*por Vítor Antunes
É impossível conversar com Flávia Monteiro sem mencionar o fenômeno “Chiquititas”. Protagonista de uma das novelas mais emblemáticas da história do SBT, ela marcou profundamente toda uma geração — hoje composta majoritariamente por adultos com mais de 35 anos — que imediatamente a associa à inesquecível Tia Carol, a diretora do orfanato Raio de Luz, da novela. “Eu continuo sempre me assustando um pouco, mesmo quase 30 anos depois. A novela pegou essa geração toda. Nós gravávamos na Argentina e não tínhamos dimensão do sucesso. Acabamos criando um distanciamento que só descobríamos ser impactante quando chegávamos no Brasil. Isso numa época em que não havia rede social, em que a gente só conseguia ver as coisas através de jornal, revista, né? Então o acesso era diferente, era através de carta. A pegada era outra. Eu não consigo nem imaginar como seriam as “Chiquititas” se fossem nos tempos atuais”.
Em grande parte devido a essa repercussão duradoura, o SBT lançou recentemente o documentário “Geração Chiquititas”, um reencontro com o elenco da primeira fase da novela. A produção reuniu os antigos atores — hoje todos acima dos 40 anos — e contou com a participação emocionada de Flávia. No entanto, chamou a atenção de alguns fãs o fato de ela não ter participado das coreografias nostálgicas que marcaram a produção original. Somente agora, a atriz revelou o motivo: havia passado por uma cirurgia delicada após a descoberta de um melanoma, tipo agressivo de câncer de pele.

Flavia Monteiro. Mesmo 30 anos depois, ela segue sendo reconhecida por seu personagem em Chiquititas (Foto:Acervo pessoal)
“Inicialmente, achei que fosse uma pinta, mas era um melanoma. Tive que fazer uma operação, e isso coincidiu justamente com a época do documentário. Meu médico me proibiu de dançar”, contou. A descoberta se deu por acaso, durante uma consulta de rotina com a dermatologista.
Era uma micro pinta na região do joelho. Fui à dermatologista e ela achou esquisita. Pediu uma biópsia e um exame histológico. Disse: ‘Vamos tirar para a gente fazer a biópsia, porque não estou gostando’. No fim, acabamos retirando. Era um melanoma de grau dois. Fiquei com um talho na perna gigantesco. Mas, de todo modo, imagina se eu não tivesse visto – Flávia Monteiro
Felizmente, não foi necessário realizar quimioterapia nem radioterapia, mas o acompanhamento é rigoroso: consultas a cada três meses pelos próximos dois anos. Como se não bastasse o abalo físico e emocional, Flávia enfrentava, paralelamente, um drama familiar: seus pais também foram diagnosticados com câncer.
Minha mãe também estava com um tumor no estômago, e meu pai com câncer de próstata. A sensação era de que o anjo da enfermidade resolveu bater à minha porta. E foi tudo meio que ao mesmo tempo – Flávia Monteiro

O melanoma na perna de Flávia – apontado pela seta – era pequeno mas implicou numa grande cirurgia (Foto: Arquivo pessoal/Flávia Monteiro)
A atriz também relata que chegou a cogitar aposentar-se em razão da mudança dos tempos, onde o talento tem um peso menor que a quantidade de seguidores.
Eu realmente cheguei a pensar em me aposentar. Fui no meu empresário, o Marcus Montenegro e comuniquei que eu queria deixar a profissão muito em razão de não entender esse universo das redes sociais e de grande competição. Mas ele me aconselhou e reorientei a rota – Flávia Monteiro
PEQUENINAS
“Chiquititas” estreou em 1996 e foi, praticamente, um sucesso instantâneo. O folhetim infantil, com enredo centrado em crianças e para crianças, preencheu uma lacuna inédita na teledramaturgia nacional. Imediatamente, seu elenco tornou-se ícone, e Flávia Monteiro passou a ocupar um lugar de prestígio incomum para atrizes de sua geração. “Há quem ainda se emocione, quem fique nervosa e chore quando me vê, ou que me reconhece pela voz, mesmo que eu esteja de boné. A Carol vem antes da Flávia. Ela foi uma personagem que representou um lugar de muita proteção, de magia, de acolhimento. Aquela figura de mãezona de crianças que queriam ser adotadas pela personagem ou morar no orfanato da novela — mesmo sendo um orfanato. É muito doido pensar nisso. Às vezes era uma criança de família estruturada, rica, mas queria estar naquele orfanato. Tinha a Tia Carol, mas tinha também todo o universo infantil ali reunido, cada criança com a sua questão. Era um personagem com uma asa grande que acolhia todo mundo, defendia, protegia contra o mal”.
Carol foi uma das poucas personagens que permaneceu durante praticamente toda a trama. Enquanto o elenco infantil era gradualmente substituído, ela se consolidava como uma presença constante. Mas o trabalho era exaustivo. “No início, ela começou como assistente social, trabalhando numa fábrica. Depois, passou a ser diretora do orfanato, batalhando pelas crianças. E foi tomando um lugar na história como a grande salvadora, a protetora. ‘Não mexa com as minhas crianças’. Sempre preocupada com o bem-estar de cada um, torcendo para que suas famílias aparecessem ou que fossem adotadas por famílias que pudessem cuidar como ela cuidava. Foi um personagem que foi crescendo comigo dentro da história”.

