*por Vítor Antunes
“Tem falta de galã negro 50+ no mercado“. Essa é uma queixa recorrente. O ator Pedro Caetano fez um post em suas redes sociais e chamou atenção para este fato. Segundo ele, é importante distinguir personagens protagonistas de personagens galãs. Embora um protagonista conduza a narrativa, isso não significa, necessariamente, que ocupe o lugar simbólico do galã ou tenha um arco romântico central na história. “Eu acredito que a questão do protagonismo é muito confusa quando a gente fala desse assunto. O protagonista tem um lugar garantido na trama. Ele é o ponto central daquela história, mas isso não significa, necessariamente, que o protagonismo garanta para ele uma jornada, assim como o herói tem uma jornada muito específica. A jornada do protagonista galã também tem especificidades. Esse é o ponto principal. O que significa ser galã? Não necessariamente é ser o ponto central de uma história”.
Ele aponta para uma questão moderna: “Temos novelas com protagonistas negros jovens, mas esses homens brancos 50+, que sempre ocuparam o lugar do galã, continuam tendo esse status garantido, mesmo quando não são os protagonistas da história. Acredito que essa construção passa, principalmente, pela forma como essas pessoas são vistas na sociedade. Há quem aponte que o galã está circunscrito à beleza, mas não. Ele é o personagem desejado, amado. Creio que o lugar do galã passa muito mais por isso. Ser amado envolve muitas coisas. No nosso imaginário, essa é uma construção complexa. Já ser desejado passa muito pela aparência, por aquilo que você transmite imageticamente”.
Num contexto histórico, às vésperas da estreia de “Aquele Beijo”, quando a trama ainda tinha o título provisório “Um Mundo Melhor”, a Folha de S.Paulo noticiou: “Miguel Falabella continua atrás de um ator de peso, galã, nome conhecido no mercado, para formar dupla com Marília Pêra em ‘Um Mundo Melhor‘ na Globo, a substituta de ‘Morde & Assopra‘ na faixa das 7″. O papel acabou ficando com Herson Capri, que, à época, tinha 59 anos. Naquele mesmo período, em 2011, a reclamação era praticamente idêntica. A própria Folha publicou: “Procuram-se galãs de meia-idade na Globo: bons atores, bonitos e grisalhos, dispostos a viver protagonistas de novelas. Tamanha demanda fará a emissora repetir uma de suas estrelas como personagem principal em duas tramas das 21h”. A solução encontrada pela Globo, alguns anos depois, foi recorrer novamente a Alexandre Nero para protagonizar “A Regra do Jogo”. Desde então, nomes como Alexandre Nero, Rodrigo Lombardi, Marcos Palmeira e Murilo Benício vêm, em maior ou menor medida, revezando-se na função de galãs maduros da teledramaturgia.
Quando o recorte passa a ser o dos atores negros, porém, o cenário se torna ainda mais restritivo. A escassez deixa de ser apenas quantitativa e passa a ser também simbólica: esses intérpretes raramente são escalados para ocupar o lugar do protagonista romântico, do homem desejado ou do galã maduro. Atualmente, Lázaro Ramos, aos 47 anos, pode ser visto à frente do elenco de A Nobreza do Amor. Seu personagem é um dos protagonistas e também o principal antagonista da trama. Contudo, ele não ocupa o espaço tradicionalmente reservado ao galã romântico, aquele que conduz o principal arco amoroso da narrativa. Esse perfil, especialmente na televisão brasileira, ainda costuma excluir atores negros.

O ator Pedro Caetano fala sobre o papel do galã nas novelas (Foto: Jorge Bispo)
O caso se repete com outros nomes. Sérgio Menezes, hoje com 53 anos, está afastado das novelas desde 2021. Já Maurício Gonçalves, de 60 anos, embora em outros momentos de sua carreira tenha sido enquadrado nesse perfil de galã maduro, não atua em novelas desde 2012. Passados mais de quinze anos desde que a televisão reconhecia publicamente a dificuldade de encontrar galãs acima dos 50 anos, a pergunta continua pertinente. Mas ela pode — e talvez deva — ser ampliada: onde estão os galãs maduros negros da teledramaturgia brasileira?
