*por Luísa Giraldo
Homem mimado; carente crônico; “boy lixo” ou esquerdomacho. Essas são apenas quatro das inúmeras descrições na web do milionário Afonso Roitman (Humberto Carrão), que deveria ser o mocinho do remake de “Vale Tudo”. Na versão original da novela, em 1988, o personagem ganhou vida com Cássio Gabus Mendes e, apesar do comportamento possessivo, infiel e muitas atitudes machistas, arrancou suspiros de milhares de telespectadoras. Em uma era de hiperconectividade, facilitada pelas redes sociais, não há espaço para dúvida: hoje, entende-se que os herdeiro de ambos os folhetins são péssimos parceiros e refletem a hipocrisia masculina e a “cegueira” de muitas mulheres, que acreditam poder mudar o caráter de homens tóxicos.
Cássio Gabus Mendes tornou Afonso Roitman um galã, apesar do herdeiro ter trocado Solange (Lídia Brondi), interpretada pela atual esposa do artista, pela interesseira Maria de Fátima (Glória Pires). Em 1988, o milionário não era um “desocupado”, conforme pontua a atual Odete Roitman (Débora Bloch) e reclama o público sobre o personagem de Carrão. Além de praticar esportes, ele trabalhava na empresa Transcapital Aerolineas (TCA), do Grupo Almeida Roitman, que pertence à mãe. Já o novo Afonso é triatleta, porém parece estar sempre com tempo livre para criticar os feitos da matriarca, militar sobre causas ambientais na empresa embora não faça nada para mudar esse cenário e, é claro… flertar com a melhor amiga da ex-namorada.

Cássio Gabus Mendes e Lídia Brondi na contracapa da trilha internacional de “Vale Tudo”, de 1988. Atores estão juntos há 32 anos (Foto: Reprodução/Som Livre)
Afonso Roitman é um “esquerdomacho” de respeito, opinam internautas nas redes sociais. Trata-se, em especial, de um termo adotado pela comunidade feminina para descrever um péssimo tipo de cara para se relacionar. O rapaz parece ser politicamente engajado em pautas como feminismo, porém… é um falso aliado. Ciente da lógica machista da sociedade contemporânea, ele se beneficia dos privilégios e, ao mesmo tempo, da admiração de pessoas que criticam o sistema capitalista. Com simulado discurso “bonito”, simpatia com as mulheres e suposta sensibilidade às vulnerabilidades, esse homem controla, manipula, explora, objetifica e assim por diante, mas sempre saí impune.
Repletos de “red flags” (bandeiras vermelhas, em inglês), os comportamentos tóxicos de um “esquerdomacho” são sutis. Variam de interrupções, assédios à fetichização de relações sáficas (entre mulheres), mas em fórum íntimo. Como sustentam um “papel” para a sociedade, eles mostram a verdadeira faceta abusiva longe do público que o aplaude. É isso que torna esse homem tão perigoso e cruel: muitas vezes, as mulheres não percebem esses tipos de atitudes nocivas e, de repente, se veem presas em relacionamentos complexos com manipulações, violências e desrespeitos.
De volta a Afonso Roitman de Humberto Carrão: desde o início da novela, o relacionamento do herdeiro com Solange Duprat (Alice Wegmann) encantou o público, porém não demorou a soltar pistas de que algo estava errado. A personagem é “workaholic” (viciada em trabalhar, em tradução livre) e coloca a profissão em primeiro lugar, o que incomodava profundamente ele, que desejava uma parceira 100% disponível para ele e que embarcasse em sua rotina como atleta. Esse posicionamento nunca foi por falta de amor, mas por necessidade de trabalho para pagar as contas, visto que ela não é herdeira.

Comentários de internautas sobre Afonso Roitman, considerado um péssimo partido na web (Reprodução/X)
Ao acompanhar a dinâmica romântica de Solange com Roitman, o público custou a acreditar que ele seria capaz de trocar a publicitária com Maria de Fátima Accioly (Bella Campos), amiga e colega de casa da namorada. Os dois traíram “a mocinha Duprat” durante uma viagem de trabalho da mocinha a Madri, na Espanha. Desde então, os comportamentos de Afonso foram cada vez piores: de vácuo nas mensagens, distanciamento íntimo a chantagens emocionais. O herdeiro terminou o namoro por celular e logo voltou para os braços da amante.
“Essa relação não está funcionando. Não queria namorar à distância. A gente tem que ser maduro. E o meu limite é esse, não sei namorar à distância”, disse à Duprat, por ligação de vídeo, apesar de ter jurado amor eterno e prometido fidelidade. A personalidade apaixonada, segura e cortês evaporou em cerca de um mês.

