Ex-Globo e CNN, Marcela Monteiro fala sobre a gravidez e libido aos 40 e revela se voltará à TV aberta


Apresentadora vive uma fase de transformações ao conciliar a primeira gravidez aos 40 anos, sobre os desafios físicos e emocionais da gestação, defende que temas como sexualidade durante a gravidez sejam tratados sem tabus e relembra a decisão de congelar embriões antes de engravidar naturalmente. Ela também comenta os bons aprendizados que acumulou nas passagens pela Globo e CNN Brasil, afirma que pretende seguir à frente, no Youtube, com “De Repente 30 e desabafa sobre a força de sempre seguir em frente: “Se eu pudesse contar minha vida inteira, diria que passei por muitos desafios. Ouvi muitos ‘nãos’, me decepcionei com pessoas, inclusive profissionalmente, e já senti que fui prejudicada. Mas isso acontece com muitas pessoas, não acredito que seja algo exclusivo da minha história. Nada disso tirou uma parte de mim ou me fez desistir”

*por Vítor Antunes

O Brasil se acostumou a ver o rosto de Marcela Monteiro na TV. Primeiro, na TV Vanguarda, afiliada da Globo no interior de São Paulo. Depois, na Globo, no Rio, onde permaneceu por anos à frente de atrações de entretenimento da casa, como o “Vídeo Show”. Hoje, segue desenvolvendo um trabalho de qualidade no YouTube com o “De Repente 30”, mas não descarta um retorno à televisão. “Eu quero me ver em diferentes lugares e projetos. Tenho muito interesse em valorizar o talento e existe muita gente genial, com histórias incríveis, que muitas vezes não encontra espaço ou acaba ficando esquecida. A televisão ainda tem muito para explorar nesse sentido. Mas também acho importante entender que algumas ideias precisam de tempo para amadurecer. Hoje existe uma pressa muito grande. As pessoas colocam algo no ar e querem resultado imediatamente. Se não acontece uma resposta rápida, já pensam em mudar tudo no dia seguinte”, desabafa.

Se eu pudesse contar minha vida inteira, diria que passei por muitos desafios. Ouvi muitos ‘nãos’, me decepcionei com pessoas, inclusive profissionalmente, e já senti que fui prejudicada. Mas isso acontece com muitas pessoas, não acredito que seja algo exclusivo da minha história. Nada disso tirou uma parte de mim ou me fez desistir. Nada disso me fez parar de acreditar. Tive uma família muito especial ao meu lado, que sempre me apoiou. Realizar sonhos é maravilhoso, mas valorizar tudo aquilo que já temos também é uma grande conquista – Marcela Monteiro

Grávida de um menino, Marcela também fala sobre um tema ainda cercado de tabus: o desejo sexual durante a gestação. “O desejo muda por vários motivos. Quando você começa a ver a barriga crescer, isso ganha ainda mais significado, porque existe toda uma relação da mulher, da mãe, com essa ideia do sagrado, com um filho crescendo dentro dela. São diferentes nuances envolvidas. Às vezes, o parceiro também passa por inseguranças: ele vê a barriga crescendo, sabe que o filho está ali dentro e começa a se questionar sobre como agir, onde tocar, quais cuidados ter. Além disso, existe a questão hormonal. Há mulheres que perdem completamente a vontade e ficam mais focadas em outras questões, enquanto outras continuam sentindo o mesmo desejo de antes.”

Ela prossegue: “Em algumas situações, o médico pode recomendar uma pausa ou alguns cuidados específicos, mas, se a gestação estiver evoluindo bem e não houver restrições, normalmente a orientação é manter uma vida sexual ativa e saudável. Existem muitas nuances, mas o mais importante é conseguir conversar com o parceiro e encontrar um caminho que seja confortável e prazeroso para os dois.”

Obviamente, é importante conversar com o médico para entender o que pode ou não pode ser feito, de que forma e com que frequência. Eu sempre falo para as pessoas procurarem orientação médica, porque cada corpo reage de uma maneira. Também é importante conversar com o parceiro, porque essa nem sempre é uma conversa simples ou natural para todos os casais.

