*por Vitor Antunes
Giselle Itié surgiu na televisão como uma combinação rara de exuberância física e talento dramático, dessas que a câmera reconhece de imediato. Rapidamente, cravou o nome em trabalhos de grande visibilidade e atravessou diferentes fases da teledramaturgia brasileira. Sua última novela foi em 2017, “Belaventura”, da Record — há quase uma década. Desde então, manteve-se afastada dos folhetins, num silêncio que não foi exatamente ausência, mas escolha. E 2026, ao menos por ora, não haverá um retorno à rotina das novelas. “O ano terá teatro, audiovisual e projetos que ainda estão sendo gestados. Tem conversas acontecendo, sim, inclusive para TV. Novela é sempre um encontro bonito quando faz sentido. Não tenho pressa, tenho critério”, diz.
A relação de Giselle com a televisão, no entanto, carrega marcas profundas. Em 2004, aos 23 anos, ela viveu sua primeira protagonista em “Começar de Novo”, novela de Antônio Calmon, que pode ser vista no Globoplay. Atualmente, o público pode conferir a performance da atriz na peça “Toc Toc”, comédia do autor francês Laurent Baffie, adaptada e dirigida por Alexandre Reinecke.

Giselle Itié e Marcus Paulo em “Começar de Novo” (Foto: Renato Rocha Miranda/Globo)
Antônio Calmon, em depoimentos posteriores, afirmou considerar aquela a pior obra que havia escrito até então. A trama, marcada por problemas de condução narrativa, rejeição do público e um desempenho aquém do esperado, tornou-se um fracasso de audiência. Para Giselle, porém, o impacto foi muito mais íntimo e duradouro. Anos depois, já em 2020, a atriz recorreu às redes sociais para falar sobre o período, classificando a experiência como traumática. “23 anos de idade. Minha primeira protagonista. Fui severamente assediada e amordaçada pelo diretor da novela. Até hoje sinto a dor de uma vítima silenciada”, escreveu. A declaração repercutiu imediatamente e trouxe à tona discussões ainda pouco amadurecidas na televisão brasileira sobre poder, abuso e silenciamento.
Na mesma época, em entrevistas, Giselle adotou um tom mais contido e evitou confirmar que a violência mencionada tivesse ocorrido especificamente em “Começar de Novo”. “Realmente, não vou falar sobre o assunto. Em nenhum veículo. Obrigada pelo acolhimento. Muita coisa pra mexer nesse baú. Não vou falar mesmo. Senão, a próxima pergunta será: ‘Qual o diretor?’. E aí, você já sabe o caminho”, disse à repórter Elba Kriss. O cuidado com as palavras, longe de negar a dor, parecia antes delimitá-la — como quem impõe fronteiras para seguir em frente. Hoje, Giselle prefere enquadrar a novela dentro de uma trajetória mais ampla e menos ferida. “Foi um trabalho importante que me ajudou, como todos os outros, a construir meus 25 anos de carreira artística”, resume.

Giselle Itié em “Começar de Novo” (Foto: Renato Rocha Miranda/Globo)
A peça “Toc Toc”, comédia do autor francês Laurent Baffie, é sucesso internacional e estreou nova temporada no Teatro UOL, em São Paulo, onde fica em cartaz até 1º de março. A montagem marca o retorno da atriz ao gênero da comédia teatral — e, sobretudo, ao contato direto com a plateia. “Eu estava com saudade da troca imediata que só o palco entrega. Teatro não tem filtro e nem corte. Fazer parte do elenco em um clássico da comédia é um privilégio e um desafio enorme, porque estamos lidando com um texto que já provou a sua força ao longo do tempo”, afirma. No elenco estão ainda Iara Jamra, Daniel Dantas, Ricardo Tozzi, Miguel Menezzes, Sara Freitas e Jade Mascarenhas.
O TOC — transtorno obsessivo-compulsivo — costuma ser tratado como caricatura, quando na verdade é uma condição psíquica complexa, marcada por obsessões persistentes e rituais que atravessam o cotidiano de quem convive com ela. Em “Toc Toc”, que aborda justamente esse universo, o desafio é encontrar o ponto exato em que o riso não anula a gravidade do tema. Para a atriz, a chave está menos na piada fácil e mais na observação precisa do comportamento humano.
“O TOC é sério, é uma obsessão que atravessa a vida da pessoa. A comicidade nasce do excesso, do conflito, da tentativa desesperada de controle num mundo que não controla nada”, diz. O humor, portanto, não surge da condição em si, mas da fricção entre o desejo de ordem absoluta e a realidade caótica que insiste em escapar a qualquer método. É nesse atrito que o texto de Laurent Baffie encontra sua força — e onde o trabalho do ator se torna mais delicado.

Giselle Itié viu sua vida transformada pela maternidade (Foto: Reprodução Instagram/Alex Takaki)
Ela própria reconhece traços cotidianos que poderiam, à distância, ser confundidos com obsessões. “Tenho alguns rituais, formas de organização, ações que me dão equilíbrio no dia a dia. Mas nada que se configure como um TOC clínico”, pondera. A distinção é importante: organizar-se para sobreviver ao cotidiano não equivale a viver aprisionado por rituais incontroláveis. No palco, esse limite precisa estar claro para que a comédia não se transforme em desinformação.
Fora de cena, a atriz também passou por um processo profundo de reorganização pessoal. Em 2019, tornou-se mãe de Pedro Luna — um acontecimento que, segundo ela, redesenhou não apenas a rotina, mas a própria relação com o trabalho e com o tempo. “A maternidade reorganiza tudo. Tempo, prioridade, ego”, afirma. A experiência, longe de significar retração profissional, provocou um ajuste fino nas escolhas. “Você passa a escolher melhor onde coloca sua energia. Não é sobre fazer menos, é sobre fazer com mais sentido”, diz.
A partir daí, vieram decisões mais criteriosas, uma recusa maior ao que não dialoga com seus valores atuais e uma sensação inédita de autonomia sobre o próprio tempo. “Fiquei mais seletiva, mais dona do meu tempo e menos disponível para o que não conversa com quem eu sou hoje”. O efeito colateral — se é que se pode chamar assim — foi um fortalecimento artístico. “E isso, curiosamente, me deixou mais potente artisticamente”, conclui.

Giselle Itié quer voltar às novelas Giselle (Foto: Reprodução Instagram/Alex Takaki)
Entre o silêncio escolhido e a palavra medida, Giselle segue desenhando uma carreira que não se deixa capturar pela urgência do agora. No palco, onde não há edição nem escapatória, ela reaprende diariamente o gesto primordial da atriz: estar inteira diante do outro. Fora dele, protege o tempo, a memória e o corpo como quem cuida de um território conquistado a duras penas. Não corre atrás do retorno, porque sabe que certos encontros só acontecem quando amadurecem. E talvez seja isso o que hoje a define com mais precisão: uma artista que já entendeu que permanecer não é aparecer sempre, mas continuar fazendo sentido — para si, para a cena e para quem ainda está disposto a escutar o que só pode ser dito quando o ruído cessa.
Artigos relacionados
Lázaro Ramos fala da chegada de seu vilão africano ao Brasil em "A Nobreza do Amor" e sobre autores negros na TV
Gabriel Braga Nunes comemora sucesso no teatro e nega volta à TV: "Fiz 25 novelas em 25 anos"
GloboPop erra no conceito, falha na execução e revela dificuldades da Globo para competir com TikTok e Kwai