Solange (Alice Wegmann) e Afonso Roitman (Humberto Carrão) (Foto: TV globo/Divulgação)
Diretora criativa da empresa Tomorrow, Solange volta imediatamente ao Brasil após descobrir que a proposta internacional de emprego é plano de Odete Roitman, mãe do ex-namorado, para afastá-la dele – vale lembrar que era a matriarca que estava pagando o salário da publicitária em euro. Ela só não imaginava que a armação era parte de um plano de Odete com a filha de mau-caráter de Raquel (Taís Araújo).
Nesse momento de “Vale Tudo”, Maria de Fátima é a namorada que Afonso sempre sonhou: uma parceira que infla seu ego a todo instante, coloca o rapaz como prioridade e concorda com tudo que ele fala e faz. Carente, frágil e com sentimento de abandono, Afonso Roitman, direciona o mesmo olhar de carinho para a nova amada, dorme de conchinha sem arrependimento e faz juras apaixonadas. O milionário não apenas é cara de pau, mas carece de escrúpulos, assim como a mãe, e não tem um pingo de responsabilidade afetiva, uma postura cruel e bastante presente na contemporaneidade.
Seja lá o motivo pelo qual Afonso Roitman é um parceiro tão ruim: Solange não tem compromisso em consertar uma carência por falta paterna, agressividade materna ou transtornos mentais. Com rios de dinheiro, milionário poderia facilmente procurar uma excelente terapia para resolver essa carência. No entanto, assumir responsabilidade afetiva e admitir que agimos de má índole com pessoas que amamos não é uma tarefa para homens covardes.
Especialista em Relacionamentos e Terapia de Casais, a psicóloga Daniele Furtado entende que, nas posturas e falas do personagem, “há muitas microviolências embutidas” e ressalta a importância da sagacidade do público no entendimento de sinais abusivos em uma relação.
“O papel da novela é esse: jogar [os acontecimentos contemporâneos] para o debate. E a gente tem que expor e reconhecer o que não está certo. Hoje, a luta é completamente contrária e visa calar [os relacionamentos abusivos]”, pontua.
A psicóloga observa que, apesar de muitos momentos hilários de Roitman gerarem engajamento nas redes, é necessário olhar com atenção para essa postura. “Se estão surgindo memes do Afonso, é porque o pessoal está ligado [que esse comportamento não é aceitável]. Essa onda tem que ganhar força e as pessoas, cada vez mais, perceberem atitudes erradas em relacionamentos”.
Daniele reconhece que Afonso é vítima dos comportamentos narcisistas e insensíveis da mãe, além de se sentir compelido a conseguir a aprovação de Odete. No entanto, ela refuta a postura de Afonso com Solange.
Afonso precisa provar que a mãe, Odete Roitman, é a vilã e ele é um cara do bem, “good vibes”. Mas ele tem esses traços narcísicos. E uma das nuances é justamente se passar por bonzinho, usar essas facetas para manipular o mundo como ele quer e, inclusive, para conseguir essa “babação”, uma falsa aprovação, que o alimenta emocionalmente – Daniele Furtado.
A terapeuta analisa a questão mais a fundo. “Existem pessoas com comportamentos narcisistas, em prol de fazerem o mundo girar como querem. Existem àquelas que já sofreram tanto na mão de narcisistas que não reconhecem que podem, sim, ter traços narcísicos. E todos nós temos. Precisamos observar até que ponto usamos isso no limite da relação com o outro e para não machucá-l”, atenta ela.
Para a alegria dos telespectadores, o futuro de Afonso não será feliz com Maria de Fátima. Logo após noivar, o casal casará, conforme o desejo de Odete. Logo, o herdeiro da TCA descobrirá que é traído pela esposa com César (Cauã Reymond). Não sabemos se Solange e Afonso vão reatar no remake, como aconteceu na versão original, mas, por ora, a infidelidade é um desenrolar coerente e satisfatório para um “esquerdomacho”, não?
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