Marcela Monteiro e o marido, Renan, à espera de um menino (Foto: Acervo)

 

QUARENTA

Muito se fala sobre as transformações da sociedade decorrentes do fato de as mulheres estarem engravidando cada vez mais tarde. No caso de Marcela Monteiro, 40 anos, soma-se ainda o fato de viver sua primeira gestação. “É muita coisa para aprender. Mesmo lendo, conversando e se preparando bastante, quando a experiência acontece de fato, você percebe a dimensão de tudo. Eu e o Renan [o arquiteto e empresário Renan Caruso] sempre soubemos que queríamos construir uma família e ter filhos, mas nunca tivemos pressa. Fui gravando, trabalhando, seguindo minha vida, e esse desejo foi ficando cada vez mais forte.”

Ela conta que, em determinado momento, chegou a considerar a possibilidade de recorrer à fertilização in vitro. “Fiz dois ciclos, porque sempre quis ter dois filhos. Existe uma questão de funil nesse processo: Você congela uma determinada quantidade de óvulos ou embriões, mas, ao longo das etapas, esse número vai diminuindo. Eu congelei embriões, então tudo começa com a fertilização e depois passa por uma seleção até chegar aos que têm maior potencial. Fiz dois ciclos e deixei esses embriões guardados. E aí decidimos tentar naturalmente. Na verdade, eu nem cheguei a usar os embriões congelados”

A tecnologia está aí para ser uma aliada. Caso demorasse mais ou surgisse alguma dificuldade, nós teríamos essa possibilidade como apoio da medicina. Mas a ideia sempre foi tentar naturalmente primeiro. Como nunca tínhamos tentado engravidar, seguimos o que havíamos planejado: deixar essa alternativa como uma segurança para o futuro. Nesse próximo momento, eu também estarei mais velha, então continuamos contando com essa possibilidade de a tecnologia e a medicina nos ajudarem – Marcela Monteiro

Marcela também conta como tem vivido a gestação, marcada por descobertas constantes e por sintomas que, até aqui, têm sido considerados leves. “A gravidez está sendo tranquila. Tenho sentido muito sono. O olho pesa, você está em uma reunião e, de repente, sente aquele cansaço chegando. Às vezes acontece na rua, na academia, e você só percebe depois que bocejou na frente das pessoas. Tive um pouco de enjoo, mas não no começo, nas primeiras semanas. Ele apareceu um pouco mais para a frente. Fora isso, está tudo bem. E existem também as descobertas ao longo do caminho”.

Marcela Monteiro descobre os desafios da primeira gestação (Foto: Acervo Pessoal)

Para Marcela, outro aspecto que acompanha a maternidade é a cobrança social. Segundo ela, tanto o casal quanto, principalmente, a mulher acabam sendo pressionados em relação ao momento de ter filhos, sobretudo após os 40 anos. “Eu e o Renan estamos juntos há nove anos. Nós dois somos independentes, trabalhamos desde muito novos e construímos nossas próprias carreiras. Em um relacionamento longo, as pessoas nem sempre conseguem entender tudo o que existe por trás das escolhas de um casal. As mulheres da minha idade, da minha faixa etária, em algum momento, já passaram por essa pressão. Acredito que muitas pessoas fazem perguntas sem intenção de ofender ou pressionar. Nós estávamos vivendo juntos, bem, trabalhando, independentes, saudáveis e felizes.”

É muito comum as pessoas terem esse tipo de reação e fazerem comentários sem perceber que, muitas vezes, estão colocando um peso enorme sobre outra mulher ou outro casal. Eu sempre ouvi muito esse tipo de pergunta, principalmente por estar em um relacionamento de longa duração. Acho que, quando as pessoas veem um casal junto há muitos anos, acabam tentando entender as escolhas e os caminhos que ele seguiu – Marcela Monteiro

Cercada de idealizações e expectativas, a gravidez costuma ser retratada como um período exclusivamente de felicidade. Marcela, porém, faz questão de mostrar uma experiência mais próxima da realidade, sem romantizar os desafios que acompanham a gestação. “Estou achando tudo muito especial, mas isso não significa que não existam desafios. Na minha cabeça, quando você engravida, as primeiras coisas que vêm são aquelas que todo mundo comenta: ‘Você vai enjoar’, ‘vai ficar inchada’, ‘pode acontecer isso ou aquilo’. Mas existem muitas outras mudanças que ninguém fala tanto, como as alterações de humor e as dificuldades do dia a dia. E você acaba descobrindo”.

