Gabriela Medvedovski, atriz de ‘Três Graças’, fala dos bastidores de ‘Loquinha’, casal sáfico que faz história na TV


“Espero que a história delas seja realmente uma reparação histórica que abra espaço para muitos outros casais como elas e beijos assim na TV, muitas outras manifestações de amor e carinho entre todos os tipos de pessoas”, diz a sobre o caco que escapou em cena e impulsionou o ship com Alanis Guillen em “Três Graças”. Reflete ainda sobre a exposição e os limites da vida pessoal, recentemente uma foto tirada por um paparazzi ao lado do novo namorado, e acompanha com dor a guerra em Israel por ter amigos no país. Gabriela também projeta 2026 com retorno ao teatro

*Por Brunna Condini

O ship ‘Loquinha’ — Lorena e Juquinha, personagens de Alanis Guillen e Gabriela Medvedovski — já era um dos mais viralizados de ‘Três Graças’ quando uma palavra dita em cena recentemente mexeu com os fãs mais atentos. Não foi texto, nem combinação com os autores. No roteiro, Juquinha chamaria Lorena de ‘doidinha’. Na gravação, a palavra não veio, e saiu ‘loquinha’, exatamente como o fandom batiza o casal sáfico. A cena repercutiu nas redes e foi lida como um aceno ao ship. “Até poderia ser, mas no caso, me fugiu mesmo a palavra. Eu precisava dizer algo como ‘doida’ e saiu ‘loquinha’. Não foi combinado”, diverte-se Gabriela. “A reação da Alanis é genuína. Eu tinha ensaiado com o texto certo. O ‘loquinha’ simplesmente escapou”. O acaso encontrou um terreno já fértil.  O romance entre as duas na novela das nove da Globo envolve e emociona porque mostra afeto e naturalidade. Afinal, amor é amor e isso precisa estar na TV também. Podemos dizer que esse casal ter tantas cenas de beijo na trama, é quase como se fosse uma reparação histórica na teledramaturgia brasileira? “Eu espero que seja (risos). Acho muito legal porque nada ali é gratuito. Cada beijo, cada carinho tem sentido. O beijo é uma validação desse amor”. E crava:

Espero que a história delas seja realmente uma reparação histórica que abra espaço para muitos outros casais como elas e beijos assim na TV, muitas outras manifestações de amor e carinho entre todos os tipos de pessoas – Gabriela Medvedovski

Gabriela Medvedovski fala de ‘Loquinha’, casal de 'Três Graças' que faz história na TV, diz como tem lidado com o interesse na sua vida pessoal e compartilha planos (Foto: Walter Lobato)

Gabriela Medvedovski fala de ‘Loquinha’, casal de ‘Três Graças’ que faz história na TV, diz como tem lidado com o interesse na sua vida pessoal e compartilha planos (Foto: Walter Lobato)

Fora da exposição da TV, mantém limites claros. Confirma o namoro com o rapaz com quem foi fotografada por uma paparazzi há poucos dias, mas preserva sua intimidade. “Ele se chama Pablo. Não é do meio artístico, trabalha com economia. Sou reservada, acho que a relação é só nossa. Sei que vão tirar foto, querer saber, tudo bem, mas prefiro manter nossa relação entre nós”. Nesta entrevista, Gabriela também fala com afeto da sua origem judaica e da dor ao acompanhar a guerra em Israel. Ela tem planos nítidos: voltar ao teatro, em projeto escrito para ela; e buscar novos territórios, inclusive em carreira internacional. E vem uma mudança concreta por aí: a atriz se muda esse ano para o Rio de Janeiro. “Sinto que fechei meu ciclo por agora em São Paulo, que foi a cidade onde nasci e que me recebeu muito bem no meu retorno, porque cresci no Rio Grande do Sul. Mas São Paulo foi essencial para o início da minha carreira”. A artista conta ainda, se pensa em fincar raízes em terras cariocas:

Alanis Guillen e Gabriela Medvedovski fazem história na teledramaturgia como um casal que tem conquistado o público em 'Três Graças' (Foto: Divulgação/Globo)

Alanis Guillen e Gabriela Medvedovski fazem história na teledramaturgia como um casal que tem conquistado o público em ‘Três Graças’ (Foto: Divulgação/Globo)

Sinto que não tenho muitas raízes, porque como acabei saindo do Rio Grande do Sul e já tive também a oportunidade de morar em Israel há alguns anos, tive a experiência de existir em outros lugares. Tenho muita vontade de ter experiências em outros lugares no mundo. Amo conhecer culturas, então em algum momento também posso querer viver em outro país. Mas o concreto agora é a mudança para o Rio – Gabriela Medvedovski

Desde que ‘Três Graças’ estreou, a relação entre Lorena e Juquinha passou a ocupar um lugar raro na teledramaturgia: o de um romance construído sem didatismo e sem o peso de ‘explicar’ o que já está dado. Para a atriz, é justamente essa escolha narrativa que ajuda a entender por que o casal não virou alvo de rejeição, como aconteceu com outras histórias semelhantes no passado. “Existir como casal já é uma bandeira enorme. Não precisa sublinhar. Quando é natural, bonito e romântico, as pessoas se conectam”, diz.

