*por Rodrigo Otávio
Foi-se o tempo em que a Globo investia generosamente para celebrar seus aniversários. Em décadas passadas, datas redondas como 20, 30 ou 40 anos de história eram marcadas por campanhas impactantes, peças publicitárias grandiosas, vinhetas emblemáticas e projetos especiais que mobilizavam quase toda a estrutura da emissora. Cada marco era tratado como um verdadeiro evento — afinal, celebrar a própria trajetória também era, de certa forma, reafirmar o papel da emissora na vida do país. Mas os tempos mudaram. A Globo que chega aos 60 anos em 2025 é outra. Ainda muito rica e poderosa, claro, mas com um resignado pé no freio. O tom geral da comemoração deste ano parece menor e mais contido. Faltou ousadia a uma empresa que, no passado, já foi sinônimo de espetáculos televisivos memoráveis para celebrar a si. Os grandes lançamentos que coincidiam com datas históricas parecem ter ficado presos à memória.

Vinheta dos 40 anos da Globo, de 2005 (Foto: Reprodução)
Em vez de um projeto inovador ou de um conteúdo inédito e ambicioso, o principal símbolo da celebração de seis décadas de existência foi o lançamento do remake de “Vale Tudo”, um clássico da dramaturgia. Embora o projeto conte com investimentos visivelmente maiores que as outras produções da faixa — como a viagem a Foz do Iguaçu para gravações iniciais —, a escolha de um remake, por si só, revela uma opção pela segurança. É uma homenagem, sim, mas também uma aposta pouco arriscada.
A coincidência chama atenção: em 2005, quando a Globo completava 40 anos, duas novelas da casa — “América” e “Belíssima” — também apostaram em viagens internacionais para fortalecer suas narrativas, a primeira para os Estados Unidos e, a segunda, para a Grécia. Havia um espírito de celebração no ar, traduzido em altos orçamentos, elencos estrelados e uma programação que queria marcar época. Hoje, a comemoração parece mais interna, voltada aos próprios corredores da emissora.
Essa percepção se reforça com os programas que ganharam “roupagens comemorativas”. O “Globo Repórter ” apresentou uma edição especial sobre como era fazer televisão em 1965, ano de fundação da emissora. Outros programas como “É de Casa”, “Bom Dia Sábado” e o “Domingão com Huck” também dedicaram espaço às memórias da televisão — este último, focado nos programas de auditório que marcaram época. A volta do “Vídeo Show”, ainda que pontual, foi mais uma peça nostálgica nesse tabuleiro. O “Mais Você” fez tipo um reality para o bolo de aniversário da TV.

Reality ‘Bolo de Aniversário da TV Globo’ do ‘Mais Você’ (Foto: Reprodução/Globo)
A pergunta inevitável, então, é: a quem esse conteúdo realmente atinge ou seduz? A impressão é que as homenagens foram pensadas para os chamados “arqueólogos da televisão” — críticos, estudiosos e apaixonados pela história da telinha. É uma festa marcada pela metalinguagem, voltada para quem entende os bastidores, para quem se emociona com bastidores e arquivos. Mas e o grande público? Vai ser brindado com uma novela escrita por um medalhão? Com uma super produção de época? Com o lançamento de um programa novo? Não.
Enquanto isso, as três novelas no ar tiveram inserções comemorativas: em “Garota do Momento”, Roberto Marinho (1904-2003) foi retratado por Tony Ramos; “Volta por Cima” exibiu seu último capítulo com um desfecho especial; e em “Vale Tudo”, a icônica vilã Odete Roitman Débora Bloch apareceu ontem, dia 28. No “Fantástico”, uma nova abertura. Gestos simbólicos, sem dúvida, mas que empalidecem diante do que a própria Globo já realizou.
No passado, a emissora era conhecida por vinhetas comemorativas marcantes. Em 1990, por exemplo, a campanha “Não tem pra ninguém, a Globo 90 é nota 100” celebrava os 25 anos com orgulho escancarado.
Quinze anos depois, em 2005, a vinheta “Diga Bom Dia” virou jingle nacional e a logomarca da emissora foi repaginada, circulando de forma ajustada por toda a grade. Havia uma identidade visual própria, um discurso claro e uma vontade de marcar o tempo.
Além disso, as minisséries também desempenhavam um papel central nessas celebrações. Em 2000, quando o Brasil comemorava 500 anos de descobrimento e a Globo seus 35 anos, “A Muralha” foi uma superprodução marcante. Produzida com alto orçamento e apuro técnico, a série era ao mesmo tempo um retrato histórico e um símbolo do poder criativo da emissora. Minisséries de início de ano eram, aliás, comuns nesses ciclos comemorativos. Em 2025, no entanto, não houve sequer o cuidado de criar uma nova logomarca comemorativa para os 60 anos. Em seu lugar, a Globo optou por utilizar, de forma episódica, a identidade visual dos 100 anos do Grupo Globo — o que acabou gerando confusão no público: afinal, quem está de aniversário? A Globo ou o conglomerado?

Vinheta e logo celebrativo dos 25 anos da Globo (foto: Reprodução/Globo)
Tudo isso reforça a sensação de que a festa parece ter sido feita para dentro, voltada a seus próprios profissionais, especialistas e fãs devotados da história da TV brasileira. Para o grande público, sobrou pouco. E o que deveria ser uma festança virou um “bolinho” — servido às pressas, só para não deixar a data passar em branco.
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