O sucesso de “Chiquititas” era arrebatador (Foto: Arquivo pessoal)
A rotina de gravações era intensa: “Chegou num ponto que eram muitos textos. Eu gravava o dia inteiro com as crianças. Tinha o texto, tinha a peça, e a Carol já estava tão dentro de mim, tão enraizada, que às vezes eu nem perdia muito tempo decorando. Eu já sabia como ela falava, pensava, agia. Ia decorando no carro, porque não tinha tempo. No dia seguinte, eram 25, 30, até 40 cenas para gravar. Fora ensaio, dança, canto, clipes, revistas. Tínhamos várias funções ali. Não sobrava tempo pra nada”. Foi apenas entre o terceiro e o quarto ano da novela que Flávia conseguiu negociar 20 dias de férias — uma pausa essencial para manter a saúde física e emocional diante de um trabalho que, apesar de recompensador, exigia muito mais do que o público podia imaginar.
DO COMEÇO AO RECOMEÇO
Após vencer o tratamento contra o câncer, Flávia Monteiro planeja seu retorno aos palcos, ao lado do ator Daniel Del Sarto, com quem dividiu a cena na comédia Sem Dicas para Arranjar Namorado. Ainda assim, tem agido com cautela. “Tem umas coisas assim que a gente está pesquisando, mas estou indo devagar, aos pouquinhos, porque foi um ano em que eu não consegui nem parar para pensar muito nas minhas coisas futuras.”
Flávia lembra que, recentemente, gravou a série Verônika, ainda inédita no Globoplay, além do longa infantojuvenil “Príncipe Lu e a Lenda do Dragão”, de Luccas Neto. “Me permitiu reaproximar um pouco dessa criançada nova.” Em paralelo, ela trabalha na viabilização de um documentário sobre a bailarina Ana Botafogo. “Ana Botafogo: Uma Vida na Ponta dos Pés” é um projeto que ainda está em desenvolvimento”.

Flávia Monteiro e Luccas Netto nas gravações do longa do Youtuber (Foto: Arquivo pessoal)
Desde sua participação em “Gênesis”, na Record, Flávia não atua em uma novela completa. “Essa é uma questão que acaba pegando todo mundo dessa geração, que é o etarismo. Eu posso ter cara de mais nova, mas estou com 52 anos. Não faço parte de nenhuma panela. Trabalhei nas grandes emissoras de TV — e, depois de Chiquititas, reconheço que fiquei marcada como a Tia Carol do SBT. Fiquei um tempo com essa cara do SBT, até por conta da Tia Carol.”
Atualmente, está no ar o remake de “Vale Tudo”, novela exibida originalmente em 1988, da qual Flávia participou. Ao lado de Chiquititas e Pantanal, são obras que ganharam novas versões nas últimas décadas. Ela, no entanto, ainda não conseguiu assistir à nova adaptação.
Quase imediatamente após “Vale Tudo”, atuei em Salomé, uma novela de 1991 que hoje está meio esquecida, mas na época tive bastante destaque e até estampei a capa da trilha sonora internacional. Era dirigida pelo Herval Rossano, um diretor muito temido por sua severidade. Eu fui ao encontro dele e pedi para fazer uma novela, e ele foi muito amável, me colocou em Salomé, um trabalho que amei fazer. Retratava os anos 1930. Nessa trama, fiz amizades que mantenho até hoje, como o Matheus Carrieri e o Petrônio Gontijo. É uma novela que guardo com muito carinho”.

Flavia Monteiro e Mateus CArrieri (Foto: Arquivo Pessoal)
MENINA DO LADO
O filme que revelou Flávia Monteiro ao grande público foi “A Menina do Lado”, em que interpretava Alice, uma jovem de 14 anos apaixonada por um homem mais velho, papel de Reginaldo Faria. “Hoje em dia, esse filme seria completamente proibido, mas naquela época veio para polemizar e mostrar que o amor não tem idade, entre aspas. Não estou fazendo apologia às crianças. Há uma diferença. Alice, meu personagem, era emancipada pelos pais. Tinha 14 anos, mas já morava sozinha, cozinhava, enfim, vivia com outro tipo de família e forma de vida. Era outra época. O filme falava até da ingenuidade da criança de 14 anos”.
Sobre sua relação com a obra, passadas décadas, ela afirma: “Hoje, com o distanciamento do tempo, não posso falar nada contra o filme. Ele trouxe questões sobre diferença de idade, em um tempo em que muitos não tinham coragem de assumir certas relações: mulheres de 40 com homens de 30, homens de 60 com mulheres mais novas. Acho que a arte serve para abrir debates”.

