*por Rodrigo Otávio
A Globo parece determinada a provar que o futuro da televisão brasileira é, na verdade, o passado com filtro HD. Na lista de apostas para 2026, a emissora mistura tecnologia de ponta, reciclagem criativa e um punhado de superlativos publicitários. A emissora líder de audiência parece cada vez mais disposta a viver de reencarnações – coincidentemente, reprisa pela sexta vez uma novela sobre o tema, “A Viagem” (1994). Esta, que será substituída por uma ainda mais velha: “Rainha da Sucata” (1990), e com a qual vai atravessar 2025 e chegar a 2026. A emissora também vai ressuscitar atrações que já haviam sido enterradas há anos, outras que apenas trocam de cenário ou de apresentador, e várias que sobrevivem parasitando nomes de programas antigos. Uma dessas “novidades vintage” é o retorno do “Você Decide”, agora em versão de quadro no “Domingão com Huck”.
Desde o início de outubro circulam rumores sobre o formato, mas a pergunta que ninguém na Globo parece se fazer é: por quê? O programa está fora do ar desde o ano 2000. Quando estreou, em 1992, com apresentação de Antônio Fagundes, foi uma experiência televisiva realmente inventiva — um raro momento em que o público, por telefone, decidia o desfecho da história. O slogan, “O final da história você decide”, parecia um prenúncio otimista de uma era interativa.

Raul Cortez (1932-2006) também apresentou o “Você Decide” (Foto: Reprodução/Globo)
Três décadas depois, trazê-lo de volta é mais sintoma do cansaço criativo do que sinal de ousadia. A última tentativa de ressuscitá-lo, em 2001, foi um desastre. A Globo reprisou episódios na faixa do “Vale a Pena Ver de Novo”, apresentados por Susana Werner, na esperança de salvar um horário em queda. Deu errado: a audiência despencou ainda mais – alguns episódios chegaram a perder para SBT e Record. O fracasso foi tão constrangedor que, em menos de duas semanas, a emissora correu para reprisar “A Gata Comeu”, que devolveu a dignidade ao Ibope.
Mas se “Você Decide” estará de volta ao domingo, a Globo anunciou a recompra dos direitos de transmissão da Fórmula 1, garantidos até 2028. O campeonato volta à emissora após um hiato iniciado em 2020, quando os direitos migraram para a Band. Na época, a justificativa da Globo era simples: “audiência baixa e custo alto”. Agora, o discurso muda conforme o vento publicitário sopra. A Band, é verdade, fez da Fórmula 1 um raro caso de sucesso comercial — bom faturamento pros padrões do canal, bom público, boa imagem. Desde 1972, quando começou a transmitir as corridas, a Globo tratava o automobilismo como uma marca pessoal e foi descuidando-se da cobertura quando os pilotos brasileiros deixaram a F1. A volta da categoria à sua grade é menos um gesto de estratégia parece um ato de vaidade corporativa.
No meio desse revival coletivo, há também um capítulo com título polêmico – ou quase. Eliana, oficialmente global desde 2024, ganhará seu primeiro programa próprio: “Em Família com Eliana“. A ideia, segundo a emissora, é investir em um formato original, pensado especialmente para ela. O título, porém, parece desmentir a promessa: “Em Família”, é o mesmo nome da novela de Manoel Carlos exibida em 2014.

Eliana estreia seu primeiro projeto original na Globo com “Em Família” (Foto: Arquivo Site HT)
AS “NOVAS” EMPREITADAS
Entre as novidades está a presença da cantora Ana Castela na próxima novela das sete, “Coração Acelerado”, escrita por Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento, com direção artística de Carlos Araújo. A participação da artista, que vem do universo sertanejo e agro-pop, é lida como mais uma tentativa da Globo de conquistar o público de Goiás, praça que tradicionalmente dá trabalho ao departamento comercial da emissora.
A obsessão por agradar o Centro-Oeste não é nova. Conforme citado anteriormente, em 2014, a Globo apostou em “Em Família”, a última novela de Manoel Carlos — uma trama melancólica, carioca e arrastada, que se inicia em Goiás, numa cidade fictícia, mas que rendeu índices modestos. Ironicamente, o título volta agora como o nome do novo programa de Eliana. Parece piada interna: a Globo batizando de “Em Família” tudo o que não sabe muito bem como apresentar.
Mas a emissora garante que o futuro está logo ali — e atende pelo nome de DTV+, sua autoproclamada “TV 3.0”. Segundo o discurso oficial, trata-se de uma plataforma revolucionária que permitirá experiências personalizadas, interatividade aprimorada e métricas de audiência “mais precisas”. Traduzindo: um novo medidor de atenção para um público cada vez mais distraído.
No campo do humor, a casa aposta em um duo que promete anarquia controlada: Eduardo Sterblitch e Tatá Werneck, que se unem em um programa batizado de “ET”, que pretende resgatar a tradição da comédia experimental, mas com a moderação exigida pela grade comercial. As novelas, sempre a moeda mais estável do império global, também chegam repaginadas. Duda Santos será a protagonista de “Nobreza do Amor”, a nova trama das seis, descrita como uma superprodução de estética real-fabular. A autoria é de Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Júnior, com direção artística de Gustavo Fernandez. Já Jade Picon, migra para o território dos “microdramas” — novelas curtas e verticais que a Globo planeja estrear em dezembro, destinadas às telas de celular e à paciência dos que só têm segundos de atenção disponível. A atriz dividirá cena com Gustavo Mioto e Daniel Rangel, em um formato que a emissora define como “inovador” – ainda que o formato já seja batido em plataformas de streaming.

Jade Picon centralizou as atenções, os memes e as críticas em “Travessia” e volta nas novelas verticais (Foto: Divulgação/TV Globo)
Com tudo isso, a Globo 2026 pareceu ter cumprido sua missão simbólica: fazer uma “releitura” ou “repetição” como estratégia e a “nostalgia” como diferencial competitivo. A tal da “reinvenção” é, quase sempre, a boa e velha reprise com luz nova.