*por Vítor Antunes
Não faz muito tempo que a frase “Não se nasce mulher, torna-se”, de Simone de Beauvoir (1908–1986), voltou a circular com força no debate público — ora celebrada como marco do pensamento feminista, ora alvo de críticas e distorções. Mais do que um slogan, a sentença evoca a ideia de que a identidade feminina é uma construção, atravessada por cultura, escolhas e resistências. Essa reflexão ecoa de forma intensa em “Paixão Simples”, peça que é uma adaptação do livro de Annie Ernaux, vencedora do Nobel de Literatura, que ganha montagem brasileira protagonizada por Aline Fanju. Segundo a atriz, o livro viralizou entre jovens, especialmente no TikTok, aproximando uma nova geração de um texto escrito há três décadas. A literatura com protagonistas femininas complexas está ganhando cada vez mais destaque, especialmente entre jovens da Geração Z nas redes sociais, com movimentos como o “Booktok”. Em breve, Aline também poderá ser vista em nova temporada na série “Arcanjo Renegado”, do Globoplay.
Baseado no livro homônimo, o espetáculo mergulha na experiência íntima de uma mulher consumida por uma paixão não correspondida. Ernaux narra a febre de um desejo unilateral e, ao mesmo tempo, traça um retrato das contradições da afetividade feminina. Fanju ressalta esse ponto: “É um livro muito feminino esse, que fala sobre todo esse ferver que é viver uma paixão não é recíproca. E da solidão feminina, da maneira como as mulheres lidam com os afetos e da maneira como acabamos por ser as pessoas que cuidam mais das relações, e que estão mais predispostas e disponíveis de uma maneira geral. Essa peça surge num momento em que as mulheres se tornam conscientes da própria liberdade. Depois dos 40, depois de já ter sido casada e se separar, já ter filhos crescidos. Esse é um texto que nasce na década de 90. Então, mais do que hoje, é uma super permissão, é cravar com unhas e dentes a sua liberdade e afirmar isso”.
E, para reforçar a dimensão feminina da encenação, grande parte da equipe técnica é composta por mulheres — uma escolha que reafirma a centralidade da mulher não apenas em cena, mas também nos bastidores. Aline, no entanto, ressalta que ainda há barreiras estruturais na dramaturgia e na forma como os papéis femininos são concebidos: “Acho que a gente avançou muito em vários debates, mas ainda temos muito a caminhar, por exemplo, sobre as mulheres que são mães. Os pré-julgamentos em cima delas, e das suas liberdades, das suas prioridades como mulher, como se isso as transformasse em piores mães. Eu acho que ainda tem muita hipersexualização. Eu vejo na televisão hoje em dia esse avanço imenso dos corpos, também de uma diversidade maior. Isso é um ganho tremendo, mas a gente ainda tem bastante chão”.

Aline Fanju traz o debate sobre a condição da mulher no teatro (Foto: Elisa Maciel)
A atriz também reflete sobre sua trajetória e sobre a forma como, ao longo dos anos, foi ganhando consciência crítica diante de situações que antes eram naturalizadas: “Quando eu era mais nova, passei muito e não tinha tanta consciência. Por mais que me sentisse incomodada, a hipersexualização era quase inerente à condição feminina. Com o passar da idade e também do avanço dos debates, a gente vai se instrumentalizando para conseguir se posicionar. As produções têm essa presença masculina majoritária. Então, é sempre obviamente uma sobrecarga, que nunca é fácil. Já bate um nervoso, ai meu Deus, vão me posicionar aqui a esse respeito, dá uma insegurança. Já vivi momentos em que percebi cenas de nudez totalmente gratuitas. Para mim, o nu não é o problema. O problema é quando ele não está a serviço de nada, só de uma cota de nudez feminina na produção”.
Em obras que retratam violência contra a mulher, por mais que sejam cenas de denúncia, eu não vejo. Eu não vejo cenas de estupro, me recuso. Eu pulo. Se estão presentes em um filme, eu não vejo. Vai ter uma série, eu não vejo. Para mim é muito violento, sádico.
Acho que tem maneiras outras de denunciar – Aline Fanju
Mãe de Teresa, de 6 anos, Aline Fanju conta que a filha já tem acesso a referências de feminilidade que ela própria não teve quando criança. “A gente traz para ela algumas questões e ela devolve com muita simplicidade. Como: ‘lugar de menina é onde ela quiser’. Há questões que hoje já vemos como abuso e que a geração da minha mãe naturalizava. Eu tenho certeza de que isso vai trazer muito mais confiança do lugar dela no mundo”.
A aproximação dos 50 anos também é vista com naturalidade pela atriz, embora não sem reflexões. “Eu já passei por várias crises. A gente se compara com os outros, especialmente no lugar profissional, se chegou onde deveria, e também sobre as batalhas estéticas. A sociedade cobra muito da gente, e a profissão como atriz cobra ainda mais. Eu tento lutar contra isso, mas ainda sou filha de uma geração construída a partir dessas exigências. Uma flacidez no rosto, uma ruga… Por mais que eu tente me olhar de outros modos, ainda é uma batalha interna com a proximidade dos 50 anos. Penso muito na questão da finitude, especialmente depois de ser mãe. Será que, se eu estiver aqui, ainda vou poder ser colo, abraço, porto seguro? O filho dá uma concretude ao tempo, uma forma, uma borda”.

