Filme com atriz de “Vale Tudo” e clássicos do cinema nacional são campeões de visualização em sites pornôs. Entenda!


Em tempos de streaming, encontrar filmes nacionais fora do circuito comercial é um desafio. Obras premiadas e de relevância histórica, como “Leila Diniz” e “Espelho de Carne”, desaparecem dos catálogos oficiais por entraves legais ou desinteresse comercial. Em razão disso, muitos desses filmes migram para plataformas alternativas como sites pornográficos internacionais. Longas como “Tolerância” ultrapassam 5 milhões de visualizações. Mesmo filmes consagrados acabam relegados ao submundo digital, sem qualquer remuneração para seus autores. Enquanto isso, um público fiel resiste, consumindo essas obras longe das vitrines tradicionais

*por Vítor Antunes

Em tempos de streaming, não faltam plataformas e sites que oferecem produções nacionais e estrangeiras — especialmente aquelas fora do circuito mainstream. Ainda assim, o acesso ao cinema brasileiro, mesmo de obras reconhecidas e premiadas, é limitado. Por trás disso, há entraves como os direitos autorais, os direitos de imagem, negociações complexas e, às vezes, puro desinteresse comercial. Filmes importantes simplesmente desaparecem dos catálogos oficiais e tornam-se inacessíveis nas plataformas oficiais – como Netflix e Globoplay. Um caso emblemático é o da cinebiografia “Leila Diniz” (1987), protagonizada por Louise Cardoso e dirigida por Luiz Carlos Lacerda. O longa, que narra a trajetória da atriz símbolo da liberdade feminina nos anos 60, não está disponível na Globoplay, nem na Netflix ou em qualquer outro serviço tradicional. Seu paradeiro? Um dos sites pornográficos mais acessados do mundo com conteúdo adulto e proibido para menores de 18 anos. E não está sozinha. Localizamos pelo menos outros oito títulos brasileiros por lá. Muitos fora do radar das plataformas oficiais. “Entre Lençóis“, com Paolla Oliveira e Reynaldo Gianecchini, que já passou dos 1,9 milhões de views apenas neste site.

Entre eles há algumas pornochanchadas — um gênero popular entre os anos 70 e 80 —, como “O Bom Marido”, de Antonio Calmon. Mas há também filmes como Tolerância (2000), um drama com tons de suspense e crítica social, e “Memórias Póstumas” (2001), adaptação da obra de Machado de Assis (1839-1908). Só “Tolerância” ultrapassa 5,5 milhões. Esses números revelam algo importante: há demanda por esse tipo de conteúdo — muito além do interesse pelo conteúdo original do site. Esses filmes acabam encontrando nessas plataformas um lugar para serem vistos, já que não podem ser hospedados no YouTube (por conterem nudez ou cenas de sexo que gerariam “strikes”) e tampouco são licenciados para plataformas.

Além dos sites pornográficos, existem redes sociais que vêm funcionando como verdadeiras bibliotecas paralelas. É possível encontrar na gringa um usuário em particular que se dedicou a um trabalho de curadoria temática surpreendente. Ele organizou uma vasta coleção de conteúdos audiovisuais em categorias como filmes de faroeste, clássicos do cinema mundial e, de forma muito especial, produções brasileiras. Na aba dedicada ao cinema nacional, há pelo menos sessenta títulos disponíveis. É o caso de A Moreninha (1970), adaptação do romance de Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882), estrelada por David Cardoso e Sonia Braga. Também figura no acervo Central do Brasil (1998), dirigido por Walter Salles, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e responsável por catapultar Fernanda Montenegro a uma histórica indicação ao Oscar de Melhor Atriz.

Contudo, diferentemente do que ocorre em plataformas voltadas para conteúdo sexual — onde esses filmes atingem milhões de visualizações —, as obras hospedadas em fóruns raramente ultrapassam dois mil views. É uma audiência modesta, mas que reitera uma dinâmica interessante que evidencia que o interesse pelo cinema brasileiro é mais difuso e plural do que os grandes players do mercado admitem. Em segundo lugar, indica a existência de um mercado paralelo, alimentado não pelo lucro, mas pelo desejo de preservar e circular obras que, por razões mercadológicas, ideológicas ou puramente econômicas, desapareceram dos catálogos oficiais. É como se a memória audiovisual brasileira, com todas as suas contradições e riquezas, encontrasse nesses becos digitais um espaço de sobrevivência. Porém, há um problema ético e econômico central: ninguém envolvido nessas produções recebe qualquer centavo por essas exibições. Há de se destacar que muitos desses filmes foram exibidos pelo Canal Brasil, do Grupo Globo, e só podem ser assistidos de forma linear, no próprio canal.

