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Cristiana Oliveira fala sobre personagem em “Terra Prometida” e compara Record com TV Manchete: “Sensação parecida de quando estava começando”

A atriz analisou a relação de sua Mara com a vaidade e falou, ainda, sobre os lados empresária e palestrante. “Apesar de ser o que eu mais gosto de fazer, de ser a profissão que eu amo, a gente não pode depender somente da arte a vida inteira, ainda mais em um momento de crise. Existem muitos obstáculos”

Publicado em 26/07/2016 | Por Karina Kuperman

Foram mais de 20 anos atuando na Rede Globo e, agora, Cristiana Oliveira se prepara para um novo desafio: interpretar uma vilã em “Terra Prometida”, da Rede Record. “Os atores não ficam exclusivos por muito tempo em uma única emissora e eu fiquei 22 anos na Globo. Como movimento de mercado, eles dispensaram muitos artistas que não estavam reservados para nenhuma obra, e essas pessoas voltaram a estar disponíveis. Eu já havia recebido alguns convites da Record antes, mas ainda estava na Globo. Já havia um flerte e, dessa vez, então, fechamos um acordo, em um contrato só por obra”, disse ela. De fato: a paquera já existia há tempo. “Eu tive um encontro informal com o Alexandre Avancini, que é meu amigo há mais de 20 anos e já havia me dirigido na TV Globo. Gostamos muito do trabalho um do outro, e ele me falou, então, de ‘Terra Prometida’, projeto do qual eu gostei muito. Depois fui chamada pela Record para conversar sobre isso e aceitei o convite. Ir pra Record, pra mim, é uma questão de mercado, que está muito mais amplo. Hoje a dramaturgia não se resume apenas a uma emissora – temos pelo menos três, na TV aberta”, analisou.

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(Foto: Ricardo Penna)

Falando na multiplicidade dos canais, Cristiana ficou conhecida ainda antes de ir para a Globo. Como não lembrar da inesquecível Juma, de “Pantanal”, na extinta TV Manchete? “Foi a primeira, eu não entendia nada de televisão, mas havia uma união, um acreditar muito grande quando veio o projeto do ‘Pantanal’. As pessoas estavam encantadas com aquele projeto do Benedito Ruy Barbosa, que havia sido engavetado por muitos anos. Muitos atores não haviam aceitado fazer, mas outros abraçaram esse projeto”, lembrou ela, que foi além: “Ninguém sabia como seria passar meses no meio do mato, indo e voltando, estando longe de família, longe de tudo, dentro de outro universo. Mas as pessoas que toparam bancaram aquilo e isso proporcionava um clima de união muito grande. Dos veteranos aos mais novos, sempre havia muita entrega. E todas as personagens eram incríveis, todas tinham uma densidade muito grande. A gente representava, ali, uma das maiores riquezas do Brasil, e também coisas que eram muito distante da nossa realidade, como aquela população ribeirinha. E o meu personagem foi um presente para mim”, disse ela, que já chegou a declarar que o clima na Record é parecido.

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Cristiana como Juma, de “Pantanal” (Foto: Reprodução)

“Depois de 27 anos de carreira – sendo 22 de Globo – eu fui entrar em outra emissora, que é a Record. Já é outra curiosidade em ver como as coisas funcionam, como é feito o trabalho. Então quando falo da semelhança entre a Manchete e a Record é que percebo essa mesma vontade de que dê certo, que prospere, faça sucesso e as pessoas gostem. Temos um grupo e partilhamos tudo ali: as novidades, notícias sobre a novela ou sobre algum ator… É diferente, não sei explicar, mas é uma sensação parecida daquela que tive quando estava começando, mesmo. E apesar de já estar nessa vida de TV há tantos anos, é uma sensação nova”, explicou ela, que não descarta a possibilidade de retornar à emissora carioca. “Mas quando houver um projeto interessante. Meu contrato é por obra, eu sempre me interesso pela obra na qual estou trabalhando. As portas ficaram abertas, eu não tive problema nenhum com a emissora, muito pelo contrário. Sou extremamente e eternamente grata pela minha história. Não sinto nenhuma diferença de trabalho entre as duas, não”, garantiu.

