Fernanda Arraes vive ascensão meteórica no audiovisual, grava na Tailândia e estreia filme em Cannes


Em pouco mais de um ano de carreira, a atriz Fernanda Arraes após estrear no cinema quase por acaso, vai ao Festival de Cannes com o longa “Deixa-me Viver”, a ser exibido no prestigiado Marché du Film. Radicada nos Estados Unidos desde a adolescência, a artista também gravar na Tailândia a franquia “Skyline”, interpretando uma americana praticante de muay thai. Em Cannes, ela destaca a importância do protagonismo feminino e do atual momento de visibilidade do cinema brasileiro no cenário internacional

*por Vítor Antunes

Uma atriz que, em um ano e quatro meses de carreira, conseguiu gravar um filme com grandes nomes das artes, “Deixa-me Viver” , rodar outro na Tailândia vivendo uma americana e chegar a Cannes. Essa ascensão meteórica é o que compõe a vida de Fernanda Arraes, cuja trajetória surgiu da maneira mais despretensiosa possível: ela foi levar o filho a um teste para uma audição — e acabou sendo ela própria chamada a fazer o trabalho. “Cheguei jovem aos Estados Unidos, fiz o high school, faculdade, depois casei e me mudei para Miami e tive meu filho. Fui ser mãe integral. Meu filho estava com aula de teatro na escola e eu tinha a experiência de ter feito teatro no Brasil. Fui levá-lo para o teste, e a produtora me convenceu a fazer também. Acabei sendo eu a aprovada. Deus, quando escreve as coisas, não tem jeito”.

Eu coloquei o pé. Deus colocou o chão. Então eu só acreditei em mim e as coisas foram acontecendo. Só aceitei que foi Deus quem me escolheu e capacitou. Claro que trabalhei firme — Fernanda Arraes

Fernanda Arraes com Humberto Martins em gravação de “Deixe-me viver” (Foto: Divulgação)

Fernanda poderá ser vista no longa Deixa-me Viver, escrito e protagonizado por Mônica Carvalho, que tem como tema central a ortotanásia — a morte natural, no seu tempo certo, sem interferência artificial para antecipar (eutanásia) ou prolongar (distanásia) o processo. O filme será exibido no Marché du Film, no dia 20, em uma mostra em Cannes. “Vamos poder realmente estar ali falando do cinema brasileiro, que agora está no auge, em evidência. E poder estar nesse momento em Cannes com Deixa-me Viver, tocando em temas tão importantes, é fundamental. Para mim, é a mensagem desse filme: a vida após o diagnóstico. É você decidir realmente viver depois do diagnóstico, porque a maioria das pessoas decide se abandonar.”

Sobre a ortotanásia, ela opina: “É uma decisão pessoal. A personagem decidiu não passar por cuidados paliativos — essa é uma escolha difícil. Aqui nos Estados Unidos é um tema que está sempre sendo discutido, já há leis que amparam. Acho que é algo que tem que ser muito discutido ainda, mas, obviamente, se a Justiça libera. É caso muito extremo — há de ter uma motivação grande. Vamos ver como vai ser a reação do público. Com certeza há milhões de brasileiros passando por isso nesse momento, e esse filme vai chegar até eles, que poderão refletir e ser impactados.”

Fernanda Arraes, Humberto Martins e Mônica Carvalho integram o elenco de “Deixe-me Viver”, longa que aborda a ortotanásia (Foto: Divulgação)

Fernanda conta que o trabalho como atriz chegou por acaso. “Eu trabalho aqui também, tenho uma empresa voltada para edificações e sempre trabalhei com finanças. Eu estava pronta para fazer outra coisa, porque a minha empresa já, graças a Deus, deu certo.”

Eu tenho muito apoio da minha família e poder estar lá em Cannes, com a nossa obra sendo exposta no maior lugar do cinema mundial é algo que me inspira — Fernanda Arraes

A atriz estará em mais um filme rodado na Tailândia: a franquia Skyline. “Vou contracenar com Scott Erikson, que é um ator de Hollywood maravilhoso. Vou interpretar uma mulher que luta muay thai, esporte que eu pratico há quatro anos. A personagem é americana”. A questão do sotaque nunca foi um problema para Fernanda. “Eu moro aqui desde que tenho 14 anos”, frisa”.

Imigrante desde a adolescência, Fernanda diz que o ambiente nos Estados Unidos hoje não é exatamente amigável e que a instabilidade gerada pelo presidente Trump corrobora essa situação. “Eu sou segunda geração de imigrantes. Minha mãe enfrentou coisas que eu fui poupada, e meu filho não vai passar por o que eu passei. A minha família é mineira, de Governador Valadares. Sou cidadã americana, mas eu ainda tenho familiares que passam pelo que o Trump está fazendo. Estão todos com medo.”

Inclusive agora, na Copa, eu escutei muitos —-mas muitos — brasileiros falando que estão com medo de ir aos jogos, que vão ficar quietinhos em casa, porque acham que vai acontecer alguma coisa. É um temor. Trump mudou as regras da imigração: só o policial de imigração tem o direito de prender um imigrante, mas ele quer que qualquer policial de rua possa prender, quer que qualquer pessoa tenha o direito de pedir seu documento do nada — Fernanda Arraes

A atriz estará em mais um filme rodado na Tailândia: a franquia Skyline

COMUNICADORA

Nas redes sociais, Fernanda Arraes já beira os 200 mil seguidores. O conteúdo que ela disponibiliza é sempre intuitivo e natural. “Eu vou postando o meu dia a dia, a minha vida mesmo. Nada muito programado. No momento estou indo com o flow e está funcionando. Ainda não sofri hate, mas eu trabalho isso no meu psicológico. Quando a gente decide se expor, temos que estar prontos tanto para o elogio quanto para a crítica — as pessoas vão olhar com o seu olhar e vão saber exatamente de onde você está vindo, com aquela intenção, com aquele comportamento, com aquele post. Eu vivo momentos incríveis e vou postando a minha vida”. Fernanda almeja gravar novelas e séries em breve.

Para a atriz, este é o momento do protagonismo feminino. “Começando com a Fernanda Torres, que estava nos representando no ano passado — isso mostra a força do protagonismo da atriz brasileira. Eu acho que nós, mulheres, conquistamos um espaço muito importante, não só dentro da televisão. Fico muito feliz de saber que as mulheres estão cada vez mais sendo protagonistas, produzindo filmes, sendo diretoras, realmente fazendo acontecer. Agora, pelo menos, a gente está conseguindo levantar essa bandeira e uma está tentando apoiar a outra — o que é uma coisa que falta muito nessa comunidade. Acho que as mulheres estão se apoiando mais dentro da própria indústria, e isso é muito importante.”

Empresária, imigrante, mãe, lutadora de muay thai e agora estrela em ascensão, Fernanda não cabe em uma só definição. Cabe, isso sim, em Cannes. Cabe nas telas da Tailândia. Cabe nos 200 mil seguidores que acompanham uma vida que ela posta sem filtro e sem script. E cabe, sobretudo, naquela frase que ela mesma cunhou com a precisão de quem viveu cada palavra: eu coloquei o pé. Deus colocou o chão. O resto — como ela bem sabe — é história que ainda está sendo escrita.