A peça de teatro traz um aprofundamento sobre afetividades femininas (Foto: Lia Maciel)
VERSÁTIL
Aline também estará na série “Arcanjo Renegado”, do Globoplay. “Eu acho incrível esse projeto, não só o ‘Arcanjo’, mas o projeto do AfroReggae, tocado pelo José Júnior. É gente de favela tocando um projeto de favela. E contempla pessoas do projeto ‘Segunda Chance’: há ex-presidiários, pessoas que já estiveram envolvidas com o tráfico ou até com milícias, mas que encontraram ali uma oportunidade de recomeçar. Quando a gente fala em inclusão, para mim esse é um exemplo real. Não é só na estampa, não são apenas os atores. É um projeto de fato inclusivo, com pessoas pretas, pessoas com deficiência. É muito, muito importante”.
Sua personagem entra no núcleo do advogado Antônio, vivido por Tatsu Carvalho. “Até então, víamos muito a pessoa jurídica dele. Agora entramos na intimidade, na família. E é aí que surgem as surpresas, quando olhamos pelo buraquinho da fechadura. Toda a fachada conservadora do personagem contrasta com a pessoa física, que desvia dessa linha”, antecipa.

Aline Fanju estará em “Arcanjo Renegado” (foto: Elisa Maciel)
Fanju relembra ainda seu trabalho em “Detetives do Prédio Azul” (DPA), no qual viveu uma das vilãs mais marcantes da série. “Eu nunca trabalhei tanto na minha vida. Fiz a vilã de uma temporada inteira, e elas eram gêmeas, então eram duas personagens. Além disso, havia uma terceira, uma delas disfarçada, praticamente um outro papel. Como é um programa infantil, são composições com muita tinta para firmar bem cada personagem. Foi o primeiro trabalho que a minha filha pôde assistir. Foi muito emocionante”.
A atriz lamenta, contudo, a escassez de montagens voltadas ao público infantil. “Está faltando peça infantil de qualidade. Muitas vezes vemos um verdadeiro sucateamento. Pegam um personagem da Disney, compram uma fantasia barata, montam um cenário improvisado e cobram caro. As crianças amam porque veem uma ‘Frozen’ no palco, mas, como mãe, você paga o ingresso e sai indignada. Falta respeito com a criança”.
Com mais de duas décadas de carreira, Aline reflete sobre o futuro de jovens atrizes e não esconde a dureza do mercado. “Não vamos mentir: não é uma profissão fácil no Brasil. E, de uns anos para cá, ficou ainda mais difícil. Tivemos um governo que sucateou a cultura, que a vilanizou. Perdemos muita verba, muitos editais, fomos jogados ao chão. No Rio, isso foi ainda mais sentido. Já tivemos momentos muito prósperos no teatro, mas hoje a classe se reergue lentamente. A Ancine, por exemplo, até hoje não voltou a funcionar plenamente. A queda é rápida, mas a recuperação leva tempo”.
Aline afirma que só a vocação sustenta uma carreira longa: “É preciso escolher essa profissão por amor à arte. Estudar muito. Não focar apenas em televisão, nem em ser famoso nas redes sociais. O foco tem que ser a arte, porque este é um ofício. Não é sobre ser celebridade ou ganhar milhões no TikTok, mas sobre se dedicar ao trabalho. Para isso, é fundamental estudar e ler muito — e isso tem se perdido. É preciso conhecer os clássicos, assistir muito teatro. Claro, também vemos séries e filmes, mas o teatro é insubstituível. O ‘ao vivo’ expõe o ator diante do público por horas, sustentando a cena e a atenção da plateia. Essa vivência não tem substituto”.
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