Lídia Brondi, atriz da primeira versão de ‘Vale Tudo, em cena de “Perdoa-me por me traíres”. filme baseado na obra de Nelson Rodrigues (Foto: Reprodução)

A seguir, uma lista com alguns desses filmes — apesar de não serem essencialmente pornográficos – que, por um misto de descaso e desinformação, estão hoje restritos à plataformas internacionais para adultos.

FILMES LOCALIZADOS:

  • Leila Diniz (1987)
    Cinebiografia de Leila Diniz (1945-1972), que se tornou símbolo da liberdade sexual no Brasil nos anos 1960 e 1970. Dirigido por Luiz Carlos Lacerda, o filme é estrelado por Louise Cardoso no papel-título, com participações de Marieta Severo, Tony Ramos e Stênio Garcia. Visualizações computadas: 1,9 milhão

“Leila Diniz” filme protagonziado por Louise Cardoso, está disponível num site pornô (Foto: Reprodução)

Tolerância (2000)
Drama produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre, com distribuição da Columbia Tristar. No elenco, Maitê Proença, Werner Schünemann, Roberto Bomtempo e Maria Ribeiro. A trama envolve conflitos conjugais, política e desejos não ditos — o sexo é um tema, mas longe de definir o filme como erótico. Visualizações computadas: 5,5 milhões – De longe o filme mais visto na plataforma.

Entre Lençóis (2008) – Disponível no Globoplay
Drama romântico com forte apelo sensual, centrado em uma única noite entre dois desconhecidos que se encontram em um motel. Protagonizado por Reynaldo Gianecchini e Paolla Oliveira, com direção de Gustavo Nieto Roa. Visualizações computadas: 1,9 milhão

Perdoa-me por Me Traíres (1980)
Adaptação da peça homônima de Nelson Rodrigues, com direção de Braz Chediak. O elenco conta com Rubens Corrêa (1931-1996), Lídia Brondi, Vera Fischer e Nuno Leal Maia. A abertura traz “Te Perdoo”, de Chico Buarque, na voz intensa de Gal Costa (1945-2022). Visualizações computadas: 2,5 milhões

Memórias Póstumas (2001)
Versão cinematográfica do clássico “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. Dirigido por André Klotzel, o longa conta com Reginaldo Faria, Sônia Braga, Marcos Caruso e Petrônio Gontijo. A produção foi laureada com cinco Kikitos de Ouro no Festival de Gramado, incluindo melhor filme pelo júri e pela crítica. Visualizações computadas: 210 mil

Dona Flor e Seus Dois Maridos (2017) – Disponível na Netflix
Remake do clássico nacional de Bruno Barreto exibido em 1976, e que foi campeão de bilheteria naquele ano. Desta vez, com Juliana Paes, Marcelo Faria e Leandro Hassum. Comédia dramática baseada no romance de Jorge Amado (1912-2001), mantém o tom sensual, mas suaviza em comparação com a versão original. Visualizações computadas em outras plataformas: 434 mil

O Bom Marido (1978) –
Pornochanchada dirigida por Antonio Calmon, com Nuno Leal Maia, Paulo César Pereio (1940-2024) e Maria Lúcia Dahl (1941-2022). Um exemplar típico do cinema popular da época, que mesclava erotismo, humor e crítica social velada. Visualizações computadas: 1,8 milhão.

Paulo César Pereio e Maria Lucia Dahl em “O Bom Marido”, filme hospedado no VK (Foto: Reprodução)

Espelho de Carne (1984) – 
Filme de Luiz Carlos Fontoura, baseado na peça de Vicente Pereira — que, aliás, desaprovou a adaptação. Com Dennis Carvalho, Maria Zilda, Daniel Filho e Joana Fomm no elenco, a obra estreou em 1985 em 35mm. Recebeu o Prêmio Especial Air France e foi indicada a melhor filme no Festival de Gramado (1985) e no Fantasporto, em Portugal (1987). Recentemente foi relançada e reexibida de forma especial nos cinemas e nem assim foi contemplada com uma plataforma oficial. Visualizações computadas: 470 mil.

“Espelho de Carne”. Filme protagonizado por Dennis Carvalho e Daniel Filho, só pode ser vista em plataformas alternativas (Foto: Reprodução)

Outros conteúdos

Além desses filmes, outras preciosidades vagam pela internet: uma entrevista de Zé do Caixão com Zé Ramalho, originalmente exibida pelo Canal Brasil, pode ser vista no mesmo site pornô.

É como se parte do acervo cultural brasileiro estivesse literalmente escorrendo pelo ralo digital — entre o esquecimento e a falta de curadoria. Outros sites e redes de compartilhamento improvisado acabam desempenhando o papel de um museu anônimo, mantido por indivíduos apaixonados, que resistem à ideia de que apenas o que é visível nas vitrines globais tem valor.