*por Vitor Antunes
Fafy Siqueira é, sem dúvida, um dos grandes nomes do humor brasileiro — mas sua trajetória vai muito além das gargalhadas. Pouco conhecida do grande público é sua faceta como cantora e compositora, embora ela reúna, há décadas, talento e sensibilidade também na música. Artista de múltiplas linguagens, Fafy retorna agora aos palcos com a peça “O Palhaço Tá Sem Graça”, um espetáculo que explora seu lado de cantora e, sobretudo, de clown, mergulhando na delicada fronteira entre o riso e a dor. A montagem aborda um tema que tem ganhado maior visibilidade nos últimos tempos: a tristeza silenciosa que muitas vezes habita os comediantes. “A peça trata da tristeza de um palhaço. São dois personagens — e um deles entra em depressão ao reviver um trauma da infância. O outro, que eu interpreto, tenta ajudá-lo a sair desse estado. Esse enredo toca num ponto muito sensível e real: a ideia de que, por trás da alegria aparente, há muitas vezes um peso, uma melancolia. Ser palhaço é uma profissão, com responsabilidades. E há dias em que precisamos fazer o público rir mesmo quando, por dentro, estamos em pedaços”, explica Fafy. O espetáculo, portanto, não apenas diverte, mas convida à empatia, à reflexão e ao reconhecimento da humanidade por trás da máscara cômica.
Costumo dizer que todos os humoristas são, de certa forma, palhaços — e temos muito orgulho disso. Existe um mito de que humoristas são mal-humorados, e alguns realmente são. Mas, em minha experiência, a grande maioria é bem-humorada. Tive o privilégio de trabalhar com grandes ídolos, que considero a Santíssima Trindade do humor brasileiro: Castrinho, Ronald Golias e Moacyr Franco. Foram mestres para minha geração – Fafy Siqueira

Fernando Vieira e Fafy Siqueira estreiam peça sobre a vida de um palhaço acometido por depressão (foto: Divulgação)
Além do teatro, Fafy também chama atenção para uma lacuna significativa na cultura televisiva brasileira: a escassez de programas de humor na TV aberta. “É uma das coisas que mais reivindico. Vivemos um momento com muitos talentos jovens despontando no humor, mas faltam espaços consistentes, formatos variados e programas que abracem essa nova geração. Sinto falta da pluralidade que existia antes”, comenta. Ela não economiza elogios ao citar nomes que admira profundamente: “Sou fã da Cacau Protásio, da Evelyn Castro, da Samantha Schmütz, do Lúcio Mauro Filho, do Bruno Mazzeo, do Marcelo Adnet… são talentos incríveis, com quem tenho uma ótima relação. Essa nova geração merece visibilidade.”
Com sua característica energia criativa, Fafy ainda planeja novos voos. Entre os projetos, está o início de uma série de palestras motivacionais por diversas regiões do Brasil. “Essas palestras têm como foco a importância do bom humor no cotidiano. E é importante diferenciar: ter bom humor não é ser humorista. É uma postura diante da vida, uma forma de atravessar os desafios com leveza e dignidade.” Além disso, ela está envolvida na produção de uma nova canção de sua autoria, com direção musical de Sandra Sá. O single já conta com participação confirmada de Xande de Pilares, e outros nomes estão sendo convidados para integrar o projeto.
Ao rememorar momentos marcantes de sua trajetória, Fafy relembra com carinho os anos em que dividiu a cena com grandes humoristas. “Trabalhei com muitos comediantes bem-humorados, especialmente em A Praça é Nossa. Era um ambiente leve, de pura diversão. Atuei ao lado de nomes como Geraldo Alves (1934-1993) , Lilico (1937-1998) e o inesquecível Rony Rios (1936-2001), com sua Velha Surda. Já na Escolinha, percebi um elenco mais cansado, menos vibrante. Não digo que eram mal-humorados, mas havia uma diferença clara na energia do grupo em relação à ‘Praça’.”

