*por Vítor Antunes
O espiritismo cada vez mais deixa de ocupar apenas o espaço religioso e volta a ganhar força na cultura pop do audiovisual, das plataformas digitais e da TV. O ator Antônio Fragoso está no elenco de “Sexo e Destino”, longa dirigido por Márcio Trigo. Some-se a isso a gravação do filme “A viagem“, a reprise da novela “Além do Tempo” e a participação de Antônio falando sobre o tema no programa “Sem Censura”, na TV Brasil, está entre as entrevistas mais vistas do canal. “Eu acho muito interessante. Acredito que o ser humano, depois dessa pancada que a gente levou com a pandemia, está buscando novos caminhos. A gente passou por um momento muito difícil, com tanta gente indo embora tão rápido, e isso acabou levando a novas crenças. A cabeça do ser humano está mais aberta para entender melhor o que a gente vai ter depois, depois dessa vida aqui”, avalia o ator.
Por conta do longa, Antônio tem se aproximado mais do espiritismo, ainda que venha de uma família católica. “Eu li algumas coisas do Kardec, mas acabei voltando mais o olhar para o livro que inspirou o filme ‘Sexo e Destino’. Sou católico de nascimento, mas, no fim, a gente consegue observar que todas as religiões têm seu lado interessante. Eu me aproximei de uma doutrina que eu não conhecia direito, e confesso que estou gostando muito”, diz.
O kardecismo é uma doutrina que foi codificada por Kardec e tem como pilares a filosofia, a religião e a ciência, e isso dá muita credibilidade àquilo que está sendo falado e estudado. Os espíritas estudam muito, têm o hábito da leitura. É muito bom. Estou gostando muito dessa minha introdução ao espiritismo – Antônio Fragoso
O longa traz em seu bojo um tema difícil: a obsessão espiritual e a violência sexual dentro de casa. O personagem de Antônio abusa da própria filha por sugestão de um espírito obsessor. “Este foi um projeto que eu já estava querendo fazer, para transitar pela área do drama, da tragédia até. Esse filme tem um roteiro, uma história, uma trajetória bem difícil — são famílias que vão se reencontrando ao longo das vidas e têm conflitos. O personagem que eu faço é o Cláudio, que tem um espírito obsessor insistindo com ideias erradas, e ele acaba se entregando, num momento de fraqueza, e assediando a própria filha. Foi um trabalho bem interessante de fazer, eu gostei, e acho bacana contar histórias mais fortes também”.

Antonio Fragoso está fazendo filme espírita (Foto: Divulgação)
FUTURO E TEMPO
Para o segundo semestre, Antônio Fragoso retoma seu espetáculo solo O Baterista, monólogo com texto de Celso Tavares e direção de Diego Molina e Alexandre Regis. O ator também deve voltar aos cinemas ainda este ano com o grande sucesso popular Os Farofeiros 3, além do longa Mentira Tem Perna Curta, dirigido por Paulo Fontenelle. Antônio também poderá ser visto no filme biográfico sobre a jogadora de futebol Marta.
O ator lamenta que hoje haja tão pouca oferta de projetos de humor para a televisão. “Acho uma pena. Acredito que o humor, com a questão do politicamente correto e das redes sociais — todo mundo muito exigido ao mesmo tempo —, ficou limitado. Eu sou a favor de um humor leve, que não critica o oprimido e sim o opressor. Mas o ator de comédia está bastante limitado no seu repertório de piadas, de gags, e a gente tem que rever isso, repensar. A culpa não é de ninguém, mas é uma questão importante do momento, de se levantar. Havia piadas que realmente eram abusivas e passavam do limite, com racismo, homofobia e tudo isso que a gente está vendo agora”, avalia.
Há alguns anos, a era era bem difícil, e agora está se colocando um novo olhar. A gente tem que, com humor, rever isso, pensar mais nas piadas. Ficar sempre focado em brincar, em criticar o opressor, e não quem sofre – Antonio Fragoso
O ator tem uma presença marcadamente episódica nas novelas e fez poucas do início ao fim. Ele explica o motivo. “Eu adoro fazer novela, sempre gostei. Não foi nada calculado. Eu fiz algumas do Gilberto Braga por completo, como Força de um Desejo, e chegamos a ficar amigos. Não fiz muitas por falta de convite mesmo. Na Globo, fiz Os Caras de Pau, Zorra… sempre gostei muito de todas as áreas. O cinema tem a vantagem de você receber o roteiro já mais amarrado, pronto, mas também tem liberdade para criar no set — porém se espera muito, é muito mais detalhado, decupado, picotado. Mas é muito bom, eu adoro. Já o teatro foi de onde eu vim; acredito que o ator que é de teatro não consegue ficar muito tempo sem fazer teatro”, diz.

Em 2026 Antonio Fragoso completa 60 anos: “Jovens, envelheçam” (Foto: Divulgação)
No próximo ano, Antônio Fragoso completa 60 anos. “Eu me sinto ainda com 18. Não vejo esse tempo passar. A gente só percebe quando se olha no espelho e vê que está diferente. Mas minha cabeça continua jovem — não sei se é por conta da profissão que escolhi, que mantém a gente jovem. Com o tempo, a gente vai ficando com menos energia, o corpo vai doendo um pouquinho aqui ou ali, mas, fora isso, não vejo problema. Como dizia Nelson Rodrigues (1912-1980), ‘jovens, envelheçam’. Com a experiência, a gente vai aprendendo a viver melhor e mais calmo, conhecendo outras coisas. Estou aprendendo a meditar e a tocar trompete”, conta.
Sobre o amadurecimento masculino, o ator reflete: “Os homens, eu me considero assim, comecei a amadurecer há pouco tempo — até outro dia era um adolescente bobo. As mulheres não, elas amadurecem antes. Os homens, por começarem depois, ficam um pouco mais tempo com essa molequice. Não sei se é por causa da idade, mas estou achando as mulheres de 50, 60 anos cada vez mais lindas. Acho que hoje em dia as mulheres, diferente das nossas mães e avós, se conservam muito bem — se mantêm jovens por mais tempo também. Acrdito que não deveria haver diferença nem preconceito com a idade, porque a experiência é muito rica.”
Por fim, Antônio comenta sua leitura atual. “Estou lendo Como Ser Sobrenatural, do Joe Dispenza, que está me ajudando a aprender a meditar. Ele fala de física quântica, fala que você vive o seu presente, que você precisa vislumbrar o que quer e, através do seu pensamento, da sua força de vontade, chegar onde você quer”.
Entre personagens marcados por dilemas humanos, reflexões sobre a espiritualidade e novos projetos no palco, na TV e no cinema, Antônio Fragoso atravessa um momento em que arte e autoconhecimento parecem caminhar lado a lado. Enquanto o público redescobre narrativas que falam de recomeços, destino e esperança, o ator também se permite revisitar as próprias crenças e olhar para o futuro com curiosidade. No fim das contas, talvez seja justamente esse o maior papel de histórias como essas: lembrar que, antes de qualquer resposta, existe sempre a coragem de continuar fazendo perguntas.
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