Apesar disso, não tem como não falar da visibilidade. “Sim, a Globo tem mais pontos em termos de audiência, mas eu me importo mesmo é com o meu trabalho, se estou gostando de fazer aquele projeto, aquela personagem. É isso que me importa. O resto é status, star quality, vaidade. E eu nunca fui uma atriz assim. O importante é estar trabalhando naquilo que gosto, no meu ofício, que eu sempre escolho da melhor forma. E em fazer isso da melhor forma, com o maior profissionalismo possível. Então, para mim, não tem diferença, não. Sou muito grata ao trabalho e visto a camisa de onde estiver trabalhando”, declarou.

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Cristiana é Mara em “Terra Prometida”(Foto: Reprodução)

Falando nisso, Cristiana se desconstruiu para dar vida à vilã Mara, que, apesar dos 40 anos, aparenta ser mais velha pela época. “Então eu a faço sem maquiagem nenhuma e com o cabelo mais branco, mas, por enquanto, sem recursos de próteses pra fazer rugas e coisas do tipo. Na fase do feitiço ela fica muito bonita, saem os cabelos brancos, e tal. E depois ela fica mais velha do que eu faço agora! Mas eu ainda não sei, porque a questão da transformação dela pelos feitiços ainda não aconteceu, então estou esperando receber as cenas para entender melhor o que irei fazer com relação a isso. Por enquanto ainda fica um pouco na minha imaginação, mas acredito que vai ser muito interessante”, adiantou ela, que a vê como uma mulher com “sentimentos atemporais”. “É uma mulher amargurada, pessimista, descrente, questionadora. Uma pessoa obcecada pelo poder, sucesso, juventude”, disse.

E fazer uma nova vilã era um desejo antigo, Cris? “Por ter uma personalidade inversa à minha, é mais interessante porque se torna um desafio. E eu acho que acaba chamando atenção, despertando raiva, ódio, mesmo, por parte dos espectadores. Para nós, atores, é muito interessante. Não estou dizendo que fazer a boazinha, a mocinha de bom caráter não seja interessante, não é isso. E às vezes é mais difícil ainda não deixar uma personagem assim cair num lugar-comum. Pode ser mais difícil do que fazer uma vilã, até. Mas eu adoro fazer vilã, já fiz quatro ao longo da minha carreira: a Adriana, de ‘Salsa & Merengue’, a Alicinha, de ‘O Clone’, a Araci, de ‘Insensato Coração’ e a quarta, agora, com a Mara. Eu acho que o mais interessante é você tentar entender a complexidade dessa personalidade tão distante da minha, a complexidade da mente humana, do comportamento humano, tentar entender porque essas pessoas têm esse tipo de atitude. São coisas que a Cristiana não compreende, mas que para a Mara são absolutamente aceitáveis, porque ela acha que está lutando a todo custo pelo que ela acha certo”, analisou.

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Cristiana como Mara, de “Terra Prometida” (Foto: Reprodução)

Se a personagem lida mal com a questão estética, sua intérprete não é afeita a grandes vaidades – já engordou, emagreceu e pintou os cabelos por papéis marcantes. “A Mara é muito vaidosa, mas, na verdade, não havia recursos para essa vaidade naquela época. A única forma de reflexo que havia ali era o cobre ou a própria água.A vaidade dela é um pouco interna, não sei explicar muito porque ainda estou entendendo isso nela. Quanto a mim, eu já fui muito vaidosa, mas hoje eu não sou mais, não. Estou com 52 anos, acho que estou envelhecendo normalmente, sem plásticas, enfim… Sinto a diferença no meu rosto, mas é normal ter rugas, marcas de expressão, alguma flacidez. Acho que isso faz parte da vivência, mas não é algo que eu me preocupe tanto. Claro que eu não sou uma pessoa desleixada, porque eu me cuido, cuido da minha saúde, da minha alimentação, mas não existe nenhum exagero. Eu tenho cuidados dentro do normal”, comparou.

