se um projeto emblemático para os 60 anos da Globo. Trata-se de uma homenagem a uma das novelas mais cultuadas do país — e também a uma época em que a televisão tinha o poder de parar o Brasil. Com produção com investimento maciço e uma narrativa atualizada para os dilemas contemporâneos, a novela pretende ser um tributo à própria força da telenovela como patrimônio cultural brasileiro.