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‘Ganhou dimensão política’, diz Fernanda Thurann sobre ‘Rogéria-Senhor Astolfo Barroso Pinto’

Produtora do filme sobre ‘O travesti da família brasileira’ fala sobre a trajetória do docudrama desde que era apenas uma ideia até sua estreia em circuito nacional na próxima quinta-feira (dia 31)

Publicado em 28/10/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Jeff Lessa

Um dos filmes mais aguardados do ano chega às telas de todo o país na quinta-feira (dia 31), depois de percorrer um longo circuito de mostras competitivas e festivais de cinema no Brasil e no exterior, onde foi visto por alguns happy few, entre críticos especializados, convidados, artistas e plateias cinéfilas. Com isso, “Rogéria – Senhor Astolfo Barroso Pinto”, docudrama sobre a vida do travesti Rogéria (1943-2017), gerou um falatório que alçou o longa à condição de cult muito antes de ter data para estrear. Por trás desse furacão estão o cineasta Pedro Gui, diretor e coprodutor do filme, e sua sócia na empreitada, a atriz e produtora curitibana Fernanda Thurann, que, aos 33 anos, conta com um currículo invejável no cinema e no teatro.

Aos 33 anos, a atriz e produtora Fernanda Thurann tem um longo currículo em cinema e teatro (Foto: Nana Moraes)

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A trajetória do filme renderia um pequeno doc sobre o papel do acaso na construção de uma obra de arte. A história sobre como a estrela teve sua trajetória narrada num filme já é conhecida: um belo dia, Pedro Gui, que já admirava Rogéria de longa data e era seu vizinho no Leme, tomou coragem para chamar a artista para um papo. Se transformou em uma longa conversa, que resultou na troca de telefones. Os contatos posteriores levaram ao convite para o filme. A estrela, porém, morreu antes de as entrevistas estarem completas. Nascia assim, o docudrama.

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“Era para ser um documentário, sem sequências ficcionais. Só uma conversa, uma homenagem nossa a essa artista imensa que foi a Rogéria. Esse foi o primeiro ponto: transformar um papo despretensioso num documentário dramático. Fizemos porque estamos nos empenhando em não deixar a história dela morrer. Queremos que a luta de Rogéria seja conhecida pelas novas gerações”, conta Fernanda, entusiasmada. “A ideia original era de se fazer um road movie, em que Rogéria visitaria lugares fundamentais para sua vida, como a cidade natal, Cantagalo, na Região Serrana do Rio, e a galeria Alaska, o antigo reduto homossexual de Copacabana”.

“Tenho muito orgulho, meu primeiro longa chega às salas de exibição falando de liberdade” (Foto: Nana Moraes)

A outra mudança de rumo veio meio por acaso: “É que o filme acabou ganhando, também, uma dimensão política imensa, algo que jamais havia passado pela minha cabeça. Quando soube da tentativa do prefeito do Rio apreender livros na Bienal, no começo de setembro, lembrei imediatamente do nosso filme. E confesso que me deu um arrepio. Achei sensacional a atitude do (youtuber) Felipe Netto comprando e distribuindo livros com temática LGBT de graça durante o evento”, disse Fernanda.

O arrepio de que fala vem do receio de ter o filme censurado de alguma forma. Ou de acontecer algum tipo de boicote por conta de transfobia ou homofobia: “Infelizmente, estamos passando por uma fase de retrocesso cultural e comportamental. As pessoas deveriam compreender que, antes de ser travesti, homem, mulher, Rogéria era artista. Mas não é exatamente assim que acontece”, lamenta a produtora acrescentando que ficará muito feliz se o filme suscitar o debate e a troca de ideias. “Ela foi uma das nossas heroínas. Precisamos usar seu exemplo para refletir, conversar e chegar a uma realidade mais pacífica, com menos ódio. Penso em muitas coisas, mas tento ser positiva e acreditar que tudo vai dar certo”.

“A ideia original era fazer um road movie em que Rogéria visitaria os lugares da sua vida” (Foto: Nana Moraes)

Fernanda aproveita para esclarecer outra polêmica que chegou a ser ventilada, sobre uma hipotética desavença com a família da artista. “Recebemos a autorização da própria Rogéria, em vida. Não tivemos necessidade de pedir autorização à família, que sempre nos tratou muito bem. Inclusive entrevistamos dois irmãos dela, que foram extremamente solícitos e gentis. Chegaram a pedir para ver documentos, mas apresentamos os papéis e não tivemos qualquer problema com eles”, dispara.

Outra questão que poderia gerar algum tititi, por conta do próprio tema do filme, também merece ser esclarecida: “Para quem acredita que usamos dinheiro público, deixo claro: não tivemos patrocínio. Todos os gastos saíram dos nossos bolsos”, diz Fernanda, referindo-se ao cineasta Pedro Gui, seu sócio na BR Produções. “Não recebemos recursos de lugar algum, nem do Fundo Setorial, nem para fazer e montar. Tudo ficou sob a nossa responsabilidade”, esclarece. “Se as leis de incentivo fiscal não existirem mais, como vamos fazer? De outra forma. A classe artística precisa se unir e conversar para encontrar soluções”.

O fato é que “Rogéria – Senhor Astolfo Barroso Pinto” chega ao circuito chancelado por um boca a boca positivo e láureas (em 2018, arrebatou os prêmios de melhor direção, no Festival do Rio, o troféu pela direção, no Los Angeles Brazilian Film Festival, e as premiações para melhor filme, direção e ator no DIGO, Festival Internacional da Diversidade Sexual e de Gênero de Goiás). ”Eu me sinto muito feliz por ter produzido algo em que acredito. Sinto o maior orgulho desse documentário. É o meu primeiro longa como produtora sendo lançado no cinema. E já chega evocando a temática da liberdade, do poder ser quem você quiser. A Rogéria não entrava em nenhuma caixa e quem se recusa a se enquadrar, brilha. Ela nunca se explicou para ninguém”, frisa Fernanda.

Fernanda e o cineasta Pedro Gui, seu sócio e coprodutor, não contaram com patrocínio (Foto: Nana Moraes)

 

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