Gabriela Loran rompe estereótipos de atrizes trans e promete personagem sem rótulos na novela ‘Três Graças’


Atriz vive um momento de virada com as gravações de “Três Graças”, nova novela das nove da Globo. Ela interpreta Viviane, farmacêutica envolvida em um esquema de falsificação de medicamentos, tema que dialoga com debates atuais sobre saúde pública. O papel marca uma ruptura com estereótipos, dando a uma personagem trans protagonismo e complexidade raramente vistos na teledramaturgia. Paralelamente, Gabriela amplia sua atuação artística e empreendedora, investindo em moda e buscando novos espaços além do rótulo de “atriz trans”. Em cena e fora dela, afirma-se como voz criativa e transformadora

*por Vítor Antunes

A novela “Três Graças” marca o retorno de Aguinaldo Silva à teledramaturgia da emissora e promete mobilizar debates intensos em torno de temas contemporâneos — entre eles, a falsificação de medicamentos. A trama estreia dia 20 e um dos temas centrais envolve Viviane, personagem da atriz Gabriela Loran. A estreia da novela coincide com um momento de redefinição da própria trajetória de Gabi, que busca consolidar-se artisticamente para além do rótulo de “atriz trans”, assumindo um posicionamento mais amplo como mulher e cidadã. “Três Graças”  traz uma novidade significativa: Viviane, personagem de Gabi, foge do lugar-comum reservado com frequência às figuras negras e LGBTQIA+ nas telenovelas — o papel de “personagem-orelha”, aquele que existe para escutar e amparar a jornada dos protagonistas, sem ter vida própria.

“Viviane é a personagem que eu sempre sonhei fazer. Ela está vindo na medida certa, tem relevância dentro da trama, com um desdobrar e realmente com um destaque dentro da trama, que não está sempre servindo de bengala para outros personagens. A Viviane tem a vida dela. Ela é amada pelos moradores da Comunidade da Chacrinha – onde parte da trama se passa. Além de ter um affair com o Pedro Novaes, que vive o Leonardo”, explica a atriz.

A personagem será uma farmacêutica, que se vê no epicentro de um esquema que substitui princípios ativos de remédios. Paralelamente, na vida real, a novela estreia em meio ao auge das fraudes envolvendo canetas emagrecedoras e outros medicamentos. Para Gabriela, o tema tem ressonância pessoal: “Esse é um assunto muito importante, porque o meu primeiro trabalho na vida foi como balconista em uma farmácia. Falar da indústria farmacêutica é fundamental. A Viviane, minha personagem, é cobrada pela população, que começa a morrer enquanto está tomando uma medicação falsa. A grande questão que move a trama é essa indústria de manipulação e de falsificação de medicamentos”.

Gabriela comenta ainda que tem um projeto pessoal: “Estou produzindo menos conteúdos de humor nas minhas redes, focando no conteúdo de moda e beleza”, comenta, acrescentando que planeja lançar uma grife de moda autoral.

Já passei por várias violências na moda. Num dos ensaios que fiz, era com calcinha e sutiã, e eu ainda não havia feito a redesignação. Foi uma questão para mim, porque eu não estava preparada para aquilo, o que me deixou insegura de certa forma. É preciso pensar nesses corpos, pensar em como os produtos do audiovisual também abarcam o corpo dessa pessoa trans. Eu já perdi cenas em razão de as personagens femininas estarem de maiô e eu não estar entre elas, sem haver uma conversa para me incluir — como colocar um body ou um short – Gabriela Loran

Gabriela Loran passou por violências na moda (Foto: Divulgação/Roberto Filho)

Recentemente, Gabriela integrou o especial “Falas Femininas”, da Globo. Para ela, foi uma vitória simbólica: participar de um projeto da emissora sem que fosse necessário um enquadramento em pautas de diversidade ou programas com esse recorte.

A atriz também tornou pública sua cirurgia de redesignação sexual, motivada por uma decisão política diante do conservadorismo institucional. “O motivo de eu ter compartilhado a minha cirurgia, o meu processo de redesignação, foi porque enquanto eu estava na Tailândia, eu decidi que ia documentar tudo, mas não ia postar. Eu só queria ter esse registro para que, se em algum momento eu me sentisse desconfortável, fazê-lo. Só que, assim que operei, nós recebemos a notícia de que o Vaticano tinha classificado a cirurgia de redesignação sexual como atentado violento à dignidade humana. E eu decidi usar a minha experiência, a minha vivência, como contraponto a esse posicionamento completamente retrógrado. E compartilhei”.

