*por Luísa Giraldo
Apesar da perda de audiência nas últimas décadas, as novelas ainda são meios de influência e propagação de narrativas no Brasil. Os folhetins permitem a desmistificação de assuntos, propõem discussões variadas sobre tabus e estimulam o compartilhamento de informações. O remake de “Vale Tudo”, da TV Globo, é exemplo dessas tentativas. É a primeira vez que uma mocinha de uma trama é diabética. A personagem Solange Duprat (Alice Wegmann), diretora de criação da produtora Tomorrow recebeu, então, camadas mais complexas — na primeira versão, ela foi interpretada por Lídia Brondi e não tinha a doença. Bastante comentada nas redes, a abordagem da autora da novela, Manuela Dias, é sútil, porém realista: mostra o dia a dia regrado de uma pessoa com diabetes, cuja rotina é marcada pelo controle do nível de glicose e pela supervisão da saúde.
Doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), o roteirista Lucas Martins Néia avalia que “a abordagem da diabetes é pertinente. Cerca de 10% da população brasileira é diabética, uma parcela expressiva. A Solange tem diabetes tipo 1, que exige cuidados específicos, como o controle glicêmico. É interessante trazer essa nuance para a discussão”.
“A Manu quis trazer isso [a abordagem da rotina de uma pessoa diabética], e eu achei bem bacana, porque é uma coisa tão comum e a gente não fala muito, não vê na televisão. Humaniza ainda mais essa personagem. Ela vai usar insulina, canetinha… enfim, é naturalizar uma situação que acontece com milhões de pessoas”, descreveu Alice, à Folha de São Paulo.

A personagem de Alice Wegmann no remake de “Vale Tudo”, Solange Duprat, usa o medidos de glicose (Reprodução/TV Globo)
Além de mostrar a rotina de muitas pessoas que usam a canetinha para administrar as doses diárias de insulina, a autora também relacionou à diabetes de Solange ao seu relacionamento com Afonso Roitman (Humberto Carrão). No início da novela, o galã está determinado a conquistar o coração da mocinha — após descobrir sua condição, ele adapta à rotina a dela. Uma cena que aqueceu o coração dos fãs aconteceu em um evento do rapaz, quando pediu para que todas as comidas fossem preparadas sem açúcar para agradar à amada. Foram gestos “singelos”, mas carinhosos que ajudaram a construir o encantamento do público pelo casal — o apego dos telespectadores é tão grande que não entendem como o personagem conseguirá trair a namorada com a amiga, Maria de Fátima.

Comentários nas redes sociais sobre a abordagem da diabetes de Solange Duprat, no remake de “Vale Tudo”(Reprodução/X)
Inegavelmente, a doença faz sentido para o enredo da novela, porém é possível refletirmos se esse tipo de representatividade é válida na atualidade. Cada vez mais novelas estão aderindo pautas sociais e dando espaços de relevância para grupos minoritários, como pessoas pretas, indígenas, amarelas, com deficiência e assim por diante. A exemplo dessa vitória:
- Duda Santos, em “Garota do Momento”;
- Jéssica Ellen, em “Volta por Cima (finalizada em abril);
- Gabz, em “Mania de Você” (finalizada em março);
- Clara Moneke, em “Dona de Mim”;
- Bella Campos e Thaís Araújo, em “Vale Tudo”.
Doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), o roteirista Lucas Martins Néia analisa a relevância da doença para a narrativa da personagem — e a necessidade de deixar essa relação clara:
É necessário pensar nesse equilíbrio dramático. Ao mesmo tempo que, sim, vai se valer de alguns recursos didáticos e de uma certa pausa em determinados momentos da ação para que aquilo [determinado tópico a ser abordado] seja explicado para o público, tem que costurar aquela temática. A autora deve fazer com que ela se conecte com a história e não soe justamente como algo gratuito — Lucas Martins Néia.
O dramaturgo reconhece a potência das novelas como veículos relevantes de influência para o povo brasileiro ao desmistificarem temas e incentivarem debates.
Diabetes e representatividade
A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) descreve a condição como “uma doença crônica na qual o corpo não produz insulina ou não consegue empregar adequadamente a insulina que produz”. Existem os tipo 1, 2 e gestacional — que aparece somente durante a gravidez, mas que pode ser controlada. A principal diferença entre o diabetes tipo 1 e tipo 2 é a causa da hiperglicemia. No primeiro, o corpo não produz insulina, enquanto no outro, não consegue usar a insulina adequadamente devido à resistência insulínica.
A SBD estima que, atualmente, mais de 17 milhões de brasileiros têm diabetes. Uma preocupação dos endocrinologista, médicos voltados para o cuidado da doença: os grupos de risco, composto por pessoas com obesidade e hipertensão.
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