*Por Brunna Condini
Se dependesse da prateleira clássica das ‘mocinhas de novela’, em que muitas vezes a colocaram confortavelmente na TV, Giullia Buscaccio seguiria outro roteiro. Mas a atriz construiu sua carreira de forma consciente e gradual, para que personagens mais densas e cheias de ambivalências pudessem chegar. E chegaram. “Acho que meu trabalho quebrou uma barreira agora. Sinto que ele expandiu de uma forma muito legal, coisa que eu desejava. Queria muito mostrar a minha qualidade artística, me mostrar disponível para fazer projetos mais complexos. De forma mais madura e confiante do que estou entregando”.
Aos 28 anos, com 16 de trajetória, ela vive, simultaneamente, Suzana no sucesso ‘Os Donos do Jogo’, série já com segunda temporada garantida, que a coloca no olho do furacão de uma família de bicheiros, onde poder e afeto andam à beira do abismo; e é Tay, jovem tragada pelas drogas e por uma relação tóxica na quarta temporada de ‘Arcanjo Renegado’, no Globoplay. “As duas me exigiram uma coragem que eu não sabia que tinha”, admite. Coragem que passa também por ocupar espaços e não se calar: “Quero fazer com que a minha existência seja vista, não só pela beleza ou pelo lado fofo, delicado”. Em uma indústria ainda marcada pelo machismo estrutural, Giullia celebra um novo momento nos bastidores, de parceiras, diretores e colegas que escutam de fato as mulheres em um set:
Foi muito bacana ter um par em ‘Os Donos do Jogo’ (Xamã, que faz Búfalo na série), por exemplo, que valida meu ponto de vista. É um ganho enorme quando a nossa voz é respeitada. Essa é a virada de jogo – Giullia Buscacio

Giullia Buscaccio vive fase de expansão artística entre ‘Os Donos do Jogo’ e ‘Arcanjo Renegado’, com coragem e voz próprias: “Foi na hora certa” (Foto: Alexandre Araújo)
E, se Suzana e Tay à primeira vista podem parecer como extremos, respectivamente, uma estrategista fria, nascida e criada dentro das regras brutais do próprio pai, um líder do jogo do bicho; a outra, uma jovem engolida por uma relação abusiva e por um ciclo violento de drogas (em ‘Arcanjo Renegado’); Giullia enxerga nas duas uma mesma centelha: a necessidade de existir em um mundo que não foi feito para elas.
“Esse lugar de querer ter voz em um ambiente que não é feito para nós, mulheres, me atravessou muito”, conta. “Elas têm esse desejo de ocupar um espaço, cada uma da sua forma. O mundo é feito para favorecer os homens em todos os ambientes, então isso ficou muito latente em mim quando comecei a fazer essas personagens. Como elas, não fico calada, mesmo em ambientes mais masculinos. Tento me fazer presente com as mesmas qualidades que acho que um homem também pode ter”.

“É um ganho enorme quando a nossa voz é respeitada. Essa é a virada de jogo” (Foto: Alexandre Araújo)
Ambiente tóxico
A coragem que ela menciona repetidas vezes não é gratuita. Tay, em ‘Arcanjo Renegado’, vive uma relação sufocante com Lincoln (Marcello Novaes), daquelas em que o presente caro vem acompanhado de humilhações e controle absoluto. “Ela é muito contaminada pela toxicidade daquele ambiente. Refém mesmo. Confiou em alguém que não devia”, diz Giullia, que acha graça quando as pessoas supõem que as cenas mais difíceis da série de José Júnior para ela foram as de sexo com Novaes:
Isso é algo natural, as pessoas se relacionam. Acho que, para contar uma história de um casal, seja de amor ou de tesão, a gente precisa entrar nesse lugar do sexo. Quando comentei que me preocupava que meus pais assistissem a certas cenas, era muito mais por me ver em um registro de sofrimento – Giullia Buscaccio
E quando fala disso, a atriz faz referência ao mergulho no universo das drogas, em que precisou até encarar uma cena de overdose após um processo intenso de estudo. “Foi difícil achar referências. Vi alguns filmes sobre o tema. Poucas pessoas sobrevivem a algo tão extremo. Tive que construir tudo no meu corpo, no meu entendimento. É um tema delicado e eu queria fazer com responsabilidade”.