A gente vê que a mídia ainda tenta estigmatizar a gente de muitas formas, e o contraponto que a gente tem é tentar usar a nossa vivência para levar informação para as pessoas. Mas carregar essa bandeira o tempo inteiro cansa – Gabriela Loran

GRAÇAS

Para Gabriela, a palavra-chave da personagem na novela é humanizar. “Acho que seria humanizar essa personagem, fugir de estereótipos, porque por mais que ela seja trans, não define a mulher que ela é. Viviane é conhecida por ser a farmacêutica da comunidade”.

Eu fico feliz por poder construir uma narrativa em que o sofrimento e a dor não sejam o centro, e em que a transexualidade não seja a linha principal da personagem. Ela tem outros conflitos mais profundos do que isso. Não quero interpretar uma personagem que vive enganando. Isso ainda é muito comum: a personagem trans que esconde quem é para poder existir. Aqui, não. A transexualidade não é o pilar central da vivência dela – Gabriela Loran

Gabriela Loran é Viviane, na próxima novela das 21h (Foto: Divulgação)

A atriz mantém reserva sobre os rumos do romance entre Viviane e Leonardo. “Ainda não sabemos o que vai acontecer entre ela e o Leonardo. Só recebemos até o capítulo 38. [Até os capítulos já gravados], os personagens já se cruzaram, já estão construindo alguma coisa”.

Essa construção da personagem encontra eco no percurso pessoal de Gabriela Loran. Depois de anos em que foi chamada a assumir a posição de educadora pública sobre questões de gênero e sexualidade, ela agora reivindica um espaço de normalização das vivências trans — inclusive na dramaturgia. “Eu cresci numa pandemia falando muito sobre sexualidade, letrando as pessoas, fazendo vídeos educativos, mas chega um momento em que a gente fica exausta de falar a mesma coisa, porque parece que as coisas não mudam nunca, as perguntas sempre são as mesmas”.

A gente acaba caindo sempre no mesmo lugar. Às vezes a gente dá uma entrevista super legal e o que vai para a chamada é ‘a transexual’, ‘a trans’. E aí acaba que a minha condição de vida vem antes de quem eu sou. E é isso que eu também estou tentando não fazer com a Viviane. Não queremos que a transexualidade venha antes da identidade dela”.

Essa mudança de postura acompanha um momento de maturidade profissional. “Eu quero poder falar sobre dramaturgia, sobre a cena, sobre a complexidade de personagem, sobre o quanto eu estou me doando para esse papel, porque é a primeira vez que faço uma novela das nove do início ao fim. O meu maior desafio nessa novela não é abordar a questão trans. Mas sim, o fato de ser a primeira personagem gigante que eu ganho no sentido de demanda de texto, demanda de gravação. Então, realmente, é muito simbólico esse passo. Nesse momento, eu estou torcendo para Viviane seja mocinha, mas que também possa transitar pela vilania”.

Personagem de Gabriela Loran vai se envolver com o galã do momento, Pedro Novaes (Foto: Divulgação/Globo)

Gabriela também faz questão de exaltar o autor. “Aguinaldo Silva é detentor das melhores novelas, das melhores vilãs que a gente já viu. “Três Graças” é o tipo de novela que a gente está com saudade de assistir, sendo mulheres que acordam cedo, que trabalham. É mulher brasileira mesmo”.

Paralelamente às gravações da novela, a atriz já se prepara para outro desafio. “Ano que vem a gente já tem confirmada a sexta temporada de “Arcanjo Renegado”, que eu estou gravando junto com a novela. Então, a minha personagem vir grande nessa sexta temporada, vai ter protagonismo único e exclusivo dela. Isso é muito legal. Eu fico feliz de poder estar em mais uma história, já que estou em Arcanjo Renegado desde a segunda temporada”.

Na encruzilhada entre ficção e vida real, Gabriela Loran constrói, com Viviane, mais do que uma personagem: ergue um território simbólico onde a diversidade deixa de ser pauta para tornar-se existência. Em “Três Graças”, sua presença rompe o lugar marginal a que corpos dissidentes tantas vezes são confinados e reivindica espaço no centro da narrativa — não como exceção, mas como parte orgânica da trama. Fora de cena, a atriz trilha um percurso semelhante: transita entre a moda, a dramaturgia e a militância com a serenidade de quem compreende que ocupar é, também, reinventar os papéis oferecidos.