Marcela Monteiro: A gravidez é descoberta diariamente (Foto;: Acervo Pessoal)

MENINOS, HOMENS (E LOBOS)

Grávida de um menino, que ainda não teve o nome escolhido, Marcela Monteiro conta que uma das reflexões mais presentes durante a gestação é a responsabilidade de educar um filho para que cresça livre do machismo e consciente das desigualdades que ainda marcam a sociedade. “Quando pensamos na realidade atual, ainda vivemos em uma sociedade machista, com oportunidades muito desiguais entre homens e mulheres. Eu trabalho desde cedo, estou no meio artístico há muitos anos e já passei por diversas situações constrangedoras. Isso tudo passou pela minha cabeça. Enxerguei como uma grande oportunidade e também como um desafio criar um homem que eu admire, alguém sobre quem eu possa dizer: ‘Que orgulho desse ser humano’. Um homem que eu gostaria que fosse meu chefe, meu amigo, meu irmão, alguém que eu escolhesse ter por perto. Esse pensamento ficou muito presente para mim.”

Segundo a apresentadora, as relações entre homens também passam por um momento de transformação, embora ainda haja muito a avançar. “A forma como os homens se relacionam também está mudando, felizmente, mas ainda existe um longo caminho pela frente. Às vezes, quando você está em um grupo apenas de homens, ainda aparecem piadas e comentários que revelam comportamentos preocupantes, justamente porque existe a sensação de que aquele espaço permite tudo. Quando pensamos na geração de homens de 35, 40 anos, ela já é diferente da geração dos nossos pais. Ainda assim, é uma geração que está em processo de desconstrução, porque muitos cresceram convivendo com comportamentos que as gerações mais novas talvez já não aceitem ou não vivenciem da mesma forma.”

Infelizmente, toda mulher ou já sofreu algum tipo de assédio ou conhece outra mulher que passou por isso. É uma realidade que, se você perguntar para qualquer mulher, provavelmente ela terá alguma história para contar – Marcela Monteiro

COMUNICADORA

Para o segundo semestre e para o período pós-maternidade, Marcela pretende dar continuidade ao projeto que comanda no YouTube. “Estou conseguindo me organizar nesse sentido. Vamos fazer uma nova temporada de ‘De Repente, 30…’ no segundo semestre e já tenho outra temporada praticamente planejada para o ano que vem. Isso me permite organizar melhor meus horários. Hoje já percebo que meu ritmo é diferente. Isso não significa que eu não consiga trabalhar ou produzir, mas que preciso fazer adaptações”.

“Quando paro para pensar na minha trajetória profissional e também na minha vida pessoal, vejo o quanto esse processo me fez crescer. Eu ocupei diferentes funções, comecei projetos do zero, chorei muito no caminho, passei noites em claro pensando, repensando, escrevendo e reescrevendo – Marcela Monteiro

Marcela Monteiro em uma das suas coberturas para a CNN Brasil (Foto: Reprodução)

Com a sensibilidade à flor da pele e vivendo intensamente a chegada dos 40 anos, Marcela Monteiro revela o que mais a emociona nesta fase da vida. Entre a expectativa pela maternidade, a gratidão pela família e as lembranças do pai, a jornalista faz um balanço marcado por afeto, amadurecimento e novos sonhos. “Me emociona ouvir o coração do meu filho, aos 40 anos, e perceber que estou vivendo uma gestação tão bonita e abençoada. Me emociona compartilhar esse momento com uma pessoa em quem acredito e que está construindo uma família comigo. Também me emociona olhar para os meus pais e perceber como eles continuam presentes de alguma forma. Eu estou com 40 anos e continuo realizando sonhos. A única que ainda me dói profundamente é não ter meu pai fisicamente aqui. Sou muito grata pelo tempo que tive com ele e por tudo o que vivemos juntos”.

Ao longo da conversa, fica evidente que a chegada da maternidade não interrompe a trajetória de Marcela Monteiro, mas a ressignifica. A mesma comunicadora que passou décadas diante das câmeras agora volta o olhar para dentro, sem perder a curiosidade que sempre guiou sua carreira. Entre os planos para o futuro, as lembranças do passado e a expectativa pelo nascimento do primeiro filho, ela parece compreender que o tempo não impõe limites, apenas muda as perguntas. Aos 40 anos, vive uma fase em que sucesso e realização já não se medem apenas pelos projetos que coloca no ar, mas também pela história que começa a escrever longe dos estúdios: a de uma mulher que escolheu fazer da própria experiência um exercício de escuta, consciência e afeto.