*por Rodrigo Otávio
Premiações de televisão costumam caminhar por uma trilha conhecida: a da autocelebração. É quase uma regra não escrita do setor. A emissora produz, a emissora exibe e, no fim do ano, a emissora premia a si mesma. Raras são as iniciativas que tentam olhar para o conjunto da televisão brasileira. Nesse quesito, o “Troféu Imprensa”, do SBT, talvez tenha sido o que mais se aproximou de uma vocação generalista. Ao longo de sua história, a premiação circulou por diferentes casas — já passou pela TV Globo, pela TV Tupi e pela Record — até se fixar definitivamente no SBT, onde virou uma espécie de instituição televisiva, e premiou várias emissoras – ainda que a edição de 2025 tenha sido alvo de críticas.
Já o “Melhores do Ano”, atualmente exibido no “Domingão com Huck” sempre teve outra natureza. Desde o início, assumiu sem constrangimento o papel de olhar para dentro e premiar aquilo que se destacou na própria Globo. Não há exatamente um problema nisso — toda empresa tem sua confraternização de fim de ano. O que transforma a cerimônia em alvo recorrente de críticas é o fato de que, mesmo sendo uma “festa da firma”, ela frequentemente deixa de reconhecer parte do que a própria casa produziu de mais relevante.

Elenco de “Garota do Momento” (Foto: Divulgação/Globo)
Nos últimos anos, essa contradição se tornou mais evidente. O prêmio, historicamente criticado por contemplar apenas produções da Globo, passou a ser contestado por um motivo diferente: a fragilidade de suas indicações. Em algumas categorias há cinco finalistas; em outras, curiosamente, justamente as ligadas à dramaturgia, um dos pilares históricos da emissora aparecem comprimidas em três indicações. Há ainda as sub-representadas. Novelas e séries, que ocupam boa parte da engrenagem criativa da Globo, acabam com um espaço menor do que seria razoável. A incoerência aparece logo na categoria de novela. Uma das ausências notáveis é a de “Guerreiros do Sol“, produção do Globoplay que estreou em 2025 e teve forte repercussão entre crítica e público. A exclusão chama atenção especialmente porque a obra foi reconhecida como melhor novela do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). No “Melhores do Ano”, no entanto, ela sequer aparece entre as indicadas.
No caminho inverso, “Garota do Momento“ surge como finalista apesar de ter estreado apenas em novembro de 2024. Trata-se de uma produção elogiada, sem dúvida, mas cuja presença levanta dúvidas sobre o próprio critério temporal da premiação. A indicação de “Vale Tudo”, por sua vez, faz sentido em termos de repercussão — ainda que a qualidade da adaptação tenha dividido opiniões. Nesse cenário, tanto “Guerreiros do Sol” quanto “Dona de Mim” poderiam ocupar, com mais coerência, o espaço dado a “Garota do Momento”.

Odete Roitman, vivida por Débora Bloch em ‘Vale Tudo’ (Foto: Acervo/Globo).
O mesmo raciocínio vale para as categorias de atuação. Se “Garota do Momento” aparece entre as novelas lembradas, causa estranhamento a ausência de Carol Castro entre as indicadas. Também chama atenção a falta de Sophie Charlotte, que tem desempenho marcante em “Três Graças”. Já a presença de Taís Araujo, apesar de sua relevância histórica na emissora, parece menos justificável diante do desenvolvimento irregular da personagem Raquel — um arco narrativo que chegou a gerar questionamentos internos e reclamações ao setor de compliance da Globo.
Outro detalhe curioso é a dupla indicação de Pedro Novaes, lembrado tanto por “Garota do Momento” quanto por “Três Graças”. A coincidência se torna ainda mais pitoresca quando se observa que seu pai, Marcello Novaes, também aparece entre os indicados, graças a “Dona de Mim”. A televisão brasileira sempre gostou de dinastias — mas raramente elas se materializam com tanta literalidade numa mesma lista.
Há ainda um ponto estrutural: a ausência de uma categoria dedicada aos documentários originais do Globoplay. Nos últimos anos, a plataforma produziu títulos relevantes, como “Caçador de Marajás“ e “Cazuza – Além da Música“, que sequer entram no radar da premiação por falta de espaço formal. A lacuna fica ainda mais evidente quando se considera o impacto de “O Testamento: O Segredo de Anita Harley” agora em 2026. Talvez seja o caso de a Globo repensar essa arquitetura para a premiação de 2027, que premiará as obras lançadas no ano anterior.

