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“Eu me identifico. Sempre teve muita luta lá em casa”, diz Simone Spoladore sobre personagem em ‘Éramos Seis’

A atriz volta à Globo na novela das 18 horas e estrela os longas ‘Livro dos Prazeres’ e ‘Aos Pedaços’, enquanto finaliza seu primeiro curta, ‘Chá da Alice’, inspirado pela obra de Lewis Carroll

Publicado em 19/10/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Jeff Lessa

Simone Spoladore está vivendo a melhor fase de sua vida. E a frase vem revestida de uma honestidade cristalina e acompanhada de fatos: depois de 13 anos, a atriz paranaense está de volta à Globo como Clotilde, a irmã muito tímida e extremamente recatada da protagonista interpretada por Gloria Pires em “Éramos Seis”, novela das 18 horas da emissora. Seu último papel em TV havia sido Dora Dumar, uma bandida que descobre ter alma de artista e se apaixona pelo cinema na série “Magnífica 70”, exibida pela HBO entre 2015 e 2018. Dora se torna estrela de pornochanchadas, papel diametralmente oposto ao da mocinha contida de agora.

Simone Spoladore vive uma fase profissional intensa (Foto: Divulgação/Vinícius Mochizuki)

Mas não é só isso. Além de “Éramos Seis”, ela estrela dois filmes. Em “Livro dos Prazeres”, baseado em “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”, de Clarice Lispector (1920-1977) e dirigido por Marcela Lordy, ela dá vida a Lóri, professora primária sem muitas perspectivas de vida que se transforma ao encontrar o amor. No experimental “Aos Pedaços”, a atriz foi dirigida por Ruy Guerra. “O roteiro do ‘Livro dos Prazeres’ é repleto de surpresas. Mas posso dizer que é o único livro da Clarice Lispector com final feliz. A Lóri tem dificuldade de se entregar ao amor e passa por uma grande viagem interior. O livro veio depois de ‘A Paixão Segundo G.H.’, que é uma descida ao inferno. Para chegar ao prazer do amor, ela precisava passar antes pelo inferno”.

Livro dos Prazeres” foi totalmente filmado no Rio de Janeiro, com locações na Lagoa, na Floresta da Tijuca, no Colégio de Aplicação da UFRJ (CAp UFRJ, no Jardim Botânico) e no Caminho dos Pescadores. “O apartamento fica no Leme, bairro onde a autora morava. O roteiro foi construído na simplicidade do cotidiano, do passeio pelo bairro…. Ainda não vi o filme, mas a julgar pelo roteiro, deve ter ficado belíssimo”, adianta a atriz, leitora apaixonada por Clarice Lispector desde a pré-adolescência.

Aos Pedaços” tem enredo concebido como romance pelo próprio diretor, mas aproveitado como roteiro do longa, rodado em Cataguazes (MG) e Maricá (RJ). O filme conta a história de um homem doente que vive com duas mulheres em países diferentes separados pelo mar. Ambas se chamam Ana e moram em casas exatamente iguais, além de se vestirem da mesma forma. No filme, Simone está loura para interpretar uma das Anas (a outra é a atriz Chris Ubach), enquanto Emílio de Melo faz o marido bígamo e paranoico e Júlio Adrião se comporta como seu alter-ego. “Tem uma pitada de expressionismo alemão. É um filme poético, feito de estados e sensações. Não consigo dizer o que elas fazem da vida (risos). ‘Limite’ (cult de Mário Peixoto lançado em 1931 em que um homem e duas mulheres se encontram num pequeno barco no meio do nada e relembram situações do passado) é uma boa referência”, diz. “Ser dirigida pelo Ruy foi interessante. Logo no começo do trabalho, ele me disse: ‘Vou tirar você da zona de conforto’. O estilo dele é sensacional. Ele alerta: ‘Começa assim e termina assim’. O caminho que vai percorrer entre os dois estados é traçado pelo ator. É uma direção diferente”.

A atriz volta à Globo como Clotilde, a irmã muito tímida e extremamente recatada da protagonista interpretada por Gloria Pires em “Éramos Seis” (Foto: Divulgação/Vinícius Mochizuki)

Os contrastes entre as personalidades de suas personagens encantam Simone, que, por conta do jeito discreto, encarnou mulheres quietas ao longo de sua carreira, inclusive algumas camponesas, como são as origens de sua família. Em “Éramos Seis”, para a qual foi convidada por Carlos Araújo, diretor de sua primeira novela, “Esperança”, de 2003, ela volta a viver uma moça recatada. “É um momento profissional muito bom. Clotilde é uma garota do interior, tímida e silenciosa. Mas tem muitas coisas acontecendo dentro dela. A Dora, de ‘Magnífica 70’, era outra história. Para ela busquei inspiração nas atrizes de pornochanchada dos anos 1970. Nicole Puzzi, Helena Ramos, Vera Fischer. Essas mulheres incríveis que, mesmo no lugar de objeto em filmes machistas, demonstravam um grande prazer no que faziam. Também me inspirei na Marilyn Monroe, que interpretei há tempos. E na Helena Ignez, nos filmes dela com o Ricardo Sganzerla”, conta Simone, que é amiga da musa do Cinema Novo. “Temos uma comunicação silenciosa e nos entendemos muito bem”.

