*por Vítor Antunes
“Dez entre dez brasileiros preferem… feijão!”. O verso, assinado por Gonzaguinha e eternizado na gravação irreverente das Frenéticas, foi mais do que um jingle de sucesso: tornou-se senha de acesso para uma mudança estratégica na dramaturgia da Globo. Em 1979, a emissora decidiu testar uma nova linguagem no horário das 19 horas e apostou em sua primeira novela explicitamente humorística. O resultado foi “Feijão Maravilha”, produção que agora passa a integrar o catálogo do Globoplay.
Estrelada por Lucélia Santos e Stepan Nercessian, e exibida entre 19 de março e 4 de agosto de 1979, a novela marcou um ponto de inflexão não apenas para a faixa das sete, mas também para a trajetória de Stepan, que vinha de papéis mais convencionais. Ele se recorda do projeto afetuosamente: “Eu tenho muita consideração, muita estima por ela. A proposta era escandalosamente interessante, de fazer uma viagem entre o passado e o presente, ressuscitando personagens e trazendo personalidades como Adelaide Chiozzo (1931-2020), Eliana Macedo (1926-1990), Ivon Curi (1928-1995), José Lewgoy (1920-2003), Walter D’Ávila (1911-1996), Older e Olney Cazarré , Maria Cláudia… Foi assim um momento muito feliz da minha vida”.
A mistura improvável entre futebol, música popular, sátira política e memória afetiva da chanchada deu o tom da narrativa. Não por acaso, Zico e Sócrates (1954-2011) — então no auge da popularidade — fizeram participações especiais, reforçando o diálogo da novela com o Brasil real.
Lucélia Santos, também protagonista destacou suas melhores lembranças da trama. “As lembranças maiores que tenho de “Feijão Maravilha” são do elenco genial que a compunha. Grande Otelo, Ivon Curi, Eliana Macedo e Adelaide Chiozzo, Stepan… Todo o cinema brasileiro de uma geração de estúdios importantes da época da chanchada estava ali. Foi muito aprendizado muito bonito, verdadeiramente glorioso. Sou grata por essa novela na minha carreira na TV”

Lucélia Santos e Stepan Nercessian em “Feijão Maravilha” (Foto: Nelson di Rago/Globo/Recuperada e tratada por iA)
“Feijão Maravilha” também se destacou pelo elenco que reunia nomes deslocados no tempo da própria televisão. Foi a estreia em novelas dos irmãos Older e Olney Cazarré, vindos da TV Tupi, num momento em que a Globo ainda assimilava profissionais oriundos da emissora extinta. Mais do que isso, a trama entrou para a história como a única novela integralmente realizada pelo ator e cantor Ivon Curi e pelo ator e comediante Walter D’Ávila.
O caso de Eliana Macedo talvez seja o mais emblemático. Musa absoluta da Atlântida nos anos 1940 e 1950, ela estava praticamente afastada da vida artística desde 1964. Depois disso, suas aparições tornaram-se cada vez mais esporádicas no teatro, no cinema e na televisão. “Feijão Maravilha” foi, inclusive, sua única novela. Após esse trabalho, Eliana voltou ao recolhimento que marcaria seus últimos anos, até falecer em 1990. Na trama, contracenava com Adelaide Chiozzo, outro ícone da Atlântida, que também fazia ali sua estreia em novelas. Anos depois, Adelaide voltaria a atuar em uma produção televisiva apenas em Deus nos Acuda, de Silvio de Abreu, exibida em 1992.
A novela também representou um marco nos bastidores. Feijão Maravilha foi a primeira produção dirigida por Paulo Ubiratan (1947-1998) na Globo. Até então, ele havia trabalhado como assistente de direção em O Pulo do Gato, de Bráulio Pedroso (1931-1990), e em Sinal de Alerta, de Dias Gomes (1922-1999), onde também exerceu a função de produtor. A partir da década de 1980, Ubiratan se consolidaria como um dos diretores mais influentes da emissora, responsável por estabelecer uma gramática visual própria para a teledramaturgia popular.

José Lewgoy era o vilão de “Feijão Maravilha” (Foto: Nelson di Rago/Globo/Recuperada e tratada por iA)
A recepção positiva de “Feijão Maravilha” serviu como sinal verde para que a Globo investisse definitivamente na comédia como linguagem dominante das sete. Curiosamente, foi também a estreia de Bráulio Pedroso nesse horário, depois de não ter obtido o mesmo êxito com O Pulo do Gato, sua última novela exibida às 22 horas. Ao apostar no humor, na colagem de referências e no espírito carnavalesco, a emissora encontrava, talvez sem perceber de imediato, um formato que se tornaria sua marca registrada por décadas.
Acho que o Braulio Pedroso é pouco lembrado pela importância que ele tem. Era, além de um grande amigo, um artista genial – Stepan Nercessian
A primeira música de Gonzaguinha gravada pelas Frenéticas foi “A Felicidade Bate à Sua Porta”. O sucesso foi imediato, desses que parecem inaugurar uma espécie de pacto silencioso entre compositor e intérpretes. A partir dali, viria a canção que acabaria servindo de abertura para a novela das 19 horas, selando uma associação improvável entre samba, humor televisivo e dramaturgia popular.

Eliana Macedo e Adelaide Chiozzo em “Feijão Maravilha” (Foto: Nelson di Rago/Globo/recuperada e tratada por iA)
A história da música, contada por Sandra Pêra, das próprias Frenéticas, guarda algo de cena doméstica e improviso afetivo, tão distante do cálculo industrial que hoje rege as trilhas de novelas. “Depois da ‘Felicidade’, Gonzaguinha apareceu lá em casa. Chegou tímido e falou: ‘Como vocês me deram sorte, eu queria trazer outra música.’ Morávamos eu, Regina e Lidoca [cantoras do grupo], aqui no Leblon. Não tínhamos móveis, só almofadas no chão. Ele sentou na almofada, sem violão, sem nada, e disse: ‘Fiz uma música pensando em você.’ E cantou ‘Dez entre dez brasileiros preferem feijão’.”
A canção, despretensiosa e espirituosa, acabou se tornando um dos símbolos mais duradouros de Feijão Maravilha. Stepan Nercessian, um dos protagonistas da trama, costuma apontar a abertura como uma de suas melhores lembranças do trabalho. “A abertura com música de Gonzaguinha e as Frenéticas cantando era muito legal. Para mim, ela sempre foi uma das novelas que eu tive o maior prazer em fazer na minha vida.”

Stepan Nercessian em “Feijão Maravilha” (Foto: Nelson di Rago/Globo/recuperada e tratada por iA)
Havia também ali uma pequena revolução formal. Contrariando a prática corrente, os créditos — nomes de atores, autor e diretor — não surgiam em letreiros convencionais, mas escritos em cartazes empunhados por mulatas, num jogo de ironia e autocelebração que dialogava tanto com o carnaval quanto com a estética das chanchadas. Entre uma imagem e outra, surgiam ainda ações explícitas de merchandising: a cerveja Antarctica e a indústria de fósforos Fiat Lux apareciam sem disfarces, integradas à coreografia da abertura como se fossem parte do espetáculo.
Curiosidades
A crítica especializada recebeu Feijão Maravilha com reservas desde o início. No Jornal do Brasil, Maria Helena Dutra adotou inicialmente um tom de dúvida cautelosa. “Pode ser que dê tudo errado, mas a perspectiva indica saudáveis maluquices”, escreveu. Em maio, no entanto, a avaliação se tornaria mais cortante: “Foge da rotina, mas é ruim de ritmo.” Ainda assim, a crítica reconhecia a “ideia louvável” de introduzir uma comédia em um horário até então dominado por “romances tolos e enredos sem inspiração”.

Ivon Cury estreou em “Feijão Maravilha” (Foto: Nelson di RAgo/Globo/tratada e recuperada por iA)
Ao final da novela, Maria Helena manteve sua opinião, classificando a trama como fraca. O crítico do Fluminense foi ainda mais direto, reiterando que Feijão Maravilha havia sido uma tentativa frustrada de renovação. Mauro Costa batizou a produção de “insosso Feijão Maravilha”. Nos bastidores, as queixas também existiram. Adelaide Chiozzo declarou, ao fim da exibição, que a novela “começou bem, mas caiu no final”. Renato Murce, radialista e marido de Eliana Macedo, foi ainda mais ácido ao comentar as condições de produção: disse que “nem roupas básicas elas [Adelaide e Eliana] receberam”.
Apesar disso, a novela deixou marcas importantes. Lucélia Santos, por exemplo, criou a caracterização de sua personagem inspirada em Carlitos, o célebre personagem de Charles Chaplin. Em algumas cenas, ela chega a reproduzir o andar característico do personagem. “Durante a novela”, conta o pesquisador e fundador do Arquivo Lucélia Santos, Aladim Miguel, “ela caiu no teatro, onde estava fazendo ‘Lola Moreno’, também do Bráulio Pedroso, e trabalhou de bota ortopédica. Em algumas cenas dá para perceber ela mancando. A direção então colocou um balcão na recepção do hotel onde se passava a novela para disfarçar e só filmavam meio corpo”. A música-tema da personagem era “Smile”, presente tanto na trilha nacional quanto na internacional da novela, composição emblemática de Chaplin. Aladim lembra ainda que “aquele número musical final, inspirado nas chanchadas, em que eles refizeram a abertura com a personagem dela grávida puxando o elenco, também foi um impacto na época”.
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