Acredito que a gente está precisando de roteiristas corajosos, arrojados, interessantes, para provavelmente mudar essa realidade e tornar uma coisa mais interessante para quem faz, para o artista e especialmente para o público – Sérgio Menezes, ator

Louise Cardoso, Sérgio Menezes e Malu Mader. Destaques de “Força de Um Desejo” (Foto: Nelson di Rago/TV Globo)
Pedro Caetano afirma que esse imaginário também ajuda a explicar a forma como homens negros são percebidos socialmente e como isso impacta a construção de personagens românticos. “Quando a gente fala das questões do povo preto, até pensando na mulher negra, existe a crença de que ela suporta mais dor e, por isso, é mais violentada, por exemplo, no momento do parto. Com o homem negro acontece algo semelhante. A gente é associado à virilidade, àquilo que o nosso corpo pode fazer, mas isso não está relacionado a ser amado. O homem negro hoje não é visto na sociedade como alguém digno de ser amado. E, se você não pode ser amado, acredito que a construção do galã passa muito por aí.”
O galã passa uma ideia não só de desejo, mas também de provimento, de sofisticação, de poder e de segurança. Todos esses elementos foram historicamente negados ao povo preto, negados ao homem negro. Até hoje, o homem negro não consegue ocupar esse espaço. Embora hoje existam pessoas negras em situação de conforto financeiro, pessoas pretas que são ricas, isso não garante esse lugar na sociedade. O dinheiro não apaga o racismo, não apaga a raça, não apaga a cor. Isso deixa muito claro que, para alcançarmos esse lugar, não basta determinação da nossa parte. Existe uma mudança estrutural na sociedade que será necessária para que isso aconteça. Por isso, ao chegar aos 50+, começamos a ver uma transformação física. É o momento em que a aparência começa a não se sustentar mais naquele lugar construído pelo nosso universo midiático, onde ela tem uma importância muito grande. A partir dos 40 e poucos anos, chegando aos 50, a aparência deixa de ser o elemento central. Você já não transmite mais aquela virilidade que era exigida antes – Pedro Caetano, ator
Pedro Caetano afirma que, para homens maduros, a cobrança em torno da imagem passa por outra lógica. Segundo ele, espera-se não apenas um determinado tipo físico, mas também uma leitura específica sobre masculinidade e individualidade. “Um ponto importante que vemos hoje em relação às pessoas pretas, aos atores pretos, é a grande preocupação com o corpo. O corpo precisa demonstrar não apenas saúde, mas virilidade. A maioria dos atores pretos hoje é obrigada, ou pelo menos espera-se deles, que tenha um corpo como o de Michael B. Jordan. Eles também são muito mais expostos. Vemos cada vez mais atores negros com seus corpos em evidência nas novelas e em outros produtos audiovisuais. Há ainda a questão da jornada desses personagens. Já vimos alguns personagens pretos importantes, mas a trajetória deles raramente é a do galã. Dificilmente terminam a história com a mocinha. Eles podem até terminar com alguém, mas, na maioria das vezes, a mocinha da novela fica com um homem branco.”

Sérgio Menezes celebra que haja maior escalação de atores negros nas produções, mas faz ponderações (Foto: Divulgação)
Já Sérgio Menezes celebra o aumento do espaço destinado a protagonistas negros, mas considera preocupante que o debate sobre representatividade no audiovisual permaneça praticamente o mesmo de décadas atrás. “Espero que seja uma mudança definitiva no mercado. Não sou especialista, sou apenas um observador, mas, embora a gente esteja tentando resolver essa questão, me surpreende que, em 2026, ainda estejamos falando sobre esse assunto da mesma forma que eu via quando era criança e adolescente. É muito impressionante. A gente precisa avançar de fato, e não ficar dando voltas em círculo”.