A visão de Simone sobre Clotilde é interessantíssima. Longe de torcer para que a personagem “se solte” ou “viva mais a vida”, a atriz a considera um ser humano complexo e feliz exatamente do jeito que é, apesar das pressões que a sociedade impõe para demonstrarmos felicidade de formas mais espalhafatosas: “Antes de ser convidada para a novela, li um livro do (diretor e roteirista japonês Yasujiro) Ozu chamado “Late Spring(que rendeu o filme “Pai e Filha”, de 1949). A menina não quer se casar e o pai faz tudo para libertá-la, para ela ser feliz. A Clotilde é assim. No livro ela é uma personagem quase oriental, tem muito prazer na vida simples, alcançou a plenitude. Na novela, porém, vai se apaixonar. Vai ser bonito acompanhar o aprendizado dela do amor”.

Adaptada do livro homônimo da escritora Maria José Dupré, publicado em 1943, “Éramos Seis” recria o Brasil dos anos 1920/30/40 e já teve quatro adaptações para a TV desde 1958, quando foi exibida pela Record TV (a versão atual é a quinta). Simone não considera a trama, que acompanha a trajetória de uma família de classe média baixa paulistana datada: “É o retrato de uma época interessantíssima. É muito bom para se conhecer os costumes daquele tempo. A família é pobre, mas os pais lutam muito para dar o melhor possível para os filhos. Eu me identifico, pois meus pais eram bancários e sempre teve muita luta lá em casa. Nunca foi fácil”.

E houve um período em que foi realmente difícil e a família enfrentou um período barra pesada. A atriz conta que chegaram a perder a casa em Curitiba e foram morar de favor nos fundos da casa de um amigo de seus pais. Ela, que estudava balé desde os seis anos de idade e teve aulas de teatro por sugestão da professora de dança, bateu nas portas das produtoras da capital paranaense em busca de emprego. Tinha 16 anos apenas. “Consegui trabalho muito rapidamente, por incrível que pareça. Ganhava o equivalente a mil reais por mês e era com isso que a gente vivia”, conta.

Simone Spoladore, que vive em Londres há dois anos, pretende morar lá e trabalhar no Brasil (Foto: Divulgação/Vinícius Mochizuki)

Como já deu para perceber, hoje o trabalho é oferecido a Simone. Ela tem uma longa lista de longas-metragens no currículo. Por coincidência, participou do elenco de várias adaptações literárias, com destaque para “Lavoura Arcaica”, de 2001, dirigido por Luiz Fernando Carvalho, “Desmundo” (de Alan Fresnot, 2003), e “Vestido de Noiva”, em que foi dirigida por Joffre Rodrigues, filho do autor, Nelson Rodrigues, em 2006, entre outros. Na TV, fez imenso sucesso em “Os Maias”, série adaptada da obra de Eça de Queiroz exibida pela Globo em 2001 que a levou ao estrelato instantâneo. As adaptações seriam uma escolha? “Ter livro como raiz é muito forte. Imagina poder ler ‘Os Maias’ para compor a personagem? É um alimento profundo para a criação. Mas os roteiros originais também são ótimos e trazem personagens inesquecíveis. Não tenho preferência”, revela Simone, que fez curso de cinema em Cuba e está finalizando seu primeiro curta-metragem, “Chá da Alice” – por sinal, uma adaptação surrealista da cena do chá de “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll.

Morando em Londres há dois anos, para onde foi estudar inglês e acabou ficando, Simone conta que está cuidando de si pela primeira vez na vida. Mais solta, menos tímida, diz que Londres simplesmente “aconteceu”: “Um casal de amigos me convidou para passar uma temporada no Norte da Inglaterra. Fui e gostei. Resolvi fazer um curso curto de inglês em Londres e me apaixonei”, conta. À pergunta “Se apaixonou pela cidade?”, ela responde rindo: “Não, pelo meu marido! A gente se conheceu estudando”. O marido de Simone é o escritor suíço-italiano Vanni Bianconi, que permanece na capital inglesa e visita a atriz no Brasil de tempos em tempos, enquanto ela trabalha aqui.

Mas e quanto a Londres, a paixão também aconteceu? “Ainda estou descobrindo a cidade. Por enquanto, eu estou gostando da sensação de ser estrangeira, de estar perdida. Gosto muito de caminhar e ouvir a sonoridade da língua inglesa. Quero morar lá e trabalhar aqui. Talvez eu tente alguns trabalhos na Inglaterra, mas não vou fazer nada enquanto não falar inglês muito bem. Neste ano, eu estou querendo cuidar mais de mim, me preocupar comigo”, sentencia a atriz, que vive no bairro de Shoreditch, considerado um lugar vibrante e “descolado”: “É delicioso. Ando para um lado e tenho movimento, com metrô perto. Se ando para o outro lado parece uma cidadezinha do interior”.

O lugar perfeito para uma atriz que carrega tantos universos dentro de si.

 

 

 

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