*por Rodrigo Otávio
Há poucos meses, escrevemos aqui sobre a preparação da TV Globo para a celebração de seus 60 anos — uma marca que, convenhamos, poucas emissoras no mundo alcançaram com tamanha relevância e prestígio. Desde então, a programação especial planejada para marcar a efeméride foi majoritariamente exibida, e a emissora comemorou oficialmente seu aniversário no último sábado. Agora, portanto, é o momento adequado para uma análise crítica dos programas comemorativos — em especial aqueles de caráter metalinguístico, voltados para a história e os bastidores da própria Globo. Desta vez, o olhar volta-se, especificamente, ao especial do “Vídeo Show”, ao revival do “Vídeo Game” e ao relevante Globo Repórter. De todas as atrações, uma que pode ser apontada como a que mais capturou a atenção do público foi o “Vídeo Game”. Exibido em um horário notoriamente difícil — a faixa do sábado à tarde que é, muitas vezes, destinada à programação local —, o especial comandado por Angélica obteve desempenho notável. Às 14h16 do último sábado, por exemplo, registrou expressivos 11,16 pontos de audiência na Grande São Paulo, deixando a Record, na segunda colocação com o “Balanço Geral”, em meros 3,77 pontos.
O sucesso não se deve apenas à nostálgica simpatia que o “Vídeo Game” evoca, mas também ao carisma de Angélica, cuja ausência das telas abertas é um desperdício difícil de justificar. Desde o fim de seu contrato fixo com a emissora, a apresentadora tem feito trabalhos pontuais, apesar de sua reconhecida capacidade de sustentar formatos leves, agradáveis e eficazes — especialmente em faixas historicamente consideradas ingratas, como as tardes de sábado. Vale lembrar que, anteriormente, Angélica já dominava este mesmo espaço com o programa “Estrelas”, outra produção carismática, ainda que subestimada pela crítica.

Xuxa e Junno Andrade enfrentam Fábio Porchat e Priscilla Castello Branco no ‘Vídeo Game’ (Foto: Leo Rosário/Globo)
Comparativamente, o “Vídeo Game” revelou-se um respiro mais interessante do que os quadros sobre memória da TV atualmente exibidos por Marcos Mion no “Caldeirão”, cuja condução se tornou, para dizer o mínimo, afetada e previsível. Aliás, vale a reflexão: o Caldeirão com Mion tem sido apontado como um desgaste do formato.
Cabe recordar que o “Vídeo Game” nasceu em 2001 como um quadro dentro do “Vídeo Show”. Naquele período, Angélica, em transição de público, já ensaiava sua migração do universo infantil para a audiência adolescente. O cancelamento do “Bambuluá” naquele mesmo ano, que combinava novelinha e desenhos animados, seria sintomático dessa mudança de rota. O “Vídeo Game”, no entanto, conquistaria vida longa, permanecendo no ar até 2012, quando foi interrompido pela gravidez da apresentadora.
O “Vídeo Show” propriamente dito, por sua vez, também retornou em caráter especial para a celebração dos 60 anos. Sua expectativa era altíssima, mas o resultado, tristemente, foi um exercício anêmico de nostalgia. Criado em 1983 e extinto em 2019 sem qualquer cerimônia — seu adeus foi um pálido “este é o último programa” dito por Joaquim Lopes e Sophia Abrahão —, o programa merecia mais. Esperava-se que a edição especial trouxesse à tona bastidores inéditos, materiais históricos surpreendentes, ou ao menos uma releitura criativa de sua longa trajetória. Nada disso se concretizou. O que se viu foi um encontro de ex-apresentadores, somado à reexibição de conteúdos já apresentados à exaustão, e influencers dublando cenas clássicas de novela – algo que eles já fazem nas redes sociais.

Paulo Betti e Marcelo Tas apresentaram o ‘Vídeo Show’ nos Anos 1980 (Foto: reprodução/Globo)
Apenas alguns poucos momentos salvaram-se do marasmo: as edições do clássico “Falha Nossa” focadas em novelas então no ar, como “Volta por Cima”, “Garota do Momento” e “Vale Tudo”, e o reencontro de figuras icônicas como Miguel Falabella e Cissa Guimarães. De resto, até mesmo as intervenções da programação no dia 26 de abril — o aniversário oficial da emissora — foram decepcionantes e desprovidas do vigor que a ocasião merecia. Fora isso, o quadro em que comediantes improvisavam cenas caracterizados como personagens clássicos, foi constrangedor.
Paradoxalmente, o maior mérito das comemorações coube ao “Globo Repórter”, tradicionalmente associado ao jornalismo documental, mas que desta vez apresentou o material mais surpreendente e respeitável dentre as celebrações. A produção resgatou uma fita milagrosamente preservada do “Uni Duni Tê”, programa infantil de estreia da emissora, apresentado por Fernanda Barbosa Teixeira, a Tia Fernanda. As imagens, surpreendentemente coloridas, são relativas ao período de 1965 a 1968 — sete anos antes da chegada oficial da televisão em cores ao Brasil —, um verdadeiro tesouro histórico cedido pela família da apresentadora, falecida em 2018.

“Uni Duni Tê” foi o programa de estreia da Globo (Foto: Reprodução/Globo)
Ademais, o programa reconstituiu, com o uso de inteligência artificial, a locução original da inauguração da Globo, recriou o cenário do primeiro telejornal da casa e revisitou, com rara honestidade, episódios polêmicos do passado da emissora nos anos da ditadura militar e a controversa parceria com o grupo Time-Life, a cobertura deficiente da campanha pelas Diretas Já e a parcialidade no debate entre Lula e Collor em 1989. Em um gesto raro e necessário, a Globo, através do “Globo Repórter”, fez seus mea culpas diante da História.
Conclui-se, portanto, que o verdadeiro acerto da emissora ao celebrar sua história foi o especial do “Globo Repórter” — ao mesmo tempo emocionante, informativo e responsável. O “Vídeo Game” revelou-se uma agradável e bem-sucedida surpresa, demonstrando que ainda há espaço para formatos leves, desde que bem conduzidos. Já o “Vídeo Show”, infelizmente, afundou-se em sua própria nostalgia rasa e serviu apenas para decretar, com tristeza, a necessidade de seguir em frente.

Quadro com humoristas foi constrangedor (Foto: Divulgação/Globo)
Nas redes sociais, especialmente no X (antigo Twitter), o público pediu pelo retorno do “Vídeo Game” — ou, ao menos, pelo resgate de Angélica à televisão aberta. Diante da evidente carência de rostos carismáticos no atual cenário da TV brasileira, seria um gesto de inteligência.
A celebração dos 60 anos da Globo deixa, portanto, uma impressão profundamente agridoce. Quando ousou olhar para seu passado com olhos críticos, como no “Globo Repórter”, a emissora ofereceu ao público um material de valor inestimável. Errou a medida, porém, quando não optou pela ousadia no caso do “Vídeo Show”.
Artigos relacionados
Gabriel Braga Nunes comemora sucesso no teatro e nega volta à TV: "Fiz 25 novelas em 25 anos"
GloboPop erra no conceito, falha na execução e revela dificuldades da Globo para competir com TikTok e Kwai
Tatá e Sterblitch reinventam o humor do Multishow com 'ET' e transformam o canal em uma MTV com melhor orçamento