Flávia Monteiro em “A Menina do lado”. Filme polêmico (Foto: Arquivo pessoal)
Ela recorda com carinho da produção e da equipe: “Foi um filme que não só o Alberto Salvá (1938-2011) dirigiu, mas também contou com a Elisa Tolomelli, que cuidou de mim durante todo o processo. Ela foi minha coach e diretora, com todo o cuidado e amor. Meus pais estavam sempre presentes, cuidavam de mim como se eu fosse um cristal. Não me causou trauma. Eu queria ser atriz, fiz o teste e passei. Achei que meu pai não fosse permitir, pois tinha uma educação super rígida, quase militar, baseada no medo. Mas quando se tem uma família estruturada, com base e porto seguro fortes, é difícil se perder.”
O pai de Flávia, preocupado com a exposição da filha, a submeteu a uma avaliação psicológica antes das filmagens. “Ele me fez fazer um teste psicológico, para ver se eu teria estrutura para lidar com o impacto do filme — principalmente se desse errado.” As polêmicas vieram: “Muitos criticaram meus pais, o filme quase foi barrado por um político, e houve polêmica no país inteiro. Quase fui expulsa do [Colégio] Marista São José, pois mães ligavam ameaçando o colégio. Fui conversar com o padre, que veio de Roma e quis me conhecer. Ele disse que o que importava era como eu era como aluna. Continuei no colégio, nunca repeti de ano e terminei meus estudos lá. Tenho muito carinho pela escola. Estudei sempre em colégios religiosos, como o Santa Marcelina, com freiras como professoras”.

Flávia Monteiro, Reginaldo Faria e Sérgio Mamberti estavam em “Vale Tudo” e em “A Menina do LAdo” (foto: Arquivo Pessoal)
Ela defende a delicadeza da produção: “O filme foi um acontecimento no Brasil e me lançou. Deu muito certo. Não era um filme banal, não era da pornochanchada. Era delicado, com amor, cuidado, uma relação psicológica em que o personagem mais velho cuida dela, quase como uma figura paterna. Alice não teve pai; tinha uma mãe alcoólatra e um padrasto agressivo. A relação era de amor e cuidado. O final do filme fica em aberto, deixando o público imaginar se eles voltam ou não. Amo o filme, acho lindo”.
Na esteira do sucesso, vieram “Vale Tudo” — que reuniu boa parte do elenco do longa — e, em seguida, “Pantanal “e outras produções marcantes. “Tive muita sorte por ter feito novelas absolutas. “Pantanal”, na época, bateu todos os recordes. No SBT, fiz Éramos Seis, novela que reuniu vários atores vindos da Globo. Foi considerada uma das melhores da história do canal. “Éramos Seis” é um fenômeno. Sinto-me muito sortuda”. A exposição na Playboy , já nos anos 2000, veio como tentativa de reposicionar a própria imagem, muito vincada à da novela infantojuvenil. “Queria mudar a imagem de ‘Tia Carol’. Não tinha muito para onde ir”.
O TEMPO E A ESSÊNCIA
Ao refletir sobre sua trajetória, Flávia deixa claro o que a move: “A vida não espera. Temos que sonhar grande, cair sem medo, levantar com coragem. Porque, no fim, não é sobre o que a gente conquista — é sobre quem a gente se torna no caminho”. A atriz também valoriza sua ligação com a própria essência:
Eu não deixo a minha criança interna morrer de jeito nenhum. É o que me faz seguir nesse mundão difícil. Porque a gente vai endurecendo conforme a vida — a dificuldade vai nos endurecendo. A vida adulta é muito chata. E a vida de criança é tão curta… Eu já cumpri minha missão na Terra como atriz. Já plantei uma semente no coração de uma geração enorme. É muita gente. E essa semente está viva, pulsando até hoje – Flávia Monteiro

Flavia Monteiro: “A vida não espera” (Foto: Arquivo pessoal)
E assim segue Flávia Monteiro — alma que brilhou como Tia Carol, mas cuja luz vai muito além da ficção. Em sua jornada, ela dançou com a infância de uma geração e enfrentou as sombras da vida real com a doçura de quem jamais perdeu a própria criança interior. Encenou histórias, tocou corações, e mesmo quando pensou em partir dos palcos, foi resgatada pela própria arte, que a conhece pelo nome e a chama pelo afeto. Sua trajetória é feita de reencontros: com personagens, com o público e, sobretudo, consigo mesma. Porque Flávia não é apenas memória — é permanência. E como toda estrela que sabe o que é amar o ofício, ela continua ali, viva no imaginário coletivo, soprando esperança em forma de lembrança.
Artigos relacionados
Cristiana Oliveira retorna a novela inédita da Globo após 14 anos, fala sobre maturidade e diz: "Não vivo de passado"
Post de um ex-BBB sobre beleza de Rivellino faz Daniel Blanco, que interpreta o craque em "Brasil 70", explodir nas redes
Do perigo das linhas 0900 nos anos 1990 às bets na CazéTV: velhas fórmulas de lucro voltam a expor público a prejuízos