*por Vítor Antunes
Ela apareceu na televisão ainda muito jovem, em dois projetos marcantes da TV Globo que, à sua maneira, foram arrojados e dialogaram com novas linguagens: “Malhação” e “TV Globinho” – a primeira, uma das poucas soap-operas brasileiras e a segunda, um programa infantil onde os apresentadores se revezavam semanalmente. Agora, a atriz Jessika Alves investe numa nova experiência narrativa que reflete as transformações no modo de fazer – e de assistir – ficção no Brasil. Jéssika está no elenco de uma novela feita exclusivamente para o digital, pensada desde o início para a linguagem vertical dos celulares. Trata-se de “A Vida Secreta do Meu Marido Bilionário“, mininovela brasileira lançada no aplicativo ReelShort, uma plataforma que virou fenômeno nas redes sociais, especialmente no TikTok. Com uma estética própria e episódios curtos, a trama é protagonizada por Jéssika e Victor Sparapane, e segue a história de Nathália Queiroz, uma jovem que se casa com um bilionário recém-saído da prisão para salvar a vida da mãe.
É um enredo assumidamente folhetinesco, com elementos de melodrama e romance de tirar o fôlego – só que embalado por uma linguagem visual contemporânea e um modelo de produção inovador. A narrativa não tem um autor central: os roteiros são desenvolvidos por uma equipe criativa interna da própria plataforma, com foco em manter a atenção do público em vídeos pensados para a tela do celular. Para Jessika, que já atuou em novelas tradicionais da TV aberta, o formato digital não exclui o anterior, mas amplia o campo de possibilidades. “Acredito muito nisso. A gente está vivendo um momento em que tudo se transforma muito rápido, e o consumo de conteúdo muda e se reinventa o tempo todo. As narrativas verticais vieram para somar — elas criam novas janelas e atingem públicos que não estão mais na TV”.

Jessika Alves vem brilhando na mininovela do Tiktok (Foto: Nanda Araujo)
O processo de preparação, ela conta, foi bem diferente do que está acostumada: “Foi corrido. Tivemos dois dias de ensaios e leituras com a direção e o elenco, mas o trabalho mais profundo aconteceu mesmo em casa, procurando encontrar o tom certo da personagem dentro daquele universo”. Segundo a atriz, o ritmo de gravação é intenso e exige outra relação com o tempo da cena. “A linguagem vertical e o consumo pelo celular exigem uma entrega mais direta, com cenas mais curtas e dinâmicas. Foi um exercício de síntese e, ao mesmo tempo, de precisão”.
Entre as marcas desse novo tipo de dramaturgia, está a intensidade emocional das personagens femininas – muitas vezes idealizadas, frágeis, ou ingênuas – algo que, para Jessika, faz parte da proposta, mas pode ser um ponto de partida para outras camadas. “A Nathália é mais ingênua do que eu. Na série, ela começa como uma menina – insegura, sem muitas perspectivas – e vai desabrochando aos poucos até se tornar uma mulher. Mas entendo a forma como ela busca algo melhor, mesmo sem saber ao certo o que está procurando”.
Tão logo saiu de Malhação, Jessika foi convidada a ser apresentadora do TV Globinho, programa infantil das manhãs da Globo. Tantos anos depois ela voltaria a trabalhar nesta função? “Hoje em dia o meu foco é muito mais a minha carreira de atriz, mas eu não descarto uma possibilidade de apresentar algo no futuro”.
Eu sou formada em jornalismo, então eu acho que qualquer coisa ligada à comunicação é algo que eu gosto e eu guardo essa fase assim com muito carinho. Foi muito legal, tanto a experiência de apresentar um programa quanto a experiência de lidar com o público infantil, que era muito diferente do meu público de malhação, então eu adorei – Jessika Alves
Esse novo trabalho de Jessika vem no rastro das duas últimas temporadas da série “Reis”, da Record, onde atuou nas fases — A Divisão e A Esperança —, dando vida à personagem Siloé. “Siloé foi, sem dúvida, uma das personagens mais complexas que já vivi. Ela passou por perdas, traições, rompimentos… É uma personagem que atravessa muitas dores. Independentemente do período em que se passa a história, estamos sempre lidando com seres humanos — e os dilemas humanos se repetem. Eu procuro identificar em mim o que poderia provocar sentimentos semelhantes aos da personagem e empresto tudo isso a ela. No fim, não é sobre mim, mas me atravessa”.

Jessika Alves: “Eu procuro identificar em mim o que poderia provocar sentimentos semelhantes aos da personagem e empresto tudo isso a ela” (Foto: Nanda Araujo)
OUTRAS PALAVRAS
Jessika Alves ainda é amplamente lembrada por um de seus primeiros papéis na televisão: a irreverente e sonhadora Norma Jean, da temporada de 2009 de Malhação. Na época, a jovem atriz despontava num dos principais celeiros de talentos da dramaturgia brasileira. E não à toa guarda com carinho aquela fase da carreira. “’Malhação’ foi meu ponto de partida. Foi ali que tudo começou, e sou muito grata por ter vivido aquela experiência. Aprendi muito, amadureci diante das câmeras e tive a chance de entender como funciona esse universo de forma muito intensa e diária. É clichê dizer isso, mas foi uma escola”.
Exibida por mais de duas décadas na TV Globo, Malhação encerrou sua trajetória em 2020, durante a pandemia, deixando uma lacuna na programação voltada ao público jovem. Desde então, a emissora tem estudado alternativas. Para 2026, segundo apurações recentes, há uma proposta em desenvolvimento que pretende resgatar o espírito da trama adolescente com outro formato: novelas mais curtas, inspiradas nos doramas coreanos — um gênero que cresceu exponencialmente em audiência e repercussão global, especialmente entre os mais jovens.

Jessika acredita que o espaço que “Malhação” ocupava na TV aberta ainda é necessário. Para ela, além de ser uma plataforma de lançamento de atores, a série cumpria um papel social importante: o de dialogar com uma geração em formação. “Malhação era uma vitrine para novos talentos, grandes atores surgiram de lá, e também era uma forma de dialogar com o jovem, de falar sobre temas importantes dentro desse universo. O espaço para esse tipo de conteúdo ainda existe e faz falta”.
Num cenário em que as telas mudam de forma, mas não de função, Jessika Alves caminha entre o ontem e o agora com a mesma entrega de quem sabe que a arte não escolhe palco — ela se reinventa com ele. Da TV aberta às plataformas digitais, do folhetim clássico à narrativa em pílulas verticais, a atriz atravessa essas transformações com olhar atento e corpo inteiro. É como se cada personagem, da Norma Jean à Nathália, carregasse não só uma nova história, mas também o reflexo de um tempo que pulsa diferente. E se antes a escola foi diária, intensa e televisiva, agora é urgente, condensada e tocada com o dedo no visor. Jessika, no entanto, segue fazendo o que sempre fez: atuando com verdade, onde quer que o público esteja. Porque, no fim, seja em tramas juvenis ou romances bilionários, o que permanece é o gesto antigo — e sempre atual — de contar histórias.
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