Amor sem fronteiras

Sua trama no folhetim, ultrapassou as fronteiras e virou assunto nas redes sociais internacionais, especialmente entre os fãs de obras LGBTQIAPN+ e do gênero ‘Girls Love’. O casal ganhou fãs do mundo todo. “Às vezes a pessoa nem entende a língua, mas entende o que vê: duas meninas se amando comunica antes de qualquer legenda”, observa Gabriela. A viralização acabou funcionando como porta de entrada para a novela inteira, e não apenas para o núcleo das duas: “Quem chega através delas acaba descobrindo outras histórias, outros personagens. Descobre a nossa teledramaturgia que é muito potente”.

O retorno da história ao lado de Alanis Guillen na ficção, tem vindo de lugares inesperados. Não apenas do público jovem ou de quem já se reconhece nessas histórias, mas também de espectadores mais velhos, que se emocionam ao ver afeto tratado com delicadeza em horário nobre. “É muito bonito ouvir pessoas dizendo que ficam felizes quando a gente aparece na TV. Isso mostra que a troca é real, humana”, conta.

Alanis Guillen e Gabriela Medvedovski: naturalização do amor em 'Três Graças' (Reprodução/TV Globo)

Alanis Guillen e Gabriela Medvedovski: naturalização do amor em ‘Três Graças’ (Reprodução/TV Globo)

O impacto nas redes também ajuda a explicar a expansão do universo da trama, que deve ganhar uma produção paralela para o Globoplay. Embora ainda saiba pouco sobre o formato, a atriz vê a iniciativa como consequência direta da identificação do público. “A história já tem uma linguagem muito construída. Se for uma trama que dialogue com a novela, é uma chance de aprofundar o que nem sempre têm tanto tempo de tela”. E acrescenta:

Sobre a novelinha ‘Loquinha’ para o Globoplay ainda não sei nada, juro (risos). O pessoal está trabalhando no desenvolvimento de sinopse e de roteiro. Mas vão ser os mesmos autores, claro – Gabriela Medvedovski

Com a visibilidade ampliada, veio também um novo grau de exposição pessoal. Gabriela, que dos seus 33 anos tem 10 dedicados ao ofício, diz lidar com isso escolhendo onde investir energia. “Aprendi que não dá para entrar em todas as batalhas. Prefiro olhar para o carinho que recebo, que tem sido muito grande. Isso é muito maior do que qualquer comentário vazio ou hate, que recebo muito pouco, aliás”, garante.

“É muito bonito ouvir pessoas dizendo que ficam felizes quando a gente aparece na TV. Isso mostra que a troca é real, humana” (Foto: Walter Lobato)

“É muito bonito ouvir pessoas dizendo que ficam felizes quando a gente aparece na TV. Isso mostra que a troca é real, humana” (Foto: Walter Lobato)

Origens e o atual momento

Fora da ficção, Gabriela mantém uma relação próxima, embora discreta, com suas origens. Criada em um lar judaico, guarda rituais e valores que seguem presentes no dia a dia, como o shabat e a ideia de responsabilidade coletiva, de fazer do mundo um lugar melhor. É a partir desse olhar que acompanha os desdobramentos da guerra em Israel (entre Israel e Palestina) onde já viveu. “Tenho uma conexão com pessoas que moram lá, então fico preocupada com o bem-estar deles. Tenho amigos que moram em lugares que a 600 metros já caiu um míssil. Isso é uma realidade muito difícil. Sinto uma profunda dor por tudo que está acontecendo, de ambos os lados, porque qualquer guerra é o contrário de tudo que acredito de diálogo e de construção. Espero muito que acabe logo. Só que é muito difícil, é muito mais profundo do que personalizar nos líderes do atual conflito, porque vem muito mais lá de trás. É muito triste ver tudo isso. Inclusive por conhecer pessoas que foram sequestradas, por conhecer pessoas que conhecem outras que perderam a vida. Não conheço ninguém do lado palestino pessoalmente, mas não tem como não se sensibilizar com tudo que acontece. É desumano”.

Em qualquer guerra, todo mundo já perdeu. A gente parte desse pressuposto, não tem lado vencedor. A verdade é essa –  Gabriela Medvedovski

"Em qualquer guerra, todo mundo já perdeu. A gente parte desse pressuposto, não tem lado vencedor" (Foto: Walter Lobato)

“Em qualquer guerra, todo mundo já perdeu. A gente parte desse pressuposto, não tem lado vencedor” (Foto: Walter Lobato)

Olhando adiante, 2026 aparece um ano de virada. Além do sucesso da novela, da mudança para o Rio de Janeiro, a atriz planeja um retorno ao teatro, em um projeto pensado especialmente para ela. “Tenho uma vontade muito grande de fazer um trabalho com o autor Gustavo Pinheiro. Ele é maravilhoso. A gente está pensando em como viabilizar isso. Estou convencendo ele a escrever pra mim (risos)”, conta.

A atriz também alimenta o desejo de atuar em outras línguas e expandir fronteiras profissionais: “Falo fluentemente inglês e espanhol. Entendo muito bem hebraico, estou estudando italiano e compreendo um pouco de francês. Adoro falar línguas. Acho que rompem fronteiras, fazem a gente conhecer pessoas, culturas novas”.