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(Foto: Ricardo Penna)

Pela primeira vez em uma trama bíblica, Cristiana acredita que o investimento da Record nesse tipo de história é natural. “A emissora é evangélica e, embora eles façam tramas cotidianas, existe um olhar para essa questão bíblica, tanto para o Velho quanto para o Novo Testamento. É um nicho de trabalho e eles o escolheram. Até porque existe um grande público que gosta, que acompanha a história da Bíblia, que quer ver aquilo sendo dramatizado. Tanto que ‘Os Dez Mandamentos’ foi uma história de grande sucesso, tanto a novela na TV quanto a adaptação para o cinema, porque é uma das histórias mais conhecidas do mundo. Talvez a Record tenha escolhido as tramas bíblicas para um dos horários de dramaturgia deles, porque existem muitas histórias para contar, muitas passagens, muitas personagens ricas”, analisou ela, que não interpreta uma personagem histórica. “A Mara não é uma personagem bíblica. Ela foi criada pelo autor e seus colaboradores”, disse. E ela sabe: “tem muita gente que prefere assistir a uma novela bíblica ou a uma trama com outra abordagem, que não seja essa nossa cotidiana, porque se sente descansando da realidade – que não é fácil pra ninguém”.

“Mas eu não tenho como precisar se uma substituirá a outra. Toda história do mundo tem violência – e muita! A meu ver, a diferença é você estar vivendo o momento e presenciando essa violência por ela estar muito perto de você, o que a torna ainda mais angustiante, provocando medo e deixando as pessoas assustadas vendo aquilo que é tão próximo sendo representado. Mas quando você conhece uma história de guerra, uma história bárbara, com violência, mas sabe que aquilo não acontece mais como acontecia, que se deu em outro tempo, é bem diferente de você ver essa guerra civil em estados paralelos que nós temos em muitos lugares no Brasil”, analisou.

Uma atriz privilegiada – afinal, ela própria comemora: viveu personagens para lá de distintos – Cristiana garantiu: é difícil viver de arte no Brasil. Por isso, além da profissão, ela é empresária e dá palestras sobre saúde, bem-estar, autoestima pelo país . “É muito difícil viver de arte. Apesar de ser a coisa que eu mais gosto de fazer, de ser a profissão que eu amo, a gente não pode depender somente dela a vida inteira, ainda mais em um momento de crise. Existem muitos obstáculos. E temos muitos e ótimos atores, inclusive de teatro, que nunca trabalharam na televisão. Eu também tenho um lado empresária e um lado ‘da palavra’ – e isso é muito forte dentro de mim. E eu encontrei nas palestras mais uma forma de trabalho e de procurar fazer bem a essas mulheres que me escutam. Ali, eu posso passar um pouco da minha experiência, das minhas pesquisas e meu conhecimento sobre o universo feminino e, de quebra, do masculino, também. E, então, fazer com que essas mulheres se sintam melhor com a própria vida, que possam tomar um rumo de acordo com suas escolhas, enfim. Eu descobri nisso um trabalho que faço com muito prazer. Então eu tenho o dom da palavra, na verdade. Além de ser jornalista, eu sou uma estudiosa. E acredito que quando surgir um trabalho que eu me identifique muito como atriz, eu vou fazer; mas quando não surgir, existe uma outra coisa que eu amo e também sei fazer”, explicou.

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(Foto: Ricardo Penna)

Já o lado empresária é um investimento em outra área: Cristiana comanda uma loja de roupas femininas casuais e de festas no shopping Downtown ao lado da amiga e sócia Marcia Tasca. “Eu gosto muito, mas nem acho que seja uma coisa para a qual eu viva, entende?! Tanto que a minha sócia e amiga há 15 anos é quem toma a frente de tudo. Mesmo com a crise, nós conseguimos entender o momento, a demanda das consumidoras e encontramos um equilíbrio de preço e qualidade. Está dando tudo certo”, disse.

Pensa que acabou? Pois Cristiana se dedica a outro projeto para lá de especial: uma biografia – feita a quatro mãos com o escritor Cacau Hygino. “Já escrevi uma parte do livro e o Cacau entrou como meu colaborador. Eu não sei ainda quando sai, estou esperando a disponibilidade dele – que, no momento, está terminando a biografia da atriz Zezé Motta. Assim que ele estiver disponível, vamos correr atrás de formatar, ver direitinho o que vai ser escrito, qual será a proposta… Porque eu quero algo diferente de tudo, não quero que seja uma simples biografia”, adiantou. Mal podemos esperar.

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