Fafy Siqueira irá viajar o Brasil como palestrante neste ano (Foto: Divulgação)
MARCANDO UM X
Um dos grandes sucessos da discografia de Xuxa, lançado em 1992, foi a canção “Marquei um X”, composta por Fafy Siqueira. Curiosamente, a faixa ganhou notoriedade mesmo integrando um álbum que não teve grande repercussão comercial. Essa, no entanto, não foi a primeira composição de Fafy gravada por Xuxa — no ano anterior, em 1991, a apresentadora já havia lançado “Dança do Paloê”, também de autoria da artista. A relação de Fafy com a música vem de longa data, enraizada em uma cena cultural pulsante que marcou os anos 1970 e 1980, quando ela participava ativamente de festivais ao lado de nomes como Joanna, Sarah Benchimol (compositora e ex-mulher de Joanna) e Sandra Sá.
Era um período em que a canção autoral tinha espaço e importância na formação de novos talentos — algo que, segundo Fafy, faz falta nos dias de hoje. “Seria maravilhoso se houvesse um festival de compositores. Atualmente, há muitos festivais de voz, de cantores, mas não de músicas autorais, como havia até os anos 1970. Eu comecei a participar a partir da década de 1970. Assistia a todos e, por muito tempo, isso orientou meu desejo de ser cantora. Minha intenção sempre foi cantar, apenas isso. Com o fim dos festivais, senti-me um pouco órfã. Minhas amigas, como Joanna e Sandra Sá, começaram a fazer sucesso como cantoras, mas eu não conseguia o mesmo espaço. Não queria cantar em bares ou fazer apresentações noturnas, buscava algo diferente. Foi então que o teatro surgiu na minha vida, e nele encontrei o que realmente me realiza. Boa parte dos espetáculos que faço hoje são musicais”.
A arte de Fafy encontrou no teatro um novo eixo criativo, e é sobre os palcos que ela continua a desenvolver sua potência cênica e musical. Seu trabalho mais recente é um espetáculo que une música, dramaturgia e circo, em parceria com o ator Fernando Vieira. “Neste espetáculo, que se passa dentro de um circo, há números circenses e estamos trabalhando com jovens artistas recém-formados que são, ao mesmo tempo, atores e acrobatas. Todos estão passando por uma preparação diária de oito horas. O convite para o trabalho veio do autor e produtor Daniel Torriedi, que escreveu o personagem pensando em mim. Quando ele me apresentou, eu soube imediatamente que era meu”.

Fafy Siqueira no Popstar, programa que participou como cantora (Foto: Divulgação/Globo)
O musical tem texto de Daniel Torrieri Baldi, direção de Hudson Glauber e trilha sonora original assinada por Thiago Gimenes. A estreia foi no tradicional Teatro Nair Bello, e confirma mais uma vez o compromisso de Fafy com um teatro vivo, híbrido e provocador. Entre os inúmeros momentos marcantes de sua trajetória artística, ela guarda com carinho a lembrança de ter contracenado com ícones da comédia brasileira, tanto no programa “A Praça é Nossa”, quanto no especial “Romeu e Julieta”, no qual viveu a mãe de Ronald Golias.
“Viver aquela experiência foi uma das maiores emoções da minha vida. Fui indicada para participar do especial pelo olhar atento da Hebe Camargo (1929–2012). Eu estava no início da minha carreira no SBT, com poucos meses de casa. Durante uma reunião para escolher quem interpretaria a mãe do Ronald Golias (1929–2005), meu grande ídolo, surgiram vários nomes. Então, Hebe disse: ‘Tem que ser essa moça que acabou de entrar no SBT, a Fafy Siqueira. Ela é a cara do Golias’. E realmente, muitos achavam que eu era filha dele. Fui chamada pelo diretor para o papel e tive a honra de contracenar com nomes como Miele, Nair Bello (1931–2007), Etty Fraser (1931–2018) e Carlos Alberto de Nóbrega. Foi como se eu tivesse tomado um ácido e entrado no reino da fantasia — uma experiência verdadeiramente mágica.”
O talento de Fafy também enfrentou obstáculos. Durante a ditadura militar, sua atuação como compositora a colocou sob o olhar atento da censura. Algumas de suas músicas foram vetadas, mesmo quando escritas para festivais regionais, que cobriam o país de norte a sul.
“Tive várias músicas censuradas. Quando escrevíamos para os festivais, eu concorria em eventos que aconteciam do Maranhão ao Rio Grande do Sul. Esses festivais eram muito populares entre os anos 1960 e 1970. Eu viajava com outras artistas. O Elymar Santos também fazia parte do grupo. Era uma turma muito legal. Na época da ditadura militar, minha mãe tinha receio de que eu me envolvesse com panfletagem. Mas eu nunca fui panfletária. Eu me expressava por meio das minhas músicas. Quando podia mandar uma mensagem, eu mandava — e, às vezes, conseguia burlar a censura e transmitir recados importantes – Fafy Siqueira
A coragem de se expressar por meio da arte é algo que atravessa a obra de Fafy Siqueira — do riso à reflexão, da crítica à ternura. Seu humor é sua linguagem, mas também seu instrumento de resistência.
Transito bem entre a alegria e a tristeza. Não apenas me sinto confortável com essa dualidade, como gosto de interpretá-la. Gosto de provocar gargalhadas, mas também de levar o público à reflexão. Sou uma pessoa bem-humorada — o que é diferente de ser engraçada — e acredito que isso é essencial para a vida – Fafy Siqueira
Esse é o saldo de quem transformou a arte em modo de vida e em canal legítimo de afeto, crítica e liberdade. Fafy Siqueira continua a ser uma artista inquieta, generosa e profundamente conectada ao seu tempo. Seu humor não é apenas entretenimento: é gesto político, é identidade, é arte em estado puro.
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