Giullia Buscaccio é Tay em ‘Arcanjo Renegado’, no Globoplay (Foto: Divulgação Afroreggae/Globoplay)
Ambiente de poder
Essa entrega visceral, no nível do descontrole, contrasta com a Suzana de ‘Os Donos do Jogo’, uma mulher que, apesar de sobreviver dentro da lógica masculina de poder, não se intimida. “A Suzana é muito consciente. Articulada. Ela cresceu no meio. Não é enganada facilmente. Até a escolha do marido foi uma escolha pensada”, explica. E essa inteligência emocional, e estratégica, é o que Giullia mais parece celebrar na personagem. “É interessante porque, lendo rápido, você pode achar que ela é submissa. Mas não é. Conduz tudo com clareza”.
Essa condução, aliás, ecoa nos bastidores. A atriz reforça que percebe mudanças concretas na forma como a palavra das mulheres tem sido recebida nos sets. O que parece simples é, para ela, resultado de anos de ocupação dos espaços. “Já estive em sets muito masculinos, onde a nossa voz não era muito levada em consideração. Em ‘Donos do Jogo’, senti o oposto. O Xamã escutava realmente todas as minhas falas, sugestões. E a direção do Heitor Dhalia também orquestrou tudo desta forma. Isso muda tudo. Porque, mesmo que a gente lute dentro do set, se quem edita e dirige não tiver esse olhar, a cena perde essa perspectiva”.

Giullia Buscaccio e Xamã em cena de ‘Os donos do Jogo’ (Foto: Divulgação/Netflix)
A parceria com Mel Maia, que interpreta Mirna, irmã de Suzana, também marcou o processo. As duas criaram a relação a partir de suas próprias vivências com suas irmãs, com cumplicidades e rachaduras que só a intimidade permite. “Falamos muito sobre crescer com outra mulher dentro de casa. De onde o calo aperta, onde a gente cede. São relações de amor e de embate. Às vezes você mata e salva no mesmo dia”, brinca. E é justamente esse território, de mulheres que sabem negociar poder, medo, desejo e sobrevivência, que parece mover a fase atual de Giullia. Um momento de expansão, mas também de afirmação:
Sinto que cheguei no lugar que estou hoje na hora certa. Nada foi rápido na minha carreira, nada aconteceu do dia para a noite. Dei tempo ao tempo. E agora posso mostrar um trabalho mais maduro. É um ciclo que se abre- Giulia Buscaccio

Giullia Buscaccio e Mel Maia são irmãs em sucesso da Netflix ‘Os Donos do Jogo’ (Foto: Divulgação/Netflix)
As cenas entre Giullia e Mel têm rendido elogios, e inclusive, muita gente anda dizendo que a série deveria se chamar “as donas do jogo”, por conta da potência que as duas imprimiram às suas personagens: “Concordo (risos). São mulheres fortes, inteligentes, que sabem bem o que querem e conduzem a história, mesmo que nos bastidores, para conseguir isso”. Com a segunda temporada de ‘Os Donos do Jogo’ a caminho e um público global descobrindo seu talento, a atriz sonha alto, e sem pudores:
Quero muito fazer um filme que chegue longe, que seja indicado a algum grande prêmio. Esse é meu desejo para 2026 – Giulia Buscaccio
Ambiente de dorama
Das mocinhas previsíveis a mulher que escreve o próprio espaço, Giullia Buscacio parece mesmo ter virado o jogo, dentro e fora de cena. E lembra, com carinho de como tudo começou. Nascida no Funchal, capital da Ilha da Madeira, quando o pai, o atacante Júlio César Gouveia Vieira (‘Julinho’) foi jogar por lá, mas tendo sido criada em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio de Janeiro; ela recorda que seu desejo por atuar nasceu quando viveu na Coreia do Sul, também por conta da profissão do pai. “Só fui entender que a Coreia foi responsável pelo meu despertar como atriz depois de alguns anos. Quando fui morar lá não tinha amigos, não sabia falar coreano, me sentia deslocada. Passei muito tempo em casa, assistindo televisão. Foi aí que tive contato com os doramas, que passam tipo TV aberta lá. Não entendia nada que falavam, mas entendia as emoções, me envolvia. Entendi como conecta. E falei: ‘Mãe, quero fazer isso’, era a forma que eu queria me aproximar das pessoas. Quando voltamos para o Brasil, fui estudar”.

Giullia Buscaccio recorda o início: “Foram os doramas que despertaram meu desejo de ser atriz” (Foto: Alexandre Araújo)
E como atriz hoje, pinta o desejo de participar de um dorama, se aventurando por mercados internacionais?
Tenho a maior vontade de fazer um dorama. Confesso que eu teria que voltar aos estudos do coreano, porque, como vim de lá em 2007, não consegui manter o idioma Mas se tivesse que participar de algum projeto em coreano, teria o maior prazer do mundo de voltar aos estudos e aprender a fazer – Giullia Buscaccio
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