Espero que essa mudança seja definitiva e que não tenhamos mais que falar sobre esse assunto, ou pelo menos tratá-lo dessa forma. Às vezes parece que estou nos anos 1980, ouvindo atores relevantes discutirem exatamente as mesmas questões. Honestamente, acho esse assunto bastante cansativo. Precisamos avançar de verdade na direção de uma solução definitiva – Sérgio Menezes
Embora frequentemente seja identificado pelo público como galã, Sérgio Menezes afirma que nunca estruturou sua carreira a partir desse rótulo. “Posso falar da minha própria experiência. De certa forma, considero essa atribuição que algumas pessoas fazem a mim em relação a essa realidade de galã, mas, honestamente, nunca construí minha carreira pensando por esse ponto de vista. Eu diria que uma parte significativa dos personagens que interpretei até hoje não está enquadrada nessa realidade. Sinto-me honrado e lisonjeado quando as pessoas fazem essa associação, mas a minha carreira não está baseada nisso.”
O ator reconhece que o etarismo é uma realidade no mercado audiovisual, embora diga não ter sentido seus efeitos de maneira direta em sua trajetória profissional. “O etarismo obviamente existe e é preciso resolver esse assunto. Entendo que o artista é como um bom uísque: quanto mais antigo, melhor é e mais valor tem. Em sociedades mais desenvolvidas, essa equação costuma funcionar dessa maneira. Talvez o Brasil precise copiar esse modelo ou encontrar uma solução própria para enfrentar essa questão de uma vez por todas”.
Ele porém faz uma ressalva: “Ainda não posso falar sobre o tema com propriedade porque, embora tenha 53 anos, muitas vezes sou chamado para interpretar personagens cerca de 20 anos mais jovens. Em 2022, por exemplo, fiz um jogador de futebol em Quanto Mais Vida, Melhor!, um personagem que deveria ter, no máximo, 30 anos, considerando a idade de um atleta em atividade. Mesmo depois dessa novela, continuei sendo escalado para personagens que certamente não correspondiam à minha idade real. Por isso, seria injusto dizer que fui impedido de trabalhar por causa da idade. Mas o etarismo existe, precisa ser enfrentado e faz, sim, diferença.”

César Mello pondera sobre a presernça negra na TV (Foto: Guilherme Logullo)
Já César Mello, também ator, tem outra perspectiva. “O espaço dos negros na TV não é o que era, mas sabemos que enfrenta oposição para se tornar o que pode ser. É louvável a retirada do negro do eterno lugar de empregada, chofer, escravo. É louvável também a diversidade ganhando forma, cores e protagonismo. Mas vejo, nos bastidores, uma luta sendo travada para que toda essa mudança desapareça (às vezes, com a melhor das intenções) sob o pseudônimo de, por exemplo, “queremos veteranos na TV”. Sinto que essa pode ser uma frase perigosa, na medida em que, se os veteranos voltarem em massa para a TV, a diversidade pode desaparecer novamente. Como, há tempos, não existia a diversidade que temos agora, esses veteranos são, em sua maioria, brancos. Outro problema é que a volta desses veteranos (meu maior respeito para com eles. Não é sobre qualidade que falo.) desconsidera a quantidade de atores e atrizes negros e negras que são veteranas e veteranos no teatro e que agora podem ter a chance de atuar na TV. São veteranos”.
Uma televisão verdadeiramente plural não se mede apenas pela quantidade de rostos negros em cena, mas também pelos lugares que lhes permite ocupar. Enquanto homens negros maduros continuarem ausentes do imaginário do romance, do desejo e do protagonismo afetivo, a representatividade permanecerá incompleta. Afinal, o galã não é apenas quem conquista um par amoroso no último capítulo; é aquele a quem a narrativa reconhece o direito de amar, de ser amado e de envelhecer diante do público com a mesma dignidade, complexidade e fascínio historicamente reservados aos atores brancos. Talvez a verdadeira pergunta já não seja onde estão os galãs negros 50+, mas quando a televisão brasileira estará disposta a enxergá-los.
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