Paulo Silvestrini e Taís Araújo gravam ‘Vale Tudo’ em Foz do Iguaçu
Entre tantas inconsistências, a categoria “Revelação do Ano” acaba sendo a que mais se aproxima de um retrato fiel da temporada. Nela aparecem nomes que, de fato, chamaram atenção ao longo do último ano na dramaturgia da emissora: Alana Cabral, Belo e Gabriela Loran por “Três Graças”; L7nnon por “Dona de Mim”; além de Ricardo Teodoro por “Vale Tudo”.
No início deste texto, mencionamos o Troféu Imprensa, talvez a mais longeva das premiações televisivas brasileiras ainda em atividade. Criado em 1958 e eternizado sob o comando de Silvio Santos, o prêmio construiu ao longo das décadas a imagem de uma espécie de tribunal simbólico da televisão nacional. A ideia, ao menos em tese, era simples: reunir jornalistas e personalidades da mídia para avaliar o que de melhor havia sido produzido no país — independentemente da emissora.
Na prática, contudo, a história do “Troféu Imprensa” sempre conviveu com pequenas ironias. Durante os anos em que foi apresentado por Silvio Santos, o prêmio frequentemente era alvo de questionamentos sobre sua própria dinâmica. Houve episódios que entraram para o folclore televisivo. Em certa ocasião, por exemplo, o cantor Daniel foi convidado a ajudar a escolher os jurados justamente da categoria em que ele próprio concorria. Em outras, o próprio Silvio acabou eleito o melhor apresentador ou animador da televisão brasileira — detalhe: enquanto comandava a cerimônia que o premiava.

Sílvio Santos apresentava o “Troféu Imprensa” (Foto: Reprodução)
Essas situações nunca chegaram a comprometer de fato um certo prestígio da premiação, mas ajudaram a consolidar a percepção de que, por trás do verniz institucional, havia também um certo espírito de espetáculo — algo que sempre fez parte do DNA do SBT. A edição mais recente do prêmio, realizada após um período de hiato, parecia tentar reforçar justamente a vocação plural que historicamente lhe foi atribuída. A cerimônia contou com produções e artistas ligados a diferentes plataformas e emissoras, num gesto de abertura que, à primeira vista, recolocava o Troféu Imprensa no lugar de observador amplo da televisão e do audiovisual brasileiros. Mas o resultado final acabou provocando novas dúvidas.
Em algumas categorias, a vitória de produções ligadas ao próprio SBT soou, no mínimo, discutível. Um exemplo emblemático foi o prêmio concedido ao documentário “Silvio Santos – Vale Mais do que Dinheiro”, produzido para a plataforma +SBT. A produção saiu vencedora mesmo concorrendo com “Pra Sempre Paquitas“, série documental do Globoplay que teve repercussão muito mais ampla — tanto em audiência quanto em debate público. Não se trata necessariamente de questionar os méritos do documentário sobre Silvio Santos, figura central na história da televisão brasileira. Mas a comparação entre os impactos culturais das duas produções torna o resultado, no mínimo, curioso. Mesmo partindo de uma premissa mais universal, o “Troféu Imprensa” parece ter sucumbido, em sua última edição, ao mesmo vício frequentemente atribuído a outras premiações televisivas. A lógica da celebração interna. Aquilo que, em tom meio jocoso, costuma ser chamado no meio